O Beijo da Traição

1383 Words
O uísque desceu queimando, a única coisa quente em uma casa que transbordava frieza. Olhei para a lareira crepitando, saboreando os meus últimos instantes de silêncio. Amanhã, a minha vida mudaria. Cassandra se mudaria definitivamente para cá como a minha esposa, mas o abismo entre nós era mais profundo do que qualquer oceano. Quatro anos atrás, Diego, meu melhor amigo, nos apresentou. Mas o brilho de Cassandra apagou-se. Ela andava estranha, distante, e a i********e que um dia nos uniu agora era uma lembrança amarga. No meu mundo, quem demonstra carência, demonstra fraqueza. À tarde, a prova do terno foi um teatro irritante. Cassandra escolheu um modelo extravagante, ignorando o meu gosto por discrição. Eu era Dominic Frost, o homem que governava as sombras da cidade com punhos de ferro. Eu já havia mandado enterrar rivais por um olhar atravessado e dizimado linhagens inteiras por quebras de contrato. Eu não precisava de plateia; precisava de respeito. Liberei Lian, meu braço direito e o executor mais letal do meu império. Ele estava comigo há mais de 10 anos; era a única extensão do meu braço em que eu confiava cegamente. Queria uma última noite de trégua com ele, Diego e com meu irmão de sangue, Yan. — Aos três melhores irmãos! — Yan bradou no clube, erguendo o copo. — À minha última noite como solteiro. — a minha voz saiu seca, gélida. Bebemos e jogamos sinuca, mas o vazio ao meu lado era um grito silencioso. Diego não apareceu. O homem que deveria ser o meu padrinho simplesmente desapareceu. Na máfia, silêncio e ausência são sinais de guerra. Às 23h, dispensei Yan e Lian. Segui sozinho, sentindo o peso da traição antes mesmo de ela se revelar. O desastre veio rápido. O pedal do freio afundou no assoalho. Sabotagem. Joguei o carro numa curva fechada e pulei antes que o metal virasse o meu caixão. O asfalto me rasgou a pele, mas a adrenalina sufocou a dor. Encharcado de sangue, cheguei à porta de um restaurante, estava destrancada. Entrei como um furacão, o som dos meus passos ecoando no salão vazio. Uma garçonete pálida soltou um grito abafado. Saltei o balcão de mármore e, antes que ela pudesse reagir, segurei-a pelo colarinho, trazendo o seu rosto para centímetros do meu. — Escute bem — sibilei, os meus olhos fixos nos dela com uma intensidade que parecia queimar. — Se você abrir a boca para dizer que estou aqui, eu garanto que você morre antes de eu atingir o chão. Entendeu? Ela assentiu, paralisada pelo terror. O som de passos pesados interrompeu a nossa "conversa". Ela, num reflexo de puro desespero, puxou uma pilha de toalhas de mesa e as jogou por cima de mim... Um segundo depois, uma cadeira foi lançada longe por um chute violento. Vico, Rocco e Pietro se aproximavam do balcão. — Cadê o rastro do Frost? — Vico rosnou. Ele aproximou-se ainda mais e agarrou o cabelo da garçonete com força, puxando a sua cabeça para trás. — Um homem grande, tatuado, olhos claros. Se mentir para mim, eu corto o seu rosto. Por baixo das toalhas, a minha fúria ferveu. Ver aquele verme tocar nela daquela forma me deu vontade de arrancar as mãos dele. Ninguém tocava no que estava sob o meu domínio. — E-eu não vi ninguém! — ela soltou um gemido de dor. — Tem algo aqui, Vico! Parece sangue — Pietro apontou. Vico apertou ainda mais o cabelo dela. Num ato de pura loucura, ela deslizou o dedo na gota vermelha e a levou à boca. — Sangue? — Ela soltou uma risada histérica. — Isso é molho bolonhesa! Falta sal, inclusive. Querem provar? Vico a soltou com um empurrão brusco o olhar fixo ao dela. — É molho mesmo, chefe — Pietro guardou a faca. — Ninguém teria estômago para tocar no sangue do Dominic Frost. Dizem que o sangue dele é puro veneno. E... se fosse realmente o sangue do "Açougueiro", ela estaria morta agora, não reclamando da falta de sal do "molho". Alicia, sentindo que o blefe tinha colado, não deu tempo para