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O príncipe mimado e a guerreira.

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ELE NASCEU PARA SER SERVIDO.ELA FOI TREINADA PARA SOBREVIVER.E O DESTINO DECIDIU COLOCÁ-LOS NO MESMO CAMINHO.O príncipe Caspian sempre teve tudo o que queria.Criado entre luxo, privilégios e pessoas dispostas a obedecer cada uma de suas ordens, ele nunca precisou se preocupar com fome, frio ou com as consequências de seus próprios atos. Para Caspian, o mundo simplesmente deveria se curvar diante de sua coroa.Até que tudo muda.Longe do palácio e privado de sua vida confortável, o jovem príncipe é obrigado a descobrir como é viver como alguém comum. Pela primeira vez, precisa trabalhar com as próprias mãos, enfrentar a dureza da estrada e conviver com pessoas que não estão dispostas a tratá-lo como uma alteza.Mas essa talvez seja a menor de suas preocupações.Quando uma guerreira misteriosa surge em seu caminho, Caspian descobre que existem pessoas muito mais perigosas do que os inimigos que conhecia dentro dos muros do castelo.Ela não se curva diante de sua coroa.Não se impressiona com seu título.E definitivamente não pretende mimá-lo.Acostumado a conseguir tudo através de ordens e arrogância, Caspian encontra nela a primeira pessoa que parece completamente imune aos seus encantos — e talvez a única capaz de colocá-lo em seu devido lugar.Entre perseguições, segredos, perigos e uma convivência que nenhum dos dois escolheu, o príncipe e a guerreira serão obrigados a seguir pelo mesmo caminho.Ele terá que aprender que uma coroa não faz um homem.Ela terá que descobrir que nem todo príncipe é tão inútil quanto parece.E, enquanto o perigo se aproxima, uma pergunta começa a surgir entre os dois:o que acontece quando a pessoa que você mais queria evitar se torna justamente aquela que você não consegue mais abandonar?Em um reino onde alianças podem esconder traições e inimigos podem estar mais próximos do que parecem, Caspian descobrirá que perder tudo talvez tenha sido a única maneira de finalmente encontrar quem ele realmente é.E a guerreira descobrirá que proteger aquele príncipe mimado pode ser muito mais perigoso para seu coração do que qualquer batalha.

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Capítulo 1 — O príncipe que não deveria ser rei
Havia um reino não tão distante de Karlestt onde vivia um príncipe que, segundo todos os sinais do bom senso, jamais deveria ter recebido uma coroa. Seu nome era Caspian. E, embora fosse príncipe por nascimento, havia muito pouco de principesco nele. Era arrogante, egoísta, soberbo, encrenqueiro, debochado, infantil e, para grande desespero de seu pai, absolutamente incapaz de perceber qualquer um desses defeitos. Caspian vivia em um palácio de cristal, cercado por seda, ouro, criados e banquetes. Uma realidade muito diferente daquela enfrentada pelo povo de Karlestt, que lutava diariamente contra a fome, o frio e a pobreza. Seu pai, o rei Dorian, era um militar aposentado. Um homem duro, disciplinado e acostumado a enfrentar inimigos no campo de batalha. Infelizmente, nenhum inimigo que Dorian já havia enfrentado fora tão difícil de combater quanto o próprio filho. O rei vivia envergonhado com Caspian. A rainha Briar, por outro lado, acreditava que o filho era simplesmente "sensível". Naquela manhã, Caspian estava tomando seu suco favorito de framboesa quando uma pequena semente chamou sua atenção. Ele olhou para ela por alguns segundos. Depois, atirou a taça de cristal contra a parede. CRASH! O salão inteiro ficou em silêncio. — Você quer me matar com um acidente vascular, Ellis? — perguntou Caspian. O criado já estava ajoelhado no chão, recolhendo os cacos de cristal com as próprias mãos. — Limpe isso imediatamente. Ellis engoliu em seco. — Sim, Alteza. O rei Dorian observava a cena da porta, com os punhos cerrados. — Um dia eu vou mandar você para o fronte, filho. Caspian sequer olhou para ele. — Você vai aprender o que é uma semente de framboesa quando estiver comendo raízes no chão — continuou Dorian. — Deixa ele, Dorian. A rainha Briar apareceu atrás do marido e passou a mão pelos cabelos do filho como se ele ainda tivesse sete anos. — Ele é sensível. Tem o paladar apurado. Você não entende essas coisas. Dorian fechou os olhos por um instante. À mesa, Theodore e Alistar tentavam desesperadamente conter o riso enquanto tomavam mingau. Theodore se inclinou para o