O Retorno
A estrada que levava à mansão da família Costa parecia mais longa do que Mariana se lembrava. As árvores altas dos dois lados formavam um túnel escuro, quase sufocante, enquanto o carro avançava lentamente pelo caminho de pedras, e o som dos pneus esmagando o cascalho marcava cada segundo daquele retorno que ela tentou adiar por anos. Cinco anos. Cinco anos longe daquele lugar… e ainda assim, bastou cruzar os portões para que tudo voltasse de uma vez: as lembranças, o peso no peito, e principalmente ele. Mariana apoiou a testa no vidro, observando a paisagem passar enquanto seu próprio reflexo devolvia uma versão diferente de si mesma — mais velha, mais contida, mas ainda não completamente preparada. Talvez nunca estivesse.
— Estamos chegando, senhorita — disse o motorista.
Ela não respondeu. Seu coração já havia começado a acelerar, não por medo, mas por uma expectativa incômoda que ela se recusava a nomear. O portão de ferro surgiu à frente, imponente, com o símbolo da família gravado no centro: um leão, forte, dominante, intimidador… como ele. Quando o portão se abriu lentamente, Mariana teve a nítida sensação de que estava atravessando um limite sem volta.
A mansão apareceu logo depois da curva, grande, fria e intacta, exatamente como ela lembrava. O carro parou diante da escadaria principal, e ao descer, ela sentiu o ar diferente tocar sua pele — mais denso, como se carregasse segredos antigos que nunca foram ditos em voz alta. Segurando a mala, subiu os degraus um a um, cada passo mais pesado que o anterior. Quando levantou a mão para tocar a campainha, a porta se abriu antes.
E o mundo pareceu parar.
Leonardo Costa estava ali.
Mariana esqueceu como respirar.
Ele não era mais o mesmo. Não havia mais traços do garoto que dividia risadas escondidas com ela na cozinha ou do irmão que a protegia de tudo. Agora ele era outra coisa — mais alto, mais largo, mais imponente, com o terno escuro moldando o corpo forte e a postura rígida deixando claro que ele não apenas fazia parte daquele lugar… ele mandava ali. Mas foram os olhos que a prenderam de verdade: escuros, atentos, perigosamente analíticos, como se estivessem absorvendo cada detalhe dela e recalculando tudo.
— Mariana… — a voz dele saiu baixa, grave.
Um arrepio percorreu sua coluna. Ela engoliu em seco, sustentando o olhar com esforço.
— Leonardo.
Ele desceu os degraus lentamente, sem desviar os olhos, e quando parou diante dela, seu olhar percorreu seu rosto, demorou nos olhos e desceu pelo corpo de forma lenta demais, avaliando cada detalhe como se aquilo tivesse algum significado oculto. Mariana cruzou os braços, incomodada.
— Vai continuar me olhando assim ou vai fingir que sentiu saudade?
Por um instante, algo mudou na expressão dele, algo sutil e perigoso, antes de um pequeno sorriso surgir no canto dos lábios.
— Eu senti.
A resposta veio baixa. Sincera demais.
Mariana inclinou levemente a cabeça, tentando esconder o impacto.
— Engraçado… porque quem sente saudade normalmente não desaparece por cinco anos sem dar explicação.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável. A mandíbula dele se contraiu discretamente, mas ele não desviou o olhar.
— Você cresceu.
Mariana soltou uma pequena risada sem humor.
— Essa é a melhor coisa que você tem pra dizer depois de tudo?
Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço dela.
— Eu poderia dizer muitas coisas… — murmurou, a voz mais baixa — mas não sei se você está pronta para ouvir.
O coração dela falhou uma batida. Ela odiou isso.
— Tenta.
Os olhos dele escureceram levemente, mas ele não respondeu. Em vez disso, pegou a mala dela com facilidade.
— Entra.
Um comando. Não um convite.
Mariana hesitou por um segundo… mas entrou.
O interior da mansão a envolveu imediatamente, com o mármore frio, os lustres imponentes e o silêncio elegante que, naquele momento, parecia mais opressor do que luxuoso. Ela caminhou devagar, absorvendo cada detalhe.
