Mariana não lembrava exatamente como saiu do quarto de Leonardo.
Só sabia que saiu rápido demais.
Rápido o suficiente para não pensar.
Rápido o suficiente para não olhar para trás.
O corredor parecia mais longo agora, como se a casa inteira tivesse mudado de forma depois do que aconteceu. Seus passos eram apressados, mas descompassados, e o coração ainda batia forte demais dentro do peito, como se tentasse acompanhar algo que ela não conseguia entender.
Quando finalmente entrou no próprio quarto, fechou a porta com força e encostou as costas nela, respirando fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
Mas não adiantava.
A sensação ainda estava ali.
Viva demais.
O toque dele.
As mãos segurando seus braços.
O olhar.
Principalmente o olhar.
— Que inferno… — murmurou, passando a mão pelo rosto.
Ela caminhou até a cama e se sentou, ainda enrolada na toalha, tentando organizar os pensamentos, mas tudo parecia embaralhado.
Aquilo não tinha sido só um acidente.
Não daquele jeito.
Não com aquele olhar.
Mariana apertou a toalha contra o corpo, sentindo um arrepio percorrer sua pele ao lembrar da forma como ele a olhou… como se estivesse vendo algo pela primeira vez.
E isso a incomodou.
Muito mais do que deveria.
— Ele sempre me viu como irmã… — sussurrou, como se dissesse aquilo fosse tornar verdade.
Mas algo dentro dela já não acreditava tanto assim.
Do outro lado da casa, Leonardo permanecia imóvel no próprio quarto.
O silêncio agora era diferente.
Pesado.
Quase irritante.
Ele passou a mão pelo rosto devagar, como se tentasse apagar a imagem que insistia em voltar.
Mas não conseguia.
Não queria.
Mariana.
De toalha.
Molhada.
A poucos centímetros dele.
O corpo dela pressionado contra o seu.
A respiração acelerada.
O calor.
Leonardo fechou os olhos por um instante, apertando a mandíbula.
— d***a…
Aquilo não deveria ter acontecido.
Ele passou cinco anos evitando exatamente isso.
Cinco anos mantendo distância.
Cinco anos se convencendo de que tinha feito a escolha certa ao afastá-la.
Mandá-la embora.
Tirá-la de perto antes que fosse tarde demais.
Mas agora…
Ela estava de volta.
E não era mais a garota que ele lembrava.
Aquilo ficou claro demais.
O corpo dela.
A forma como reagiu.
O jeito que o encarou.
Não.
Ela não era mais uma menina.
E esse era o problema.
Leonardo caminhou até a janela, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado consigo mesmo.
Ele tinha perdido o controle por alguns segundos.
Poucos.
Mas suficientes.
E isso não podia acontecer de novo.
Não com ela.
Principalmente não com ela.
— Você precisa se controlar — murmurou, mais para si mesmo do que qualquer outra coisa.
Mas a lembrança veio de novo.
Mais forte.
Mais nítida.
E, pela primeira vez em anos…
Ele não quis afastar.
Ele quis repetir.
O maxilar dele travou.
— Isso acaba aqui.
A decisão foi rápida.
Fria.
Como tudo que ele fazia.
Mas, no fundo, ele sabia.
Aquilo não tinha acabado.
Nem de perto.
—
Mais tarde, o clima na casa estava… estranho.
Denso.
Quase palpável.
Mariana desceu as escadas com cuidado, já vestida, mas ainda sentindo o corpo reagir de forma traiçoeira a cada lembrança.
Ela tentou agir normalmente.
Tentou ignorar.
Mas era impossível.
Quando entrou na sala…
Ele já estava lá.
Sentado.
Esperando.
Como se soubesse exatamente o momento em que ela desceria.
O olhar dele subiu devagar.
Encontrando o dela.
E ficou.
Tempo demais.
Mariana engoliu em seco, mantendo a postura.
— A reforma do seu banheiro termina hoje — disse ele, direto, como se nada tivesse acontecido.
Aquilo a irritou.
A naturalidade.
A frieza.
— Ótimo — respondeu ela, seca.
Silêncio.
Mas não era um silêncio neutro.
Era carregado.
Cheio de coisas não ditas.
Ela deu alguns passos pela sala, tentando manter distância.
