Capitulo 3. Olhos que vigiam

3650 Words
  De um canto estratégico do salão onde era realizado o velório de Ângela Ramos de Melo, o homem observava o novo desastre promovido pela irmã da falecida, a legendária Isabella Ramos de Melo, ou melhor, Isabella Nigro Almada, que constrangedoramente, excluiu o sobrenome da família ao se casar. A filha mais nova do senador Tito era uma velha conhecida das rodas de fofocas por estar sempre envolvida em algum tipo de confusão. Desde a infância deu trabalho na escola, nos círculos de amigos, na vizinhança. Ninguém surpreso com o pequeno incidente. As pessoas olharam o desastre com as mais diversas reações: umas com descaso, outras com pena, algumas com deboche. O marido da moça não exibiu qualquer alteração em sua expressão facial, falou apenas algo incompreensível àquela distância e arrastou para fora das vistas de todos. Era sempre interessante observar o casal quando estavam juntos. Não existe conexão, i********e ou afeição entre eles. Desempenhavam, muito m*l, o papel de recém-casados apaixonados. Especulava-se aquele casamento foi forjado numa mesa de negócios, negócios que não estavam exatamente claros. Heitor Nigro Almada era conhecido por ter verdadeira aversão a políticos e criar estratégias para manter os narizes bem longe de seus negócios. Num mundo onde todos queriam vencer alguma licitação, ele optou por afastar e desenvolver seus negócios o mais possível deles. Talvez por conta das trapalhadas do avô no passado. Quando assumiu os negócios da família, ainda aos 27 anos, Heitor fez questão de afastar o próprio pai e tios das empresas. É claro, não foi difícil uma vez que a família começava a perder prestígio no mundo dos negócios pelas escolhas equivocadas que fizeram, ainda assim, foram um tanto chocantes e excêntricas como suas atitudes. Seja como for, o sucesso e eficiência daquele homem eram inegáveis, em nove anos sob sua administração, ele havia triplicado o capital do conglomerado de empresas e expandido para áreas que antes ninguém imaginaria. A pergunta principal caso era: que tipo de situação faria o irascível Heitor Nigro Almada se dobrar? Como a desastrada, mesquinha e vingativa Isabella se encaixava nos planos do herdeiro? É claro, houve a especulação de que talvez os negócios não fossem tão bem ou que o próximo no passo no plano ambicioso de ascensão do clã Almada fosse à política. É claro, havia também a teoria que o poderoso empresário era na verdade homossexual e aquele casamento nada mais era que uma cortina de fumaça. O fato dela ser amiga do avô do marido, que era conhecido por suas posições conservadoras, reforçava a hipótese de que a jovem era apenas aquela segurava a chave do armário onde o sujeito mantinha escondida sua sexualidade, mas isso era bobagem. Os casos de Heitor, fossem com homens ou mulheres eram muito bem escondidos.  Ele tinha especial cuidado em não se envolver com ninguém. Seu único amor era o poder. Não por acaso, aquele improvável enlace foi um choque para os meios políticos e empresarial. O Mercado ficou turbulento por dias após o anúncio do enlace, que aconteceu poucos dias depois. Foi um noivado relâmpago. Por ser um acordo recente, era impossível imaginar como aquela aliança se daria ou quais repercussões trariam.  O caos que o casal deixou para trás foi habilmente controlado pelos empregados da casa, numa limpeza rápida e eficiente. Não tardou muito para que recém-chegados importantes abafassem o dramalhão protagonizado pela filha desajeitada do Senador Tito. A noite seria longa e o funeral o momento perfeito para forjar novas alianças. De seu lugar o homem apenas observava. Aquele era o seu papel: colher o máximo possível de informação sobre aquela família. Conhecer os seus segredos e quando fosse o momento certo... bem, quando chegasse o momento certo, escolheria como agir. *~*~* — Beba! Autoritário, o marido estendeu o copo para Isabella Ramos, ou melhor, Nigro Almada, Isabella Nigro Almada. Mais que nunca, naquele lugar, ela precisava se apegar a sua nova identidade. Seu novo nome era seu passaporte para outra vida. Quase quatro meses de casada e ela ainda não havia se acostumado ao fato que sua família já não a controlava. Droga, havia se arriscado tanto para escapar dos pais! Só mais algumas