A mais bela jóia

1663 Words
CLARISSE Fui até os estábulos, tirar a bota e esporas. O que dizer do meu plano de fazer as coisas depois do almoço? Eu fiquei pensando que depois que a visita chegasse, eu teria que fazer sala e não ficar em cima do meu cavalo fazendo as tarefas que meu irmão manda. — Aquele é a visita que estavam esperando? — Marco Antônio apareceu novamente atrás de mim. Eu tomei um susto por ele falar assim de surpresa. — Sim. — Muito playboy pra ser um cara sério. — Ele tem dinheiro e anda do jeito que quer. — Você tem dinheiro e nem por isso faz as coisas que quer. Terminei de tirar a bota e calcei os chinelos antes de me virar pra ele. — Eu vou fazer as coisas que quero na hora certa. Só estou esperando a oportunidade. — Ou talvez você esteja reconsiderando tudo. Clarisse, todo mundo sabe o jeito que você tem para a lida na fazenda. — Se isso é uma tentativa de me convencer a ficar aqui e ter alguma coisa com você, já pode ir parando, porque não vai me convencer a nada. Eu sei o que eu quero e achei que você, como bom amigo iria me apoiar. — E eu te apoio em tudo, Clarisse. Nunca saí do seu lado em momento algum e achei que você sentia o mesmo por mim. — Sério que vai voltar com esse assunto agora? Marco, eu... — respirei fundo. — Eu não consigo me apaixonar por ninguém no momento. Agradeço por ficar do meu lado, mas eu sempre te enxerguei como um amigo e não como um namorado, além do que você era meu amigo e amiga do meu namorado. — Eu não poderia dizer nada se vocês estavam juntos, mas agora você está só, eu também... Está bem claro que ele não vai desistir. — Eu tenho que ir almoçar, Marco. Com licença. — saí dali com meus chinelos nos pés e passei na torneira para dar uma lavada. Eu tinha usado um pó para não ficar com chulé e meus pés estavam brancos. Depois que lavei, abaixei as pernas da calça e voltei para casa. Aquele homem, o novo Sr. Becker, é bem mulherengo. Não perdeu tempo e já veio com cantadas para cima de mim. Ele é bonitão, mas seu jeito intimida. Só não tem me intimidado tanto quanto o Marco Antônio, que sabe muito bem de toda a minha história e ainda insisti. Eu não esperava que hoje ou qualquer outro dia ele iria aparecer com essa ideia de que é apaixonado por mim. Sempre fomos próximos, mas amigos. Bons amigos. Ele era o melhor amigo do Gilvan. Eles eram da mesma equipe de vaquejada. Nunca olhei para ele e pensei que ele tinha algum interesse por mim. Agora me parece que ele acha vantajoso o Gilvan não estar mais vivo, porque fala como se estivéssemos livres para ficar juntos, sendo que eu nunca lhe dei esperanças! Assim que cheguei dentro de casa, fui lavar as mãos no lavabo, sequei e fui para a mesa. Edu estava ali com sua cara de palhaço. Ele já me desqualificou na frente do Sr. Becker e não duvido de ele ainda fazer mais alguma vergonha enquanto a visita estiver aqui. Assim que sentei ao lado do meu pai, o Sr. Becker olhou para mim. O nome dele é Heitor. Nome de homem rico mesmo. Ele é bonito que chega a ser um pecado. Branco, sem manchas no rosto, cabelos lisos castanhos médio, uma barba falha, mas que enfeita muito bem o seu rosto e sobrancelhas grossas. Ele tem cara de gente que terminou de tomar banho. E quando andamos um ao lado do outro eu vi o quão cheiroso ele é. Em relação a mim, que tenho 1,70, ele deve ter uns 10cm a mais de altura. As roupas dele parecem ser tão caras! Eu não entendo de marcas, mas coisa boa a gente reconhece de longe. Ele também usa jóias. Anéis. E não são anéis de compromisso. São acessórios muito bonitos. Eu dei uma boa olhada nele enquanto o meu irmão contava coisas sobre o vinhedo e ele reparou na minha inspeção e sorriu. Eu, como sempre, devo estar dando o meu olhar de "o que é isso?" Que nem sempre significa algo r**m. — Eu não sei por que o meu pai nunca me trouxe aqui. Se eu soubesse, teria vindo antes. O lugar é muito interessante. Vocês também. — seus olhos vieram para mim e eu olhei para o prato com a testa franzida. Ele não esconde o que quer não. — Pode vir quando quiser. — O que achou da estrada? O seu pai sempre reclamava do quão r**m ela era. — Edu perguntou e eu ri junto com ele. Já aconteceu de duas vezes termos que rebocar o carro dele. — Digamos que concordo com o meu pai. — ele respondeu bem humorado. Ele se parece bastante com o pai. É carismático. Começamos a almoçar