LIS
Sim. Eu fugi da casa do Otávio sem aviso prévio enquanto a neblina daquela manhã fria, que prometia se transformar em um belo dia de sol, caía.
Fugi por um simples fato que eu sempre tento fingir que não existe: Otávio tem uma lábia e tanto e mesmo que eu diga que não me afeta, me afeta sim. Me afeta pra c*****o.
É melhor manter distância.
Chamei um táxi e fui para minha casa. Naquele horário não tinha trânsito, mas os faróis estavam a todo vapor, me atrasando para chegar em casa antes do casal de coelhos acordar e perceber que dormi fora.
Eu acho que a minha mãe não se preocupa. Eu duvido que ela tenha notado que não dormi em casa. Por mais que ela diga que se preocupa, e talvez ela se preocupe mesmo por ser minha mãe, ela não deve ter lembrado, pois estava distraída demais com o seu novo namorado e ela já está acostumada com as minhas saídas noturnas.
Geralmente eu durmo em casa. Essa noite sem dúvidas foi atípica. Dormi fora de casa e foi na casa de Otávio Belmonte.
Devo colocar a culpa na bebida?
Eu posso não ter acabado na cama dele sendo mais uma, mas a nível de Otávio, só de eu falar com ele, dirigir seu carro e dormir na casa dele, já é motivo para arranjar uma desculpa para a falta de juízo.
Cheguei em casa num horário razoavelmente cedo para acordar, mas não para chegar de uma festa.
O carro dele ainda estava ali. O embuste que ela arranjou.
Parte do ódio "gratuito" que tenho pelo meu atual padrasto se deve ao ciúme que tenho, eu admito. Sempre fui eu, a minha mãe e a fechadura anti-macho que nos mantém seguras de qualquer safado que ache que mulheres sozinhas devam ser abusadas. Agora me aparece esse homem que se tornou a luz do sol para ela. É como se eu tivesse perdido uma amiga para o namorado dela. E de certa forma foi isso o que aconteceu. Eu e minha mãe somos amigas.
E os outros 50% desse sentimento de não aceitação existe por eu não aceitar muito bem a contradição entre falas e atitudes das pessoas.
A minha mãe dizia que não se casaria mais com nenhum homem, que não traria homem nenhum para nossa casa e agora ela faz justamente o oposto do que discursava quando fofocamos sobre a falta de amor próprio que algumas mulheres que conhecemos têm.
Sei que podemos mudar de opinião, mas esse discurso foi dito por ela cerca de mil vezes! É difícil entender. Eu sinto como se ela estivesse num transe onde se esqueceu dos pontos de vista que defende.
Entrei na nossa casa e não vi nenhum ser ali pela sala, então fui para o meu quarto e ali me tranquei.
Não vou dizer que me sinto muito cansada depois da festa de ontem. Eu não bebi muito, comi bastante e dormi como nunca naquela cama deliciosa da casa do Otávio.
Aliás, quando sentei na beirada da minha cama para tirar os sapatos, constatei que o meu colchão está nos últimos dias. Comparado ao colchão da cama onde dormi essa noite, o meu se resume a tecido e molas.
Tirei a roupa e tomei banho, então vesti um conjunto de roupa de dormir e caí na cama.
Ainda precisava completar as 8 horas de sono.
Ao fechar os olhos, visualizei a noite de ontem.
Como pode Otávio aparecer no meu caminho tão inesperadamente?
Ele sumiu da vida de todos de uma forma que parecia que ele não estava mais na cidade!
Até o escritório fechou. Talvez tenha mudado de lugar.
E quando eu penso que ele trabalha mesmo... É o que a mãe dele diz. Parece mentira. Será que ele sabe fazer alguma coisa além de me irritar e ser um péssimo namorado até para quem vê de fora?
A resposta pode ser sim. Afinal, eu já lamentei por ele ser um embuste gostoso e inteligente.
Que casarão...
Com uma casa daquela eu também sumiria do mapa. Confortável, cheirosa, linda e sofisticada.
Será que um dia terei uma moradia daquelas?
A minha casa perto da dele é uma morada simples.
[•••]
Acordei com a minha mãe batendo na porta e me chamando de forma cansativa.
Eu me tranquei mesmo.
— Oi, mãe. — murmurei com a cabeça no travesseiro.
— Chegou que horas?
