O céu estava limpo, mas o ar carregava o peso dos últimos dias. Melissa estacionou o carro diante da casa simples onde cresceu, no bairro Santa Felicidade. O portão de ferro rangia como sempre, e o jardim continuava cheio de flores desordenadas, porém com vida e alegria, como a que ela vinha sentindo nos últimos dias.
Elaine apareceu na porta com um avental florido e os olhos atentos.
— Filha... — Disse, surpresa. — Que bom te ver, faz tanto tempo.
Melissa tentou sorrir, mas o rosto ainda carregava os traços do jantar desastroso. Entrou, abraçou a mãe com força e sentiu o cheiro familiar de café fresco e bolo de fubá.
Sentaram-se à mesa da cozinha, como tantas vezes antes, quando ela morava ali. Elaine serviu o café sem perguntar nada. Esperou o momento que ela decidiria falar.
— Me divorciei do Jairo, mãe e eu me inscrevi no Exército, para me tornar sargento. — Disse Melissa, finalmente.
Eliane parou, segurando a xícara no ar, no olhar a preocupação genuína de uma mãe com seu filho.
— No Exército, esse é o caminho?
Melissa assentiu.
— Depois de tudo... depois do Jairo, da Rafaela, do pai... eu precisava fazer algo por mim. Algo que não fosse sobre imagem, nem sobre agradar ninguém e preciso de um lugar onde não serei tratada como a filha do senador.
Elaine se recostou na cadeira, os olhos marejados, ela sempre soube como tudo passou a ser difícil para a filha, quando o pai exigiu que ela fosse morar com ele.
— E você acha que vai encontrar isso lá?
— Acho que sim. Lá ninguém vai me tratar como uma boneca de luxo. Eu vou ser uma pessoa. Uma recruta. Vou suar, cair, levantar. Mas vou ser eu.
Eliane sorriu, com ternura.
— Você sempre foi forte, Mel. Mesmo quando era pequena. Lembra quando caiu da bicicleta e levantou dizendo que o chão não ia te vencer?
Melissa riu, pela primeira vez em dias.
— Eu tinha sete anos.
— E agora tem vinte e seis. E ainda está levantando, é uma pena que seu pai seja tão cego que nunca viu quem realmente você sempre foi.
Houve um silêncio confortável. O tipo de silêncio que só existe entre mãe e filha.
— O pai quer me impedir, quer que eu volte com o Jairo. — Disse Melissa. — Disse que não posso me separar. Que não posso me alistar. Que isso mancha a imagem da família.
Elaine apertou a mão da filha sobre a mesa.
— A imagem da família que ele criou não vale mais do que a alma da filha. Você não é um retrato na parede, Mel. É uma mulher. E está fazendo o que muitas não têm coragem de fazer.
Melissa respirou fundo. O café esfriava na xícara, mas o coração aquecia.
— Eu precisava ouvir isso, mãe.
— Então ouve mais uma coisa, filha. — Disse Eliane, com firmeza. — Vai. Vai com tudo. Vai com dor, com medo, com dúvida. Mas vai. Porque você merece se encontrar.
Melissa se levantou, abraçou a mãe com força e sussurrou:
— Obrigada por nunca me deixar esquecer quem eu sou.
Naquele dia, Melissa saiu da casa onde cresceu com os pés firmes no chão e o coração em paz.
Ela não era mais a mulher que fugia. Ela seria a mulher que marchava.