Território Hostil

649 Words
O som da caneta deslizando sobre o papel parecia mais alto do que deveria. Melissa assinou o último documento com firmeza. O advogado olhou para ela com cautela. — Está feito. O divórcio será oficial em trinta dias. Ela assentiu, sem emoção. O nome “Jairo Sampaio” agora era apenas uma assinatura ao lado da dela. Um capítulo encerrado. Naquela mesma tarde, Melissa arrumou suas coisas. Nas caixas de mudança ela levaria apenas os itens que considerava importantes, livros, cadernos, e poucas fotos, e suas roupas, todas as caixas ficariam na casa da mãe. Arrumou também sua mala com poucas roupas as mais simples, ela levaria somente o básico: um caderno, uma foto com a mãe. O carro de aplicativo a levou até a rodoviária e de lá dirigiu rumo ao sul, atravessando estradas sinuosas até chegar à cidade de União da Vitória. O 5º Batalhão de Engenharia e Combate Blindado se erguia como uma fortaleza discreta entre árvores e concreto. O portão de entrada era simples, mas imponente. O taxi deixou Melissa em frete dos portões, respirou fundo e caminhou até a guarita. — Recruta Melissa Sampaio, apresentando-se para incorporação. — Disse, com voz firme. O soldado a olhou com surpresa e curiosidade, depois digitou algo no sistema e liberou a entrada. No pátio, recrutas se movimentavam em formação. Melissa foi conduzida ao alojamento feminino, onde o clima era bem diferente do que esperava. As camas eram alinhadas, os armários padronizados, mas os olhares... esses eram cortantes. — Olha quem chegou. — Murmurou uma voz, quando ela entrou. — A princesa do Senado, juro que não acreditei quando me contatam. — Disse outra, com sarcasmo. Melissa não respondeu, manteve o olhar firme. Guardou suas coisas em silêncio no armário que havia sido designado a ela, tentando ignorar os cochichos. — Achou que aqui ia ter tapete vermelho? Reportes elogiando a sua beleza, ou as suas roupas. — Provocou uma recruta de cabelo raspado, chamada Érika. — Achei que aqui todo mundo fosse tratado igual. — Respondeu Melissa, sem levantar a voz, e sem cair nas provocações das colegas. — Igual? — Riu Érika. — Você tem sobrenome de ouro é filinha de papai. A gente tem cicatriz. Nos dias seguintes, a hostilidade se intensificou. Melissa era ignorada nos treinos em grupo, deixada de lado nas tarefas coletivas, alvo de piadas veladas, ela sabia que seria difícil, mas não imaginava que seria assim dessa forma. Ser julgada sem que a conhecesse. — Cuidado pra não quebrar a unha, Sampaio. Aqui não temos manicure. — Dizia uma recruta ao vê-la carregar equipamento. — Quando vai pedir pra papai te tirar daqui? Ou para aquele marido gostoso. — Provocava outra. — Você não sabia, o cara deu um pé na b***a dela. — Respondia outra recruta. — Soube que ele trocou ela pela irmã mais nova. ­ — Falava outra cheia de veneno. Melissa mantinha o foco. Corria, treinava, estudava. À noite, escrevia em seu caderno: "Não vim pra agradar. Vim pra existir." Certa tarde, durante uma aula de topografia, a instrutora pediu que os recrutas se dividissem em duplas. Ninguém se aproximou de Melissa. Ela ficou sozinha. Foi quando Carla a mesma recruta que a apoiou outro dia no centro de instrução apareceu. — Se ninguém quer ser sua dupla, eu quero. — Disse, sentando ao lado dela. Melissa sorriu, grata. — Obrigada, espero que se aproximar de mim não lhe cause problemas. — Não agradece ainda, Sampaio. Aqui é território hostil. Mas você já sobreviveu a coisa pior, assim como eu. Melissa olhou para o mapa sobre a mesa. União da Vitória era só o começo. Ela não era mais a mulher que assinava papéis por obrigação e sorria sem ter vontade. Era recruta Sampaio, e foi prazeroso ouvir o som da voz da Carla, chamando-a pelo nome do quartel. E estava pronta para enfrentar o que viesse.
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