Ela sempre faz essa pergunta no dia após as festas.
— Depois da meia-noite. — murmurei em resposta.
— Você sempre dá essa resposta. — ela reclamou.
— Então por que ainda pergunta?
Tem dias que nem olho o relógio.
— Levanta pra tomar café.
Me esforcei para abrir os olhos e segurei na cabeceira de madeira da cama, depois tomei um impulso para que minha visão alcançasse a rua pela janela de vidro atrás da cama. Puxei a cortina e vi que o carro do intruso ainda estava estacionado ali.
— Daqui a pouco. — fechei a cortina e deitei novamente.
Ela não disse mais nada, o que me fez concluir que ela foi embora dali.
Peguei o celular em minha bolsa, que estava ali do lado do travesseiro e olhei a hora. Não faltava muito para o meu café da manhã ser um almoço.
"Otávio_Belmonte quer te enviar uma mensagem" — dizia a notificação do i********:.
E só porque eu dormi na casa dele, o abençoado já se acha no direito de voltar a me encher de mensagens.
Eu ainda tinha as mensagens que ele me mandou quando aconteceram aqueles "acidentes" entre nós.
Mas agora, clicando na notificação que ainda não tinha saído da aba das solicitações do aplicativo, vi uma nova mensagem.
"Ei, fujona, fique de bico fechado. Se a minha mãe ou qualquer outra pessoa aparecer na minha porta, eu sei que foi você quem contou".
E ele vai fazer o que comigo?
Seus gritos não me amedrontam.
"Como eu já disse, a vida de todos está bem melhor sem você. Se eles ainda te procuram é porque não se deram conta disso. Não vou falar nada". — respondi com desdém, como uma forma de ele saber que eu não ligo pra isso.
Às vezes eu falo com a mãe dele e também vou até sua casa com a Bárbara, mas eu não fico falando dele. Na verdade, eu fujo quando falam dele.
Demorou para eu encarar o assunto Otávio na frente da Bárbara sem me constranger por lembrar do flagra que ela nos deu na cozinha da casa de sua sogra.
Eu não procuraria ela ou Paulina para contar sobre ele. Sei que automaticamente Bárbara iria pensar que estamos juntos.
Deixei o celular de lado e tentei cochilar até ouvir o barulho do carro parado ali na frente indo embora.
Isso aconteceu, mas demorou muito.
Quando pude sair do quarto com as vestes de sempre (minhas queridas roupas de dormir que uso para tudo dentro das quatro paredes da casa), senti o cheiro do refogado da minha mãe.
Ela já estava fazendo o almoço.
— Que demora pra descer!
— Não vou andar sem sutiã com um cara pela casa, não é, mãe?!
Ela não retrucou.
Sentei no banco frio, em frente ao balcão e deitei minha cabeça no mármore branco.
— Como foi o seu "trabalho"? — ela fez aspas no ar e eu revirei os olhos por seu desdém.
— Ótimo.
— E os namorados?
— Que namorados, mãe? — olhei para ela entediada.
— Você não conversa mais comigo. — ela reclamou carente enquanto ralava uma cenoura.
— Você já tem outro alguém com quem conversar. — o meu lado ciumento não ficou calado.
Ela sorriu. — Mas ele não pode me contar sobre você. Querida... — ela me encarava com um sorriso de quem achava engraçado a minha reclamação.— Você sabe que o Raul não interfere no nosso relacionamento. Eu ainda continuo sendo a sua mãe e amiga. Você tem que entender que temos as necessidades físicas. Eu sou jovem. Preciso de sexo assim como você também faz aí com os seus namoradinhos.
Como eu faço... Nos meus pensamentos.
— Um dia pode acontecer de você também aparecer com o seu namorado.
— Aham. — não dei muita atenção para o seu discurso e fiquei analisando as imperfeições do esmalte em minhas unhas.
Eu não gosto de saber que tem alguém que não conheço bem andando pela nossa casa, mas pelo visto a minha mãe não tem problemas com esse fato e ela tem o discurso pronto para não mudar isso.
Por isso resolvi não prolongar o assunto.
Não fiz nada de muito proveitoso durante o resto do dia, mas recebi o dinheiro da festa anterior cortado por não ter concluído e o convite para um trabalho em outro lugar.
Desta vez eu sabia que não encontraria o Otávio por lá e poderia fazer o trabalho por completo.