horas e poderia ir sem olhar para trás. Toda e qualquer obrigação familiar terminou com a morte da irmã. — Eu estou bem. — Tentou empurrar a bebida para longe. Não precisava voltar aos velhos hábitos, não precisava ser internada secretamente em outra clínica de reabilitação. Podia passar por tudo o que viria sem se anestesiar. Só precisava de um instante para colocar suas emoções sob controle. — Vai ser deselegante de minha parte empurrar isso garganta abaixo da minha esposa, mas vou fazer se for preciso. Que delicado! Isabella sabia que ele seria capaz de tal coisa por dois motivos: não era o tipo que gostava de ser desobedecido e gostava de tomar conta de todas as situações. Quando ele julgava que uma coisa devia ser feita, apenas colocava em execução. E estava ali para impedir que sua esposa desajeitada o fizesse passar vergonha. — Eu não preciso disso — A firmeza na voz de Isabella não enganou a ninguém. — Beba! — Heitor repetiu a ordem naquele tom de comando que fazia a esposa tremer. Sua parca resistência acabou ali. Rapidamente ela pegou a bebida e entornou, apenas para que ele se afastasse. O uísque desceu queimando a garganta. Devolveu o copo sem encará-lo. Odiava sentir-se tão intimidada na presença de alguém, mas não havia como negar: tinha um marido poderoso e sem escrúpulos. Sempre soube disso e assumiu os riscos. A cautela que tinha em sua presença não era injustificada. Até então, havia ficado fora do caminho de Heitor Almada e pretendia permanecer assim. Não estava curiosa em saber se sua fama de usar a violência quando contrariado era verdadeira. Por outro lado, naquele ponto de sua vida, tratamento de choque era tudo o que precisava. Aquele jeito grosseiro dele, de algum modo, era a melhor coisa que acontecia a Isabella naquele dia infernal. Ao menos ele não era falso a ponto de fingir que se importava. Depois do incidente onde o terno italiano de Heitor foi estragado, estavam no antigo quarto de Isabella. Lugar que ela havia prometido nunca mais pisar na vida. A mudança daquela casa foi um verdadeiro evento. Um espetáculo teatral com performance digna de um Oscar. Nada havia levado consigo na esperança de ter finalmente colocado um ponto final na existência de Isabella Ramos. Na verdade, suas roupas foram queimadas, todas elas, em sua despedida de solteira. Aliás, a moça realizara vários rituais estranhos como forma de exorcizar a vida que tivera até ali. As paredes daquele cômodo estavam nuas. Parecia um quarto de hotel, limpo, arrumado, mas abandonado, como se estivesse pronto para um hospede que não tardaria. Era a forma de Dona Mimi dizer que a despeito de tudo, acreditava que a filha ingrata e incompetente estaria em casa muito em breve. Heitor havia se banhado e usava um roupão do sogro. O senador Tito m*l chegava a 1.65. Heitor tinha respeitáveis 1,99 m de altura. Deveria estar ridículo com uma peça que m*l cobria o necessário, parte das coxas musculosas e do peito largo estavam descobertos, mas estava ridiculamente sexy. Era como um homem adulto usando o roupão de uma criança. Além de rico e poderoso, até mesmo fisicamente o homem era impressionante. E Isabella estava mais consciente de sua nudez m*l coberta. “Como se precisasse de mais algum motivo para ficar nervosa.” — Ótimo. Agora vá se lavar. Há uma toalha e uma camisola no banheiro. Logo Felipe trará roupas limpas para nós dois. A reação da mulher a tanta solicitude foi entrar em pânico. — Eu não quero ficar aqui... eu quero ir para casa. Para sua casa. — E se levantou pronta para tentar escapar outra vez por qualquer saída. — Isabella — o homem a agarrou pelo braço. — Me deixa ir para casa. Eu quero... — Isa, para! Controle-se! Uma ordem em baixo tom. Ríspida. A mulher paralisou tensa. Todo mundo paralisava quando o marido ordenava. Ela não era uma exceção. — Tudo nessa vida precisa de um encerramento, Isabella. — O que você quer dizer? — Não acha que me casei com você sem investigar sua vida profundamente? Eu sei tudo. Sei de suas fugas. Sei das coisas que seu pai fez para trazê-la de volta. É claro que ele sabia de tudo. Ingenuidade de sua a parte nem ter pensado no assunto sendo Heitor quem era. — Nós vamos embora quando esse circo acabar. — Heitor usou um tom sereno, mas de comando para continuar. — Eu estarei aqui com você enquanto isso. Ao seu lado e não permitirei que ninguém a incomode. Agora se acalme e faça o que pedi. A palavra certa era “ordenei”, mas não seria a mulher a contestar. Apesar de ainda tremer, concordou com um ligeiro aceno. Faria qualquer coisa para que ele a soltasse. O uísque ainda queimava a garganta, mas seu m*l estar era por causa do marido. Será que ele fazia ideia do que sua presença causava nas pessoas?   “— Vai mesmo casar com ele? — Vou... — Ele me assusta...  — Todo mundo assusta você, Ângela. — Ele mais que todo mundo. Ele... é capaz de matar... eu sei. Eu sinto. Ele tem uma coisa no olhar que me apavora. — Então, que sorte a sua que sou eu quem vai casar com ele...”   No dia em que Isabella tinha informado com quem se casaria, havia debochado da reação da irmã. Não debochava mais. Esperava que a própria estupidez não causasse sua mais completa ruína. Que bela confusão se meteu! Como sairia daquela enrascada? Uma coisa de cada vez. Primeiro, precisava como Heitor sinalizou, precisava de um encerramento com sua família. Depois daquele dia estaria sozinha no mundo... Outra tolice! Sempre esteve sozinha no mundo, era hora de encarar essa realidade. Só precisava suportar sua família por algumas horas e então estaria acabado. Nem mesmo precisava olhar para trás após sair. Talvez fosse hora de levar a Lu consigo e para isso, precisava da boa vontade do marido. — Desculpe por não ter ligado. — Pediu com fingida calma. — Sei que você gosta de saber o tempo inteiro onde estou, mas... — Eu sempre sei onde você está... Isabella inspirou profundamente. Claro que sabia. Aquele homem não era conhecido por deixar na ao acaso. Era absurdo como ele sempre estava dez passos a sua frente. Ele tinha mesmo que fazê-la sentir-se estúpida e inútil todo o tempo? — Desculpe também por não ter avisado sobre minha irmã... eu não pensei em nada. Lamento se mais uma vez dei motivo para falarem de nós. — Eu não me importo com as outras pessoas, Isabella. A menos que precise delas. E mesmo assim, escolho o modo como devo me importar. O senhor desalmado e sua sinceridade cortante. Ele fazia jus ao apelido. —Eu vim por você, Isa. Vim por que achei que poderia precisar de mim. Não pense demais, procure justificativas. Viva o seu luto. Hoje, vamos esquecer nossas questões e pensar apenas em você. As palavras exatas que Isabella precisava ouvir. Droga! Ele era bom. Fosse qual fosse o plano, ele a teria em suas mãos em pouco tempo. Ouvir uma mera insinuação que alguém se importava com ela naquela situação, para Isabella, era quase como entrar no paraíso. Era daquele jeito o demônio deveria tentar as pessoas. Oferecendo o que a pessoa mais precisava, no momento mais difícil. Infelizmente a filha do senador não acreditava que a nova atitude do marido estava relacionada a afeição. Carinho. Todos os dias de sua vida ela mendigou carinho, conforto. Por um segundo quase se iludiu e desabou outra vez na frente do marido, mas rapidamente se refez. Demonstrações sentimentais destoavam entre eles. Foi essa compreensão que fez Isabella cair em si. Estava sendo patética. Como sempre. — Eu vou tomar banho. — Ela se informou com toda frieza que pôde reunir. — Quando voltar, estarei mais controlada. Prometo. Demonstrando impaciência, ele desabafou. — Isabella, eu não espero que você seja insensível o tempo inteiro. — E percebendo que foi duro demais, completou num tom confidente. — Até mesmo eu tenho os meus limites, não importa o que digam por aí. Havia uma leve ironia no último comentário. Se tivesse coragem e confiança o suficiente, a mulher teria dito o que pensava, mas, como sempre, escolheu o caminho mais covarde: fugiu. A água não poderia lavar tudo, mas poderia esconder momentaneamente as lágrimas. Foi ali que a filha do senador deixou que o mais profundo desespero a dominasse.  