Capítulo 04 - Helena

1337 Words
Helena Narrando Cheguei em casa exausta. O dia tinha sido longo, e tudo o que eu queria era um banho quente e silêncio. Não tinha ninguém em casa, o que, sinceramente, era um alívio. Pendurei minha bolsa no cabideiro da sala e fui direto para o quarto, sentindo a paz do silêncio. Tirei a roupa, deixei as coisas espalhadas pelo chão e entrei no chuveiro, deixando a água levar embora o peso do dia. Fiquei ali por alguns minutos, só sentindo o calor relaxar meus músculos cansados. Depois do banho, coloquei meu pijama mais confortável, O cheiro de limpeza me deu uma sensação boa de descanso, mas sabia que ainda tinha um trabalhinho para terminar antes de realmente poder relaxar. Fui até a cozinha, esquentei a comida e comi em silêncio, só escutando o barulho do micro-ondas apitando e o tic-tac do relógio na parede. Quando terminei de jantar, voltei para o quarto com meu notebook e me ajeitei na cama, pronta para encerrar o último relatório do dia. Ainda não tinha terminado nem metade do que precisava quando meu celular tocou. Olhei o visor e vi que era a minha mãe. - Oi, mãe - atendi, ajeitando o telefone entre o ombro e a orelha enquanto ainda digitava. - Oi, filha! Tô te ligando pra contar as últimas novidades da CDD. Eu ri, imaginando o tom empolgado que só ela conseguia ter para falar do bairro. Minha mãe tinha uma habilidade incrível para se manter atualizada com a vida de todo mundo, ela Começou a contar sobre a vizinha que tinha feito uma reforma na casa e o filho da dona Lurdes que tinha conseguido um emprego novo. Em algum ponto da conversa, lembrei de uma pessoa específica, que não vejo a dez anos, e morro de saudades e aproveitei para perguntar: - Mãe... e o Danilo? Houve um breve silêncio do outro lado, quase como se ela estivesse escolhendo as palavras. No fim, respondeu com um suspiro: — Não sei, filha, nunca mais vi ele. Senti uma pontada de tristeza. Danilo sempre foi alguém que significou muito para mim, mas a vida nos afastou. Minha mãe continuou falando sobre outras coisas, e eu tentava manter a conversa, mas minha mente já estava longe. Conversamos mais um pouco, ela me deu mais alguns conselhos, e quando vi que já estava tarde, nos despedimos. - Boa noite, filha. Se cuida. - Pode deixar, mãe. Te amo. Depois que desliguei, olhei para o trabalho que tinha que terminar e respirei fundo, focando o que restava de energia para dar conta do último relatório. É um trabalho que finalizei. Quando terminei, fechei o notebook p e apaguei a luz do abajur. Estava cansada, mas uma parte de mim ainda se sentia inquieta. Peguei a foto minha com o Dan e dei um beijo suave, como se aquilo me trouxesse alguma paz. Finalmente, me ajeitei na cama, abraçando o travesseiro. Aos poucos, o cansaço tomou conta e, com os pensamentos ainda vagando por memórias de tempos que já passaram, adormeci. Acordei cedo, ainda com o corpo meio mole e a mente meio zonza. A primeira coisa que fiz foi ir direto pro banho, deixando a água escorrer pelo meu rosto, como se pudesse lavar qualquer vestígio do cansaço que eu sentia. Hoje não tinha tempo para enrolação. Me vesti rápido, coloquei a primeira roupa decente que vi no armário e segui direto para a cozinha. Um café preto puro, bem forte, foi tudo o que tomei. Um gole rápido e amargo, só pra garantir que meu cérebro iria despertar junto comigo. Cheguei na construtora pouco tempo depois. Assim que entrei, um dos assistentes me abordou logo na entrada, avisando: — O chefe está te esperando na sala dele, Helena. Engoli seco. Não era comum ele querer falar comigo logo de manhã. Respirei fundo, ajeitei o blazer, e fui até a sala dele com passos firmes, tentando controlar a ansiedade que já começava a apertar no estômago. Assim que entrei, ele já estava lá, com o rosto sério, os olhos fixos em mim, e uma expressão de quem não estava nem um pouco satisfeito. — Helena, podemos conversar? — ele começou, cruzando as mãos em cima da mesa. Assenti e entrei, fechando a porta atrás de mim. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele já começou. — A cliente que você atendeu ontem fez uma reclamação — disse ele, num tom seco. — Ela mencionou que não ficou satisfeita com o seu atendimento e que você ignorou as sugestões que ela fez sobre o projeto. Fiquei surpresa. Aquela cliente havia sido super receptiva comigo. Eu sabia que ela tinha gostado do que eu apresentei e parecia feliz com o andamento do projeto. Mas antes que eu pudesse argumentar, ele continuou: — E é a segunda vez que isso acontece em um mês, Helena. Já estou ficando sem paciência. Não podemos nos dar ao luxo de perder clientes importantes assim. — Desculpa, mas eu acho que houve um m*l-entendido, chefe — respondi, com um tom mais firme do que eu planejava. — A cliente adorou o projeto. Na verdade, ela até elogiou minha dedicação e disse que estava ansiosa para ver o resultado final. Ele franziu o cenho, como se minha resposta tivesse o irritado ainda mais. — Você está tentando me dizer que a reclamação é inválida? Que ela mentiu? — Ele me olhou com aquele ar de superioridade, como se soubesse algo que eu não sabia. Balancei a cabeça, tentando me manter calma. — Não estou dizendo isso. Mas acredito que a reclamação não veio dela, e sim da esposa dela. A esposa que ficou o tempo todo implicando, querendo mudar tudo, mesmo sem entender nada do projeto. E no final, foi ela que começou a questionar o trabalho, enquanto a cliente estava satisfeita. Ele soltou um suspiro impaciente, e seu olhar endureceu ainda mais. — Olha, Helena, eu realmente não tenho tempo pra ficar discutindo os problemas conjugais dos nossos clientes. Pra mim, o que importa é o que chega até mim oficialmente. E se chegou uma reclamação, é porque algo não foi bem conduzido. Sabe o que isso demonstra? Que você não soube contornar a situação, nem com a cliente, nem com a esposa dela. Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. — Desculpe, mas eu acho que o senhor está sendo injusto — respondi, me esforçando para manter a voz firme. — Eu fiz o meu trabalho com excelência, e a cliente gostou. Ela inclusive deixou isso bem claro pra mim no final da reunião. A esposa dela que é quem estava causando problemas. Isso não tem nada a ver com minha competência. Ele me lançou um olhar de desprezo, como se já tivesse decidido o que ia fazer desde o começo da conversa. — Helena, eu cansei das suas desculpas e da sua falta de profissionalismo — ele disse, num tom gélido. — Eu não estou pedindo a sua opinião. Estou aqui pra resolver problemas, e não pra escutar justificativas. Se você não consegue lidar com uma situação como essa sem criar confusão, então, infelizmente, a construtora não é o lugar certo pra você. Minha respiração falhou por um segundo. Eu não queria acreditar no que estava acontecendo. Passei anos me dedicando a cada projeto, trabalhando muito além do necessário, me empenhando em cada detalhe. E agora, tudo parecia se desfazer em segundos por causa de uma situação que eu nem tinha causado. — O senhor está me demitindo? — perguntei, ainda sem acreditar. Ele assentiu, os braços cruzados e o olhar frio. — Sim. Hoje será seu último dia aqui. Pegue suas coisas e se despeça dos seus colegas. Senti um nó na garganta, mas me recusei a chorar. Saí da sala dele sem dizer mais nada. Eu podia até sentir a revolta crescendo dentro de mim, mas, ao mesmo tempo, sabia que aquela porta estava se fechando de uma forma definitiva. E talvez, no fundo, isso fosse o que eu realmente precisava.
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