O ar na sala pareceu mudar depois daquilo. Mariana sentiu o peso do olhar daquele homem mesmo sem conseguir mais vê-lo, bloqueado pelo corpo de Leonardo à sua frente. A simples forma como ele falou, como reconheceu, como confirmou algo sem precisar de explicação… foi suficiente para fazer um desconforto real se instalar dentro dela. Não era mais só uma suspeita, nem um medo abstrato. Agora havia certeza. Ela não estava envolvida por acaso.
Leonardo permaneceu imóvel por alguns segundos, mas Mariana percebeu a tensão no corpo dele, a forma como os ombros enrijeceram levemente, como se estivesse segurando uma reação. Quando falou, a voz saiu ainda mais fria do que antes, controlada a ponto de parecer perigosa.
— Você já passou do limite só de estar aqui.
O homem soltou uma risada baixa, claramente provocando.
— Limite? Engraçado você falar isso. — Ele deu mais alguns passos, ignorando completamente a presença dos seguranças ao redor. — Porque, até onde eu sei, quem começou a quebrar regras foi você.
Mariana tentou se mover levemente para o lado, buscando enxergar melhor, mas Leonardo estendeu o braço para trás de forma sutil, impedindo que ela avançasse. O gesto foi discreto, mas firme o suficiente para deixar claro que ela não deveria se expor.
— Fala o que você quer e vai embora — disse Leonardo, sem alterar o tom.
— Direto, como sempre — respondeu o homem, inclinando a cabeça. — Mas acho que dessa vez a conversa é um pouco mais interessante.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era tenso, calculado, como se cada palavra estivesse sendo medida antes de ser dita. Mariana conseguia sentir que aquilo não era uma discussão comum, nem uma simples provocação. Havia algo por trás, algo que ela ainda não entendia completamente.
— Você sabe que isso não vai ficar assim — continuou o homem, agora com um tom mais sério. — Você mexeu onde não devia.
— Eu não devo satisfação pra você — retrucou Leonardo.
— Não, mas deve consequência — respondeu ele, sem hesitar.
Mariana sentiu um arrepio percorrer a espinha. A conversa estava tomando um rumo que ela não conseguia acompanhar totalmente, mas era claro que havia uma história ali, algo anterior, algo que explicava aquele confronto. E, de alguma forma, ela tinha sido puxada para o meio disso.
— Se você veio até aqui só pra falar isso, perdeu seu tempo — disse Leonardo, firme.
— Eu não perdi nada — retrucou o homem, desviando o olhar rapidamente na direção onde sabia que Mariana estava, mesmo sem vê-la diretamente. — Na verdade, eu ganhei bastante.
O silêncio pesou de novo.
Dessa vez mais ameaçador.
Leonardo deu um pequeno passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre eles.
— Cuidado com o que você tá insinuando.
O homem sorriu de lado, como se estivesse gostando da reação.
— Não é insinuação — disse ele. — É constatação.
Mariana sentiu o coração acelerar de novo, mas agora não era só medo. Era a percepção de que aquilo tudo estava conectado. O carro, a ligação, aquele homem ali agora… nada tinha sido aleatório.
— Você acha que esconder ela aqui resolve alguma coisa? — continuou o homem. — Ou você realmente acreditou que ninguém ia perceber?
Leonardo não respondeu de imediato, mas o silêncio dele não era sinal de dúvida. Era cálculo.
— Você não sabe de nada — disse ele por fim.
— Sei o suficiente — rebateu o homem. — Sei que você sempre teve um ponto fraco. Só não imaginava que seria tão… conveniente.
A provocação foi clara.
Direta.
E perigosa.
Mariana sentiu a raiva crescer dentro dela, misturada com o desconforto de ser tratada como parte de um jogo que ela nem sabia que existia. Antes que pudesse pensar melhor, deu um passo à frente, tentando sair da p******o de Leonardo.
— Eu não sou um “ponto fraco” de ninguém — disse, firme.
Leonardo reagiu na mesma hora, segurando o braço dela com força suficiente para impedir que ela avançasse mais.
— Mariana — disse ele, baixo, em tom de aviso.
Mas já era tarde.
O homem abriu um sorriso mais largo ao ouvir a voz dela.
— Então ela fala — comentou, divertido. — Melhor ainda.
Mariana ignorou o aperto no braço e sustentou o olhar dele, mesmo sentindo o desconforto crescer.
— Eu não sei o que você acha que tá acontecendo aqui, mas você tá muito enganado — continuou ela.
O homem inclinou levemente a cabeça, analisando.
— Engraçado… porque normalmente quem tá no meio do jogo é o último a perceber.
Aquilo a atingiu, mas ela não recuou.
— Eu não tô em jogo nenhum.
— Tá sim — disse ele, sem perder o tom calmo. — E você nem sabe as regras.
O silêncio caiu de novo, mais pesado.
Leonardo apertou levemente o braço dela antes de soltá-la, um gesto que misturava contenção e aviso.
— Já deu — disse ele, firme. — Você já falou demais.
O homem respirou fundo, como se estivesse avaliando até onde poderia ir.
— Relaxa — disse, dando um passo para trás. — Eu não vim aqui pra causar problema hoje.
— Então vai embora — respondeu Leonardo.
— Eu vou — confirmou ele. — Mas antes…
Ele parou.
E olhou diretamente para Mariana.
Dessa vez sem pressa.
Sem disfarçar.
— Cuidado com o lugar onde você se meteu — disse, a voz mais baixa, mas carregada de intenção. — Porque sair dele… não depende só de você.
O estômago dela revirou.
Leonardo avançou um passo imediatamente, mas o homem já estava recuando, levantando as mãos em sinal de falsa rendição.
— Calma — disse ele. — A gente ainda vai se ver.
Os seguranças se aproximaram, conduzindo-o para fora sem resistência. Em poucos segundos, ele já estava do outro lado do portão novamente, desaparecendo da mesma forma que tinha chegado.
O silêncio voltou.
Mas agora era outro tipo de silêncio.
Mais pesado.
Mais real.
Mariana ficou parada, tentando processar tudo, enquanto sentia o olhar de Leonardo sobre ela.
Quando finalmente se virou, encontrou ele completamente diferente de minutos atrás.
Mais tenso.
Mais fechado.
Mais… perigoso.
— Eu mandei você ficar atrás de mim — disse ele, a voz baixa, mas carregada de algo que não era só irritação.
— E eu não sou alguém que fica escondida — respondeu ela, ainda afetada.
Ele a encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo o que dizer.
— Você não entendeu ainda — disse ele por fim. — Isso não é sobre você querer ou não.
— Então me explica de uma vez — retrucou ela. — Porque eu não vou continuar no escuro.
Leonardo passou a mão pelo rosto, claramente tentando se controlar.
— Esse cara não aparece assim do nada — disse ele. — Se ele veio até aqui, é porque já sabe mais do que deveria.
O coração dela apertou.
— E o que ele sabe?
O silêncio veio antes da resposta.
E, quando ela veio, foi direta demais.
— Que você é o jeito mais fácil de chegar até mim.
Aquilo caiu como um peso.
Mas, dessa vez…
Mariana não conseguiu responder imediatamente.
Porque agora não era mais dúvida.
Era confirmação.