— Mamãe não chegou ainda?
— Só amanhã.
A voz dele vinha logo atrás. Próxima demais.
— Então hoje somos só nós dois.
Mariana parou. Havia algo naquela frase. Algo no tom. Ela se virou lentamente.
— Você fala isso como se fosse uma coisa boa.
Leonardo a observava com atenção demais.
— Depende do ponto de vista.
O ar pareceu ficar mais pesado entre eles. Mariana desviou o olhar primeiro.
Ela caminhou até a sala, tentando recuperar o controle.
— Você mudou algumas coisas.
— Poucas.
— A poltrona do seu pai não está mais aqui.
Leonardo ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu mandei tirar.
Mariana assentiu lentamente.
— Ainda é estranho pensar que ele morreu.
— Faz três anos.
— Eu sei…
O silêncio voltou, mais denso, carregado de coisas não ditas. Mariana respirou fundo e voltou a encará-lo.
— Você mudou.
Ele levantou levemente a sobrancelha.
— Em que sentido?
Ela o analisou com atenção.
— Você está mais frio… mais distante… mais difícil de ler.
Leonardo deu um passo na direção dela.
— Eu sempre fui assim.
— Não comigo.
A resposta veio imediata. Aquilo fez algo atravessar o olhar dele.
— Você era diferente… — continuou ela, mais baixa — comigo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você também era.
O impacto foi imediato.
— Eu tinha dezesseis anos.
— Exatamente.
Havia algo naquela palavra. Algo que ela não conseguiu entender completamente… mas sentiu.
— E por isso você decidiu simplesmente desaparecer? — insistiu ela, a emoção surgindo. — Me ignorar? Fingir que eu não existia?
A tensão aumentou. Leonardo passou a mão pelos cabelos.
— Eu estava fazendo o que precisava ser feito.
— Para quem? — ela retrucou imediatamente. — Porque pra mim só pareceu que você me descartou.
O silêncio veio como um golpe.
Ele se aproximou. Dessa vez, sem distância.
— Eu nunca descartaria você.
A voz saiu baixa. Intensa. Perigosa.
Mariana prendeu a respiração.
— Então explica… — insistiu, mais fraca agora. — Porque até hoje eu não entendi.
Os olhos dele se fixaram nos dela.
— Tem coisas… que você não entenderia naquela época.
— E agora eu entenderia?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Talvez.
— Então fala.
Silêncio.
Longo. Pesado.
Então ele deu um pequeno passo atrás, quebrando tudo.
— Não hoje.
A frustração veio imediata.
— Claro… porque fugir é mais fácil, né?
Dessa vez, ele reagiu.
— Eu nunca fujo.
— Engraçado… — ela cruzou os braços — porque foi exatamente isso que você fez comigo.
Os dois se encararam por longos segundos. Nenhum disposto a recuar.
Até que Mariana desviou primeiro. Pegou sua mala.
— Onde está meu quarto?
— No mesmo lugar de sempre.
Ela começou a subir as escadas, mas parou no meio do caminho.
— Ah… Leonardo.
— O que foi?
Ela respirou fundo.
— Eu não sou mais aquela garota.
Silêncio.
— Eu sei.
Ela apertou levemente a mala.
— Então para de agir como se eu fosse.
E subiu sem olhar para trás.
Mas ainda assim… sentiu.
O olhar dele a acompanhando.
Pesado. Intenso. Possessivo.
A casa voltou ao silêncio, mas Leonardo permaneceu imóvel por alguns segundos antes de caminhar lentamente até a janela. Do lado de fora, os homens da segurança permaneciam em seus postos. Tudo sob controle. Sempre. Menos ela. Nunca ela. Ele fechou os olhos por um instante, e a imagem dela veio com força — mais velha, mais bonita, mais perigosa do que deveria ser. Não havia mais nada da menina que ele tentou esquecer, e isso era um problema. Um grande problema. Cinco anos tentando manter distância… e bastaram poucos minutos para tudo voltar, mais forte, mais errado, mais impossível de ignorar. Ele apertou a mandíbula, soltando o ar lentamente.
Dessa vez… ele não ia se afastar.
E talvez… nem quisesse.