irmão e cochichou: — Ele vai morrer sozinho, vai? Alistar respondeu sem sequer olhar para Caspian: — Não. Vai morrer com um criado limpando os cacos ao redor. Os dois abafaram uma risada. Caspian ouviu. Mas não se importou. Ele nunca se importava. Gente pequena fazia piadas pequenas. — Ellis. O criado levantou a cabeça. Caspian estalou os dedos sem sequer olhar para ele. — Traga outro suco. Sem sementes. Ou você vai provar a masmorra. — Sim, Alteza. Imediatamente. Ellis fez uma reverência tão profunda que quase tocou a testa no chão antes de se afastar. Caspian já havia virado as costas quando ouviu o punho do pai bater contra a mesa. — Você não vai pedir desculpas? Caspian parou. Virou-se lentamente. — Pelo quê? — Pela taça. Pelo criado. Por tudo isso! Caspian ergueu uma sobrancelha perfeitamente arqueada. — Pela taça? Ele olhou para os pedaços espalhados pelo chão. — Ela era feia mesmo. Aquele dourado berrante... Briar suspirou. — Caspian... — Mande o ourives fazer outra, mãe. De prata. E quero que ele venha pessoalmente me mostrar os esboços. Não confio no gosto dele. A rainha sorriu, encantada. — Claro, meu amor. Você sempre teve um olhar refinado. Theodore enfiou o rosto no mingau para esconder o riso. Alistar chutou discretamente o pé do irmão por baixo da mesa. Os dois estavam rindo. Dorian olhou para a esposa. Depois para o filho. E, por alguns segundos, pareceu considerar seriamente a possibilidade de renunciar ao trono e desaparecer no interior. Depois do café, Caspian decidiu que precisava arejar o humor. Vestiu seu casaco de pele de lince — feito com o couro de três animais apenas para garantir que o forro fosse "macio o suficiente" — e caminhou até a varanda leste. Dali, era possível enxergar quase todo o vilarejo de Karlestt. As ruas eram de barro. Crianças descalças corriam atrás de carroças carregadas de legumes murchos. Uma mulher lavava roupas em um riacho de água barrenta. Mais adiante, um homem carregava lenha nas costas. Caspian apoiou os cotovelos no parapeito de mármore e franziu o nariz. — Que fedor. Chamou um guarda. — Até daqui sobe. O guarda se aproximou. — Sim, Alteza? Caspian apontou para uma cabana. — Aquela fumaça ali. No telhado. O guarda olhou. — A chaminé está torta — continuou Caspian. — Mande derrubar e reconstruir. O guarda hesitou. — Alteza... aquela é a casa do ferreiro. A família dele mora lá. Se derrubarmos a chaminé no inverno... — E daí? Caspian sorriu. — Eles têm cobertores, não têm? O guarda permaneceu imóvel. — Se não tiverem, queimem os móveis. Caspian deu de ombros. — Não é problema meu. O guarda engoliu em seco. — Sim, Alteza. E desceu as escadas para cumprir a ordem. Pouco depois, Caspian foi "convencido" pelo pai a comparecer à audiência matinal. Era um ritual semanal no qual os súditos podiam apresentar reclamações, pedidos e problemas diretamente ao príncipe herdeiro. Dorian esperava que, com o tempo, aquilo ensinasse ao filho alguma compaixão. Até aquele momento, não estava funcionando. Caspian sentou-se no trono de marfim com uma expressão de tédio tão profunda que parecia estar usando uma máscara de cera. Aos seus pés, um tapete vermelho atravessava o enorme salão. O primeiro súdito da fila era um velho agricultor. As mãos tremiam. A roupa estava remendada em vários pontos. Ele se ajoelhou. — Alteza... — Fale logo. O homem respirou fundo. — Minha colheita foi destruída por uma praga. Perdi tudo. Peço apenas um pequeno empréstimo do tesouro real para comprar sementes novas antes do inverno. Prometo pagar com juros na próxima safra. Caspian inclinou a cabeça, fingindo considerar. Então pegou uma uva de uma tigela de prata. Jogou-a para cima. Pegou-a com a boca. — Uma praga, disse? — Sim, Alteza. — Que tipo de praga? — Gafanhotos. Milhares deles. Devoraram tudo em uma noite. Caspian suspirou. — Ah. Gafanhotos. Pegou outra uva. — Então você quer que eu pague pelos seus erros? O velho piscou. — Meus erros? — Se tivesse plantado alguma coisa mais... interessante, talvez os gafanhotos tivessem passado reto. Caspian sorriu. — Experimente plantar rosas na próxima vez. O agricultor olhou para ele, confuso. — Rosas não se comem, Alteza. — Exatamente. Caspian mordeu a uva. — Está aprendendo rápido. O velho apertou as mãos. — Meus filhos estão com fome. Caspian deu de ombros. — E daí? O silêncio tomou conta do salão. — Todo mundo sente fome em algum momento. Faz parte da experiência humana. O velho baixou a