que eles mudassem de ideia. Ela apontou para uma pequena luz vermelha que piscava no teto, perto do caixa. — Estão vendo aquilo? Meu chefe instalou câmeras térmicas ligadas direto com a central. A patrulha passa nesta rua a cada cinco minutos devido aos últimos assaltos. Se eu não digitar o código de "segurança" no painel em trinta segundos, viaturas irão cercar este local. Quem quer pagar para ver? O medo de serem pegos pela polícia, falou mais alto. — Vamos embora! — Vico ordenou, cuspindo no chão. — Mas se eu descobrir que você nos fez de i.d.io.t.a.s, eu volto para garantir que o seu próximo jantar seja o seu último. O som dos passos apressados indicaram que eles tinham ido embora. Joguei as toalhas que me cobriam para o lado, sentindo o peso do tecido sujo e o incômodo do sangue começando a secar na minha pele. Levantei-me devagar, ignorando a pontada de dor no meu ombro ferido, e me aproximei dela. Alicia ainda estava paralisada, a postura rígida de quem acabara de encarar o abismo e sobreviveu por um fio. Os meus olhos percorreram o seu rosto pálido, descendo para o seu p.e.i.t.o até pararem no metal sem brilho de um crachá barato preso ao uniforme de garçonete. Um tempo depois, vi o brilho dos faróis do Cadillac de Lian do lado de fora. O silêncio do restaurante foi quebrado pelo som da porta da frente escancarada novamente. Mas não eram os capangas. Era Tierry, o dono do lugar, que apareceu com o rosto vermelho de raiva. — Mas o que significa isso?! — ele berrou, ignorando a minha presença nas sombras e avançando na direção de Alicia. — Você destruiu o meu restaurante, sua i.n.ú.t.i.l! Ele levantou a mão de forma agressiva e ela se encolheu. Caminhei até ele, sentindo a aura de morte emanando de cada poro do meu corpo. — Ela está sob a minha guarda agora. Eu sou Dominic Frost. Eu já matei homens por muito menos do que esse tom de voz. Se você olhar para ela de novo, eu arranco pessoalmente a sua língua. O rato quase desmaiou, o rosto pálido como um cadáver antes mesmo de eu encostar nele. Mas o som seco de disparos vindos da rua interrompeu o show. O vidro da fachada explodiu em mil pedaços, os d.e.s.g.r.a.ç.a.d.o.s tinham voltado com reforços. Agarrei Alicia pela mão e a puxei com força para o lado de fora, no meio do fogo cruzado. — Lian, limpe o lixo! — gritei, a minha voz cortando o caos. Lian e os meus homens abriram fogo, transformando a calçada num corredor de chumbo. No meio daquela tempestade de balas, senti o corpo de Alicia travar. O pânico a transformou em estátua. As balas voavam, estilhaçando tudo, se ela gritasse, seríamos alvos fáceis. Para protegê-la e garantir o silêncio, eu a puxei pela cintura e tomei os seus lábios em um beijo abrupto. Era tático e necessário. Mas a reação dela atingiu-me como um tiro no peito. Ela entrou num estado de combate desesperado. Os seus olhos arregalaram-se com um terror que eu nunca tinha visto num campo de batalha. As suas mãos subiram para o meu p.e.i.t.o, empurrando-me com uma força frenética, os dedos cravando-se no meu terno enquanto ela tentava, a todo o custo, se afastar de mim. Ela lutava contra o beijo como se eu fosse um carrasco prestes a tirar a sua vida. Eu fiquei completamente confuso. O que estava acontecendo? Eu estava salvando a vida dela, estava servindo de escudo, e ela me tratava como se eu fosse o próprio monstro que a perseguia. Prendi os seus braços para que ela não se machucasse na luta, mantendo o domínio, mas o corpo dela tremia tanto que eu podia sentir os seus ossos chocalharem contra os meus. Ela não estava apenas com medo; ela estava em agonia. Quando o silêncio finalmente voltou, eu a soltei. Alicia me olhou com os olhos perdidos, o rosto manchado de lágrimas. O terror nos olhos dela não era mais devido às balas, era pelo meu toque. — O que... o que você é? — a voz dela falhou e ela desabou.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD