Capítulo 02 - Helena

1108 Words
Helena narrando Me chamo Helena Simão, tenho 26 anos e sou arquiteta. Nasci e cresci na CDD, a Cidade de Deus. Sou carioca da gema e amo o meu Rio de Janeiro. Sou loira, tenho 1,70 de altura e olhos azuis – aquele padrão que a sociedade adora. Mas nunca liguei para isso; para mim, o que importa é o que as pessoas carregam consigo, no coração e na mente. Beleza é apenas um detalhe. Na escola, assim que comecei o ensino fundamental, com uns 11 para 12 anos, vivi a pior e também a melhor fase da minha vida. Vou explicar por que essa fase passou de ferro a fogo tão rapidamente. Quando eu mudei de escola, achei que seria difícil, mas não tanto assim. Foi só eu pisar na escola nova que as coisas começaram a desandar. Não demorou muito até eu perceber que algumas meninas, as autointituladas “populares e lindas” pareciam ter me escolhido como alvo. No começo, tentei ignorar, achando que era só questão de tempo para que perdessem o interesse. Mas eu estava enganada. Entre essas meninas, a chefe delas era a Karen. Ela não saía do meu pé. Karen adorava arrumar um jeito de cruzar o meu caminho, jogando piadinhas ou comentários maldosos sobre a minha aparência, meu jeito, qualquer coisa que ela pudesse usar para me diminuir. Até que teve um dia em que ela passou dos limites. Foi no intervalo, quando decidi dar uma escapada para o banheiro, tentando encontrar um pouco de paz, nem que fosse por alguns minutos. Mas, quando saí da cabine, lá estava Karen e suas amigas, me esperando na porta. Antes que eu pudesse reagir ou entender o que estava acontecendo, começaram a me empurrar de um lado para o outro, rindo e cochichando entre elas. No começo, eu só tentava me desvencilhar, mas depois comecei a chorar, sem conseguir controlar. Elas continuaram por um tempo, mas, assim que perceberam minhas lágrimas, correram, me deixando ali, sozinha. Eu me sentei no chão, encostada na parede, encolhida, com o rosto nas mãos. Eu estava com medo, com raiva, e me sentia humilhada. Eu não queria que ninguém me visse assim, tão vulnerável, mas também não conseguia me mexer. Foi então que senti uma mão tocando na minha. Levantei o rosto, ainda com os olhos cheios de lágrimas, e vi que era o Danilo. Danilo era um dos meninos mais populares da escola. Ele jogava no time de futebol, era engraçado e parecia amigo de todo mundo. Eu nem sabia que ele sabia meu nome, mas ali estava ele, olhando para mim com uma expressão de preocupação. Perguntou se eu estava bem, e naquele momento, sem nem pensar direito, comecei a contar tudo o que havia acontecido. Danilo ficou furioso ao ouvir o que Karen e o grupo dela tinham feito. Disse que ia falar com ela, que não ia deixar isso assim, e até ameaçou dar uma lição na Karen. Na mesma hora, segurei o braço dele e pedi que não fizesse nada. Expliquei que eu não queria mais confusão e que, além disso, homem não bate em mulher, de jeito nenhum. Ele suspirou, meio contrariado, mas respeitou meu pedido. Depois daquele dia, Danilo e eu nos tornamos praticamente inseparáveis. Sempre que a minha mãe fazia bolo, brigadeiro, ou qualquer sobremesa diferente, eu separava um pedaço e levava para ele no dia seguinte. Era algo que eu fazia com carinho, e ele sempre recebia com um sorriso. Descobri que os sabores preferidos de sorvete dele eram flocos e amendoim, então, sempre que tomávamos sorvete juntos, tentava escolher algo que combinasse. O tempo foi passando, e a nossa amizade só crescia. Ele começou a ir na minha casa para estudar, e passávamos horas juntos na varanda. Eu adorava ajudá-lo com as tarefas da escola, e ele me ajudava a entender algumas matérias que eu achava difíceis. A primeira vez que fui ao cinema no shopping foi com o Danilo. Ele me fez companhia, e depois da sessão, ainda comemos pipoca e demos muitas risadas lembrando das cenas engraçadas. A verdade é que Danilo se tornou muito mais do que um amigo para mim. Ele era como um irmão. Alguém em quem eu podia confiar, que me ouvia e me entendia. Estar ao lado dele fazia eu me sentir segura, e ele era aquele tipo de pessoa que tornava os dias melhores. Com o tempo, eu comecei a perceber que o Danilo estava mudando. Parecia mais distante, às vezes, e evitava alguns dos nossos lugares favoritos. Mas comigo, ele era o mesmo. Eu sentia que ele ainda era meu amigo, o Dan com quem eu compartilhei segredos. Eu nunca questionava muito, afinal, ele estava lá quando eu precisava, e isso bastava. Até que, em um fim de tarde, meus pais me chamaram para conversar. O tom sério no rosto deles me deixou com um frio na barriga. — Filha, é melhor você se afastar do Danilo. Eu lembro de ter perguntado o porquê já com lágrimas nos olhos, sentindo um aperto no peito, como se já soubesse que algo estava errado. Eles me explicaram, com um cuidado que quase parecia pena, que Danilo estava envolvido com o movimento da comunidade, que estava se metendo em coisas perigosas. Eu não quis acreditar. Aquele não era o Danilo que eu conhecia. Meus pais não entendiam, eles não o conheciam como eu. Continuei nossa amizade, mesmo com todas as advertências. Só que, um dia, quando voltei da escola, vi minha mala arrumada no canto do quarto. Minha mãe estava lá, com um olhar triste, e me disse que eu iria para São Paulo, morar com minha tia e madrinha. Eu quis lutar, quis protestar, mas sabia que era inútil. Fui embora sem sequer poder me despedir do Danilo. Naquele dia, chorei a viagem inteira, e os primeiros dias em São Paulo foram um verdadeiro pesadelo. A cada canto da casa da minha tia, eu me sentia mais sozinha, como se parte de mim tivesse ficado para trás, lá na cidade de Deus. Com o tempo, conheci pessoas novas e fiz alguns amigos. Mas, mesmo depois de tantos meses, ninguém preencheu o espaço que o Dan deixou no meu coração. Todas as noites, antes de dormir, eu tiro a foto que tenho guardada, uma foto nossa, tirada no dia em que o time da escola venceu o intercolegial. Beijo a foto e fecho os olhos, como se esse gesto fosse me trazer um pouco dele, onde quer que ele esteja. Danilo sempre será meu melhor amigo. Mesmo que o mundo nos separe, a memória dele sempre estará viva em mim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD