... mais tarde ...
A casa estava silenciosa demais.
Mariana percebeu isso assim que terminou de arrumar suas coisas.
Não havia passos no corredor. Nenhuma porta abrindo. Nenhuma voz distante. Apenas o som leve do vento batendo nas janelas e o eco quase imperceptível daquele silêncio estranho que parecia crescer dentro da mansão.
Ela permaneceu deitada por alguns segundos, olhando para o teto, tentando se convencer de que aquilo era bom.
Que o silêncio significava ausência.
E ausência… significava paz.
Mas, mesmo assim, algo dentro dela não relaxava.
A lembrança de mais cedo ainda estava viva demais.
O olhar dele.
A forma como ele falava.
A sensação de estar sendo… observada.
Mariana soltou o ar lentamente e se levantou, decidida a não pensar naquilo.
Não agora.
Precisava de um banho.
Precisava clarear a cabeça.
Caminhou até o banheiro do quarto, ainda meio distraída, mas parou abruptamente ao abrir a porta.
O espaço estava parcialmente desmontado.
Ferramentas no chão. Azulejos removidos. Um cheiro forte de material de obra.
Ela franziu a testa, confusa.
— Mas o que é isso…?
A resposta veio rápida na memória.
Uma das funcionárias havia comentado algo mais cedo… reforma… encanamento… algo assim.
Mariana soltou um suspiro irritado, passando a mão pelos cabelos.
— Ótimo. Perfeito.
Ficou parada por alguns segundos, pensando.
A casa era enorme. Havia outros banheiros.
Mas o mais próximo… era o dele.
A ideia fez seu estômago revirar.
Ela não queria.
Não depois de mais cedo.
Não depois daquele clima estranho, carregado, sufocante.
Mas também não queria descer pela casa procurando outro banheiro como uma estranha dentro da própria casa.
— Ele não está aqui — murmurou para si mesma.
Era cedo.
Silêncio total.
Provavelmente já tinha saído e não voltava logo.
Convencida disso — ou tentando se convencer — Mariana caminhou pelo corredor até o quarto de Leonardo.
Parou diante da porta por um instante.
Hesitou.
Mas então girou a maçaneta.
O quarto estava vazio.
E impecavelmente organizado.
O cheiro era diferente. Masculino. Limpo. Forte.
O tipo de presença que permanecia mesmo na ausência.
Ela engoliu em seco, sentindo um leve desconforto, mas entrou mesmo assim.
— Rápido — murmurou. — Só um banho e saio.
O banheiro dele era ainda maior que o dela. Luxuoso. Frio. Perfeito demais.
Mariana fechou a porta atrás de si e tentou ignorar a sensação estranha de estar invadindo algo íntimo demais.
Tirou a roupa rapidamente e entrou no chuveiro.
A água quente caiu sobre seu corpo como um alívio imediato.
Por alguns minutos, ela conseguiu desligar.
Esquecer.
Respirar.
Mas não completamente.
Porque mesmo ali… algo ainda incomodava.
A sensação persistente de que ela não deveria estar ali.
Quando desligou o chuveiro, o silêncio voltou.
Pesado.
Diferente.
Mariana pegou a toalha e a enrolou no corpo, ainda distraída, secando os cabelos com outra.
Abriu a porta do banheiro sem pensar.
E deu de cara com ele.
O impacto foi imediato.
Literal.
— Léo—
Ela não teve tempo de reagir.
Seu pé escorregou levemente no chão ainda úmido, e em um reflexo desesperado, tentou se segurar em algo.
Nele.
O corpo de Leonardo reagiu no mesmo instante, segurando-a pelos braços antes que ela caísse… mas o movimento foi rápido demais, desajeitado demais.
E no segundo seguinte—
Os dois estavam no chão.
Mariana caiu por cima dele.
O ar saiu de seus pulmões em um susto abafado.
Por um instante, o mundo pareceu parar.
Ela estava sobre ele.
Muito próxima.
Próxima demais.
O corpo dele era quente.
Firme.
Sólido sob o dela.
As mãos dele ainda seguravam seus braços com força.
Instintivamente.
O rosto deles estava a centímetros de distância.
E então o tempo voltou.
O coração dela disparou.
Rápido.
Descontrolado.
— O que você está fazendo aqui? — a voz dele saiu baixa, mas carregada, muito mais tensa do que deveria.
Mariana tentou se mover, mas percebeu tarde demais que a toalha estava perigosamente frouxa.
Ela congelou.
— Eu… eu achei que você não estava em casa — respondeu, a respiração falhando.
Os olhos dele desceram.
Devagar.
Lentamente demais.
Percorrendo o corpo dela envolto apenas pela toalha.
E aquilo…
Aquilo foi um erro.
Mariana sentiu o calor subir pelo corpo inteiro.
— O banheiro do meu quarto está em reforma — disse rápido demais, tentando justificar, tentando recuperar algum controle. — Eu só vim tomar um banho e—
Ela parou.
Porque o olhar dele tinha mudado.
Não era mais só intenso.
Era algo mais.
Mais escuro.
Mais pesado.
Mais… perigoso.
As mãos dele apertaram levemente os braços dela.
Não forte o suficiente para machucar.
Mas suficiente para impedir que ela simplesmente se levantasse.
— Você entrou no meu quarto… — ele começou, a voz baixa, controlada — achando que eu não estava aqui.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
Mariana engoliu em seco.
— Eu não sabia que você tinha voltado.
Silêncio.
O tipo de silêncio que diz mais do que qualquer palavra.
Ela tentou se levantar novamente.
Dessa vez, ele não impediu.
Mas não ajudou.
Apenas soltou devagar.
Observando.
Mariana se afastou rapidamente, ajustando a toalha com pressa, o coração ainda acelerado demais.
— Desculpa — disse, evitando olhar para ele. — Eu não quis invadir seu espaço.
Mas ele se levantou logo depois.
Devagar.
Sem pressa.
E isso só piorou tudo.
Porque agora ele estava de pé.
E ainda mais próximo.
A presença dele parecia preencher o ambiente inteiro.
— Invadir? — repetiu ele, com um tom quase imperceptível de ironia.
Mariana finalmente levantou o olhar.
Erro.
Ele estava olhando para ela de novo.
Do mesmo jeito.
Sem disfarçar.
Sem recuar.
— Você entrou aqui como se fosse normal — continuou ele, a voz baixa, mas carregada de algo que fazia o ar pesar — como se não tivesse problema nenhum.
— Eu só precisava de um banho — rebateu ela, mais defensiva do que pretendia.
Ele deu um passo à frente.
Um único passo.
E isso foi suficiente para fazer o corpo dela reagir.
— E resolveu usar justamente o meu quarto — disse ele.
— Era o mais perto — respondeu, firme, embora a voz traísse a tensão.
Silêncio.
Os olhos dele não saíam dela.
— Você deveria ter batido — disse ele por fim.
— Eu achei que estava vazio — insistiu.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Observando.
Analisando.
— Você anda fazendo muitas coisas achando coisas — murmurou.
O coração dela bateu mais forte.
— E você anda controlando demais — retrucou, sem pensar.
Aquilo mudou o clima na hora.
Os olhos dele escureceram.
De verdade.
— Cuidado com o jeito que fala comigo, Mariana.
A voz veio mais baixa.
Mais perigosa.
Mas ela não recuou.
Não dessa vez.
— Ou o quê? — desafiou, mesmo sentindo o corpo inteiro em alerta.
Silêncio.
Pesado.
Carregado.
Ele se aproximou mais.
Agora perto demais.
Muito perto.
— Ou você começa a entender que não está mais em um lugar onde pode simplesmente fazer o que quer… — disse ele, a voz quase um sussurro — …principalmente quando envolve você.
O ar ficou preso na garganta dela.
— Isso não faz sentido — respondeu, mais baixo agora.
— Faz pra mim.
A resposta foi imediata.
E pior.
Convicta.
Mariana desviou o olhar, tentando se afastar daquela sensação estranha que crescia dentro dela.
Mas não conseguiu sair.
Não ainda.
Porque, de alguma forma…
Algo ali a prendia.
E isso a assustava mais do que qualquer outra coisa.
— Eu só queria um banho — disse novamente, quase como se estivesse tentando se convencer.
Léo soltou um leve suspiro.
Mas não se afastou.
— Da próxima vez… — começou ele, mais calmo agora — não entra no meu quarto sem avisar.
Ela assentiu, ainda sem olhar diretamente para ele.
— E Mariana…
Ela levantou os olhos.
— Cuidado — completou ele, encarando-a profundamente — porque você não tem ideia do tipo de erro que acabou de cometer.
O coração dela disparou de novo.
Mas dessa vez…
Não foi só medo.
E isso era o mais perigoso de tudo.