cabeça. — Por favor... — Você vai aprender a apreciar a comida depois de passar fome. Caspian acenou para os guardas. — Próximo. O agricultor se levantou cambaleando. Saiu do salão com lágrimas nos olhos. Dorian observou o homem partir. Seus punhos estavam cerrados com tanta força que os nós dos dedos haviam ficado brancos. Mas ele não disse nada. Já não sabia mais o que dizer. A próxima da fila era uma jovem mãe. Tinha um bebê nos braços e uma menina de aproximadamente cinco anos agarrada à sua saia. Ela se ajoelhou. — Alteza... Sua voz tremia. — Meu marido foi levado para a masmorra por roubar um pão. Caspian olhou para o bebê. O pequeno começou a babar. Caspian fez uma careta. — Aquele bebê está babando. A mulher apertou o filho contra o peito. — Ele é apenas um bebê, Alteza. — Tire-o da minha frente antes que eu mande prender você também por poluição visual. Alguns nobres desviaram o olhar. A mulher começou a chorar. — Meu marido só queria alimentar nossas crianças. Ele é um bom homem. Estava desesperado. Por favor, tenha clemência. Caspian suspirou. — Seu marido roubou. — Sim, mas... — A lei é a lei. — Alteza... — Se eu começar a perdoar todo mundo que rouba por fome, o que vai sobrar do meu reino? Ele fez uma pausa. Olhou para os nobres. Depois para a mulher. — Um bando de mendigos esfomeados? Sorriu. — Ah... peraí. Ninguém riu. — Já é isso. Caspian fez um gesto impaciente. — Levem-na embora. Dois guardas se aproximaram. A mulher começou a soluçar enquanto era conduzida para fora. A menina chorava agarrada à saia da mãe. Caspian sequer olhou para trás. Levantou-se. Esticou os braços. Bocejou. — Audiência encerrada. Isso foi um tédio. Ele olhou para a mãe. — Mande fazer aquela torta de morango que eu gosto. Briar assentiu imediatamente. — Claro, meu amor. — E diga ao cozinheiro para provar cada morango antes de colocá-los na massa. Caspian caminhou em direção à porta. Parou. — Se um único estiver azedo... Ele sorriu. — Arranco a língua dele. E saiu do salão. Na ala leste do castelo, bem longe do salão de audiências, Theodore e Alistar estavam deitados na enorme cama que dividiam. Theodore, o mais novo, estava de bruços, desenhando cavalos em um pergaminho com carvão. Alistar, lia um livro sobre batalhas. Era o único tipo de livro que o pai permitia que eles lessem. Theodore ergueu os olhos. — Você ouviu o que ele fez hoje? Alistar não tirou os olhos do livro. — O fazendeiro dos gafanhotos? — É. — Ouvi. Theodore fez uma careta. — E a mulher do pão. Alistar fechou o livro lentamente. — Também ouvi. — Ele é horrível, não é? Alistar ficou em silêncio por alguns segundos. Então se virou para o irmão. Seu rosto carregava uma seriedade que não deveria existir naquela idade. — Ele não é horrível. Theodore franziu a testa. — Não? — Ele é só... perdido. — Perdido? — A mãe nunca disse não para ele. O pai desistiu. E ninguém nunca mostrou a ele o que é realmente perder alguma coisa. Theodore ficou pensativo. — Mas ele vai ser rei um dia. Alistar olhou pela janela. Lá embaixo, Karlestt continuava vivendo sua pobreza enquanto o palácio brilhava acima dela. — E vai tratar todo mundo assim. — Talvez. Alistar voltou os olhos para o livro. — Ou talvez um dia alguém apareça e mostre a ele que o mundo não gira ao redor do umbigo dele. Theodore sorriu. — Você acha mesmo? Alistar deu um sorriso torto. — O pai diz que até a pedra mais dura pode ser lascada pelo mar. Ele fechou o livro. — Só que o mar leva tempo. Theodore se deitou. — Será que ele vai aprender algum dia? Alistar deu de ombros. — Quem sabe? Ele cutucou o irmão com o pé. — Agora dorme. Amanhã o príncipe mimado vai acordar e jogar outra taça na parede. Theodore riu. — E a gente vai rir escondido. — Exatamente. Theodore se aconchegou no travesseiro. — Ele é um idiota... Alistar apagou a vela. — Mas é nosso irmão. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Então Alistar completou: — O i****a é nosso. Theodore abafou uma risada. No escuro, os dois irmãos riram baixinho enquanto o castelo mergulhava no silêncio da noite. Nenhum dos dois sabia que, naquela mesma noite, alguém havia atravessado as fronteiras de Karlestt. E que essa pessoa seria a primeira a ensinar ao príncipe Caspian uma lição que nenhum professor, criado ou soldado jamais conseguira ensinar: o mundo não existia para servi-lo. E, dessa vez, sua mãe não estaria por perto para salvá-lo.

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