Seus medos, suas culpas, seus arrependimentos. Era mais um daqueles momentos tão familiares em que queria ser outra pessoa, com outra histórias, outras perspectivas. Isabella passou muito tempo sob o chuveiro tentando dá vazão a sua dor e reencontrar a serenidade. Uma missão impossível diante das informações que possuía. “Eles tiveram uma briga violenta... como eu nunca vi. Sua irmã enfrentou os dois. Dona Mimi disse que a internaria novamente... que a trancaria em um manicômio jogaria a chave fora. Era madrugada quando eu fui ver a menina... ela não acordava... tinha quebrado o quarto inteiro, mas arrumaram quando ela foi para a emergência, antes da polícia chegar... eu queria ligar para você, mas... estamos proibidos de comentar qualquer coisa. Até mesmo com você. Seu pai está possesso e já avisou que se qualquer história vazar, haverá consequências.” A jovem senhora Almada apenas podia imaginar o desespero da irmã. Seus pais não ameaçavam a toa. Ela mesma já foi colocada em uma instituição por tempo suficiente para repensar o seu comportamento. Com Ângela que já tinha histórico psiquiátrico, não seria difícil. ... e você a deixou aqui sozinha! Se o que desconfiava fosse verdade... como ela poderia viver com aquele peso em sua consciência? Quando saiu do chuveiro estava com a pele enrugada e o fez somente após o segundo chamado do marido. Mesmo então, demorou a se arrumar, numa tentativa de adiar um novo confronto. Tolice. Quando finalmente saiu do banheiro, ele estava ao telefone, concentrado em uma de suas conversas de negócios. Nesse aspecto, Heitor Nigro Almada era muito parecido com o pai da esposa: os negócios vinham sempre em primeiro lugar. Aproveitando a oportunidade, saiu do quarto sem fazer ruído e num arroubo de coragem atípico de sua pessoa, decidiu que precisava saber o que aconteceu. Estava disposta a cavar a verdade e suportar as consequências. Era o mínimo que poderia fazer pela irmã. O corredor da ala dos quartos estava vazio. Mesmo com a casa cheia, ninguém ousaria invadir a privacidade da família. Os Ramos de Melo eram a típica família tradicional. Respeitados quando vistos de fora, um show de horrores se vistos de dentro, de muito perto. Isabella não conseguia recordar-se de um único momento em que estar com os pais trouxe alguma satisfação. Na infância participava de qualquer atividade que a tirasse de casa, qualquer coisa que deixasse respirar por algum tempo. Cada um dos três filhos de dona Mimi encontrou seu próprio refúgio: João Lucas no judô, Ângela em seu atelier e Bella... bem, Belinha era boa mesmo em fugir. De casa, do colégio, da vida. Com álcool, drogas... pessoas erradas. O casamento certamente foi sua fuga mais espetacular. Havia dias em que mesmo ela acreditava naquele grande feito. — Você sempre foi incontrolável, Isabella! No fundo, nossos pais tem medo de você. Eu a admiro por isso. Queria ter metade da sua força. Infeliz meu único super poder é chorar. Posso ficar dias e dias trancada nesse quarto apenas chorando. — Não seja boba, a vida inteira eu fui grande nada, Ângela. Uma total e completa insignificante. — Não sei a quem você quer enganar. Insignificante? Amor, não importa o que aconteça, você sempre encontra um jeito de vingar. Eles sabem disso. Meu único medo é que um dia erre a mão e o papai ache que se livrar de você não é um pecado tão grande assim.   Cada lembrança abria uma nova ferida. Mostrava mais uma pequena crueldade, mais um ato egoísta. Quando chegou ao quarto da irmã, sentiu o coração apertar. Ela conhecia bem aquele espaço. Inclusive com descaso e desdém, havia debochado diversas vezes do que ele era: o habitat de uma princesa. Um mundo cor de rosa, cheio de bonecas e babados. É claro que isso não seria problema algum... se aquele não fosse o quarto de uma mulher de trinta e quatro anos. Todos estavam cientes da instabilidade emocional da filha mais velha do senador Tito, mas essa era mais uma vergonha escondida sob o tapete. Quantas vezes Isabella chamou a irmã de louca por conta de seu gosto peculiar? Quantas vezes de fato se propôs a pensar seriamente sobre o que tudo aquilo significava? Quantas vezes perguntou a irmã se ela estava bem? Agora nada mais poderia ser feito. Embora fosse submissa em outros aspectos de sua vida, o quarto de Ângela era um santuário intocável, tanto que nem mesmo dona Mimi conseguiu destruí-lo, por mais que tenha tentando. “Pelo menos enquanto ela está lá, não faz nenhuma bobagem.” Aquele lugar era um grito de socorro. Um grito que ninguém ouviu, ou quis ouvir. Nem mesmo Isabella. Teria que conviver com o fato que ao invés de oferecer a ajuda que Ângela necessitava, juntou-se ao que criticavam sua incapacidade de viver