e meu pai começou a contar a história da fazenda. Como já sei de trás para frente, só foquei em terminar o mais rápido possível para comer a sobremesa que a minha mãe só faz quando temos visitas. É sempre diferente, mas ela não faz quando estamos só a família. E quando já estávamos na sobremesa ainda tinha assunto. — Você só tem dois filhos? — Não. Tem o George, que é o mais velho e no momento está viajando. Ele é veterinário. O do meio é o Eduardo e a nossa caçula é a Clarisse. — Clarisse não pensa em sair da fazenda? — Todos os dias quando acordo. Já faz 24 anos. Ele riu e eu também. — Clarisse quer ser designer de jóias. — Verdade? — ele olhou pra mim, com as sobrancelhas erguidas. — Interessante. — Você conhece pessoas com essa profissão lá na cidade? — aproveitei para perguntar. — Não, mas conheço uma joalheria e imagino que deve ter alguém com essa função que trabalhe para eles. — Foi lá que você comprou este anel? — fiquei curiosa. Tinha um rubi preso a "garras". — Sim. Na verdade, o meu pai comprou e me deu de presente. — ele estendeu os dedos. — É muito bonito. — Toda vez que alguém entra aqui, ela inspeciona dos pés à cabeça. — Edu me denunciou. — Edu! — fiquei constrangida. Eu não gosto que digam o que eu ando fazendo sem o consentimento das pessoas. Olhar não tira pedaço. O Sr. Becker ficou rindo. Aposto que ele me acha uma matuta que nunca viu nada bonito e que tem um sonho aleatório e sem fundamentos. — De onde surgiu o desejo de ser designer de jóias? — Depois da sela castradora que você fala? — meu irmão se intrometeu e todos rimos. O nome é muito bom. Que bom que aquele homem já tinha muitos filhos. A minha sela não deixou barato. — A minha tataravó era filha de um garimpeiro. Ela me deu muitas pedras preciosas e eu fico sempre pensando no que poderia fazer com elas, sem contar que a vovó era ótima com jóias também. — expliquei. — Você quer ver? — minha mãe perguntou, empolgada. — Claro. Já terminei de comer. — Está ali no corredor. — ela levantou e ele também. Eu também fui, pois tenho orgulho da minha coleção. A minha mãe deixa num armário com portas de vidro. — São só amostras, mas a Clarisse tem muito mais do que uma pedra de cada. Essa daqui é uma esmeralda, essas são pepitas de ouro, granada verde escura, ametista, rubi... — minha mãe apontava para cada uma. — Realmente, são muito bonitas e estão em estado bruto, não é? — Sim. — Nunca pensaram em vender? Deve dar um bom valor. Ou vocês tem estima? — Clarisse nunca quis vender. — Você não sabe o valor, suponho. — ele se virou para mim. — Pelo contrário. Sei muito bem. Só as minhas esmeraldas custam mais de 3 milhões, mas eu não tive a necessidade de vende-las ainda. Ele ficou admirado. — Vejo que não foi por falta de dinheiro que você não saiu daqui. — Falta de coragem mesmo. — contei sem graça. — O que achou das pedras? — meu pai se aproximou da gente. — Muito belas, mas de todas as jóias que vi até agora, esta que está na minha frente é a mais bela de todas. — ele se referiu a mim e conseguiu me fazer perder a pose. — Essa não está a venda. — meu irmão avisou e eu dei um sorriso tímido. — Clarisse deixa todos os homens deslumbrados. — meu pai comentou. — Mas vamos ver a fazenda. Tenho certeza de que vai gostar de ver o vinhedo também. — Claro. Vamos. — ele acompanhou o meu pai, mas antes de sair, ainda me deu uma encarada com um leve sorriso. Não vou dizer que não gostei de receber um elogio dessa importância. Quando eles saíram, Edu me deu uma cotovelada. — Parece que não estão se entendendo por causa do luto, mas por outros interesses. — Eu não estava flertando com ele. — O que eu perdi? — George apareceu de repente, por outra porta. — George? Você disse que só voltaria na próxima semana. — minha mãe foi cumprimenta-lo. Fiquei feliz por ver o meu irmão. — Consegui resolver tudo mais cedo. De quem é o carrão aí na frennte? — Do namorado da Clarisse. — Eduardo contou, saindo da sala. — Namorado? — Mentira, George! Você ainda acredita nas coisas que o Eduardo fala? — saí dali envergonhada. Não tem nada de namoro. Não estou pronta para namorar com ninguém e ele tem cara de ser mulherengo. Audacioso ele. Não esperava que teria essa coragem. Me dizer aquelas palavras e ainda na frente dos meus pais e do meu irmão... Sem dúvidas bem corajoso.
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