Capítulo 03 - Dagon

1014 Words
Dagon Narrando Fala, meus cria! Meu nome é Danilo Barreto, tenho 28 anos, 1,90 m de altura, várias tatuagens espalhadas pelo corpo, olhos e cabelos castanhos. Sou o chefe do tráfico da CDD, a Cidade de Deus. Chegar até aqui não foi fácil, meus cria. A caminhada nem sempre é como a gente imagina. Hoje eu sou um homem maduro, mas quando entrei nessa vida, era só um moleque sonhador. Ser traficante nunca foi a minha primeira opção de escolhas na vida. Eu tinha um sonho, tá ligado? Eu queria ser engenheiro, porque o sonho da Helena era ser arquiteta. A gente até montou uma empresa nos nossos papos de adolescente. Calma aí que eu vou te explicar quem é a Helena. Eu tenho mais dois irmãos e meus pais são muito simples. A gente morava em um barraco de três cômodos: a sala, que era o quarto, a cozinha e o banheiro. Assim, a gente vivia os cinco. Minha mãe descobriu uma doença quando eu ainda era moleque e começou a andar para o médico. Ela parou de trabalhar porque não aguentava. O problema da minha mãe era nos ossos. Meu pai trampava sozinho, eu e meus irmãos estudávamos; não tínhamos idade para trampar e minha mãe também não deixava a gente descer para o asfalto para vender balinha, esse tipo de bagulho, para ajudar. Eu sempre fui amigo da galera. Era muito de boa. Engraçado eu dizer, mas aquele Danilo morreu um dia na escola. Eu tava saindo do banheiro masculino quando ouvi choro vindo do lado do banheiro das meninas. Taquei o f**a-se e fui lá ver quem estava chorando e, para minha surpresa, era a loirinha mais linda da escola, Helena, o nome dela. Sabe aquele tipo de garota princesinha que tu olha e já se apaixona? Assim era a Helena. E a Karen, que sempre foi p**a, acho que aquela ali já nasceu assim, invejosa, maltratou a Helena. Fiquei puto, mano! Eu queria bater na Karen, mas a Heleninha, toda linda, me pediu para não fazer isso. Prometi que não ia fazer, não bati, mas dei um esculacho na Karen e ainda dei um passa fora nela na frente do time inteiro. Ela mandou uma carta pedindo para me beijar, eu mostrei aos moleques tudo e a gente gastou com a cara dela. E ela virou piada na escola. Eu virei amigo da Helena, me perdia naqueles olhos lindos, naquela boca rosada, na risada dela, no cheiro; Helena era perfeita. O tempo foi passando e a situação da minha mãe piorando. Remédio caro, tinha que pagar carro pra levar ela no hospital nos dias das paradas dela. Chegou a faltar comida em casa. Tinha dia que a gente não tinha nem feijão nem carne, só arroz para comer no almoço e na janta. Mas a Helena sempre salvava o meu dia. Às vezes, ela me trazia um pedação de bolo de cenoura com cobertura de chocolate e suco. A gente comia junto na hora do intervalo, porque nem sempre tinha merenda na escola da quebrada. E toda vez que a gente saía da escola, a gente tomava sorvete. Ela pagava, eu tinha vergonha, mas aceitava. Eu sabia que muitas das vezes aquele sorvete ia ser a minha janta. Mas eu sempre dizia a ela: “Quando a gente crescer, eu vou comprar uma sorveteria todinha para você.” E ela sorria. Só que um dia meu pai me chamou e chamou meus irmãos e disse que a minha mãe estava condenada. Se não fizesse o tratamento intensivo e não tomasse a medicação, ela ia morrer. Aquilo me bateu num desespero, mas tudo era muito caro. Eu e meu pai não tínhamos grana; mesmo se a gente deixasse de comédia e pagasse a luz, mesmo que a gente fosse morar embaixo da ponte, o salário do meu pai não era o suficiente para tudo. Foi então que eu decidi procurar o Coringa, o dono da boca. Falei com os moleques que me levaram até ele. Por eu ser amigo da galera, não tive dificuldade; o Coringa já me botou de aviãozinho. O dinheiro começou a entrar e eu comecei a ajudar meu pai. Ele nem quis saber de onde veio o dinheiro; meti meus irmãos nessa também e a gente foi se fortalecendo. Até que um dia um moleque que era vizinho da Helena me falou que ela foi embora. Eu corri na casa dela, bati no portão, gritei, chamei, mas ninguém saiu. Foi quando o Sal me falou que a mãe dela bateu para as vizinhas que ia tirar ela do morro para afastar ela de mim. Aquela velha maldita arrancou meu coração do peito. Helena, a minha Heleninha, a única pessoa nessa vida que se importou comigo, o amor da minha vida, a garota com quem eu fiz planos. Eu queria mudar de vida, tá ligado? Queria ter condições de dar tudo pra ela. Eu amava a Helena, mesmo ela me vendo como amigo; eu me contentava com isso. Eu só queria estar perto dela. Sabe quando vira a chave na sua vida? Eu não queria mais saber de nada nem de ninguém. Eu não tinha mais dó de ninguém. A minha melhor parte foi arrancada de mim assim tão de repente que nada mais fazia sentido. No amor e na bondade, comecei a tacar o terror mesmo na quebrada. Tem certas pessoas que preferem ver o d***o do que a mim. Coringa começou a me analisar e toda a missão que ele me dava eu cumpria. Deixei de ser aviãozinho e virei o braço direito do chefe. Ele me emprestou toda a grana, minha mãe fez todo o tratamento e se curou, e eu tive que continuar no movimento, fazendo tudo que o Coringa mandava. A minha dívida com ele é eterna. Matar, roubar, traficar droga, arma, puta... tudo isso faz parte do ofício. Faço sem peso na consciência, se é que eu tenho essa parada. Larguei a escola, troquei o lápis pelo fuzil. Onde eu chego, vagabundo abaixa a cabeça porque sabe que chegou o Dagon.
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