dentro da realidade, aliás, sempre criticou tudo o que a irmã fazia, como todas as outras pessoas à sua volta. Isso apenas revelava sua natureza perversa. Hesitou na porta do cômodo, sob o peso de mais um segredo dos Ramos de Melo. Teria a coragem necessária para seguir em frente? Era uma escolha difícil. Saber a verdade não traria qualquer bem. Se fugisse, entretanto, seria mais uma coisa a ser empurrada sob o tapete. Mais uma coisa para tirar seu sono. Entrou no quarto reunindo toda a coragem que não possuía. Nem precisou pensar muito. Aproximou-se da cama, ergueu o lençol e enfiou a mão sob o colchão para encontrar o envelope, conforme a última mensagem enviada por Ângela. Isabella havia ignorado a mensagem, como sempre fazia. O papel de carta antigo, floral, rosa e perfumado. Típico de sua irmã. Com as mãos trêmulas e um nó na garganta, abriu a carta. As primeiras palavras saltaram a seus olhos. A caligrafia era segura, de quem sabia o que estava fazendo ao escrever sua última nota. Talvez esse tenha sido o único momento de decisão de sua irmã em toda a sua vida. A carta tentava minimizar os fatos. A autora tentava minimizar a si mesma. “... não sou importante para ninguém, mas não se preocupe, a culpa é minha. Eu não soube cativar...” Prosseguiu a leitura até que percebeu não enxergava mais nada. Lágrimas deturpavam sua visão. E uma dor tão imensa oprimia o peito de tal forma que ela não conseguia respirar. Tentou puxar o ar, mas era impossível, a garganta doía tanto... foi quando se viu nos braços do marido outra vez. — Calma. Respire devagar. Vamos, respire! Eu estou aqui. Demorou algum tempo para ela perceber que o choro desesperado que se ouvia no quarto era seu. Alguém apareceu na porta, mas o marido furioso esbravejou algo que ela não entendeu bem e a pessoa sumiu. Estava sentado no chão com ela no colo, ninando-a, enquanto acarinhava as suas costas, como faria com uma criança. A única pessoa que ela lembrava de tê-la colocado alguma vez no colo depois de adulta foi a irmã. Isso tornou tudo ainda pior. Ela não merecia aquilo. Ela não merecia nada. Nenhuma consideração. — É claro que merece, Isabella. É claro que merece... O toque dos lábios firmes do marido a surpreendeu. Não tinha muitas experiências com homens: havia beijado apenas três rapazes até aquele dia. Um saíra do armário há poucos meses. Os outros... melhor não comentar. Congelada, esperou que ele a soltasse, mas o abraço se tornou mais firme e a língua invasora exigia passagem. Quando o beijo se tornou uma busca mutua, ela não soube precisar. Nem percebeu direito quando foi carregada até a cama. A realidade a atingiu apenas quando sua camisola foi tirada. De repente lembrou-se do quanto seu corpo era feio, gordo, sem forma. Tentou cobrir-se, mas o marido não permitiu. — Não se esconda de mim Isabella, nunca se esconda de mim. — Eu sou feia... Ele parou surpreendido, então sorriu zombeteiro. — Ah, coitadinha da Isabella... vai ter mesmo esse ataque de insegurança agora? Você?! Você é melhor que isso, querida! Qualquer ser humano com um pingo de sensibilidade não usaria aquele tom irônico para falar com uma pessoa naquela situação, mas seu marido não tinha qualquer semelhança com humano. O que ela tinha na cabeça quando fez a merda daquele acordo i****a com o “Coração de Pedra” Heitor Nigro “Desalmado”? — i****a! Seu escroto! Nem se importou com represálias. Uma raiva densa, quente, cresceu em seu íntimo. Quem ele pensava que era para agir daquele modo com ela? Não sabendo de onde encontrou forças, passou a estapeá-lo com toda a raiva que possuía. Era tanta fúria que ela não se importava se ia machucá-lo ou não, ou ainda que aquele homem enorme devolveria as agressões. Resistiu a suas tentativas de imobilizá-la. Mordendo, arranhando, até se ver completamente presa ao colchão. Ele tinha um arranhão no rosto, uma marca de mordida no peito quando conseguiu controlá-la. Deveria sentir vergonha de suas atitudes, mas estava satisfeita. Uma satisfação que só acontecia quando ela dava o troco a uma ofensa. — Você gosta disso, não é? — Uma mordida em seus lábios que foi um arremedo de beijo. — Não finja que é uma moça indefesa Isabella, nós dois sabemos que isso não é verdade.
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