— Você podia ter avisado — disse, cruzando os braços. — Sobre a reforma.
— Você não perguntou.
A resposta veio rápida.
Controlada.
E irritante.
— Eu acabei de chegar — retrucou ela. — Não tive tempo de fazer um checklist da casa inteira.
Os olhos dele escureceram levemente.
— Você também não teve tempo de bater na porta antes de entrar no meu quarto.
O golpe veio direto.
Mariana travou por um segundo.
Mas não recuou.
— Eu já expliquei — disse, firme. — Eu achei que você não estava.
— Você acha muita coisa.
A tensão aumentou.
— E você controla demais — devolveu ela, sem pensar.
Silêncio.
Pesado.
Diferente.
Leonardo se levantou devagar.
Sem pressa.
Mas a mudança foi imediata.
O ambiente inteiro pareceu responder àquilo.
Ele deu um passo na direção dela.
Depois outro.
Mariana sentiu o corpo reagir automaticamente.
Mas não recuou.
— Você realmente não entende, né? — disse ele, a voz mais baixa agora.
— Entender o quê? — desafiou.
Ele parou na frente dela.
Perto demais.
De novo.
— Que certas situações… não podem se repetir.
O coração dela acelerou.
— Foi um acidente.
— Não importa.
A resposta veio imediata.
— Importa sim — insistiu ela, sentindo a irritação crescer. — Você está agindo como se eu tivesse feito algo errado.
Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos fixos nela.
— E não fez?
Aquilo a pegou desprevenida.
— Não — respondeu, mais firme do que se sentia.
Silêncio.
Ele a observou por alguns segundos.
Longos demais.
— Você entrou no meu quarto — começou ele, devagar — sem aviso… achando que estava sozinha… e saiu do meu banheiro daquele jeito.
O tom dele mudou.
Sutil.
Mas carregado.
— Que jeito? — perguntou ela, mesmo sabendo exatamente.
Erro.
Os olhos dele desceram.
Lentamente.
E voltaram.
— Você sabe.
O calor subiu pelo corpo dela de novo.
Mas dessa vez veio junto com raiva.
— Eu estava de toalha, Léo — disse, mais dura. — Não foi nada demais.
Mentira.
Ela sabia.
Ele sabia.
O silêncio confirmou.
— Para você, talvez não — disse ele, baixo.
O coração dela falhou uma batida.
— E pra você? — perguntou, antes de pensar.
Silêncio.
Perigoso.
Denso.
Ele deu mais um passo.
Agora não havia espaço.
— Pra mim… — começou, a voz mais baixa ainda — foi um erro.
A resposta veio rápida demais.
Fria demais.
E isso…
Isso irritou mais do que deveria.
Mariana deu um passo para trás.
— Então pronto — disse, cruzando os braços. — Não vai acontecer de novo.
Mas algo no olhar dele dizia que aquilo não era tão simples.
E ela percebeu.
— Não vai mesmo — completou ele.
Mas não soou como alívio.
Soou como aviso.
Silêncio.
Pesado.
— Ótimo — disse ela, virando-se.
Mas antes que pudesse dar dois passos—
— Mariana.
Ela parou.
Sem se virar.
— O que foi?
A resposta demorou.
Quando veio, foi mais baixa.
Mais controlada.
Mas diferente.
— Evita esse tipo de situação.
Ela franziu a testa.
— Que tipo?
Silêncio.
— Você sabe qual.
Aquilo foi o suficiente.
Mariana se virou lentamente, encarando-o.
— Não, Léo… eu não sei — disse, mais firme agora. — Então fala.
Ele a encarou por alguns segundos.
E então disse:
— Situações onde você esquece… quem você é aqui.
O impacto veio imediato.
— E quem eu sou? — perguntou, desafiando.
Os olhos dele escureceram.
— Alguém que não pode se dar ao luxo de errar.
Aquilo não fez sentido.
Mas fez.
De um jeito estranho.
Perigoso.
— Ou o quê? — insistiu.
Silêncio.
Longo.
Carregado.
E então ele disse, baixo:
— Ou as coisas saem do controle.
O coração dela disparou.
Mas dessa vez…
Não foi só medo.
E isso era exatamente o problema.
Porque, pela primeira vez…
Mariana começou a perceber que não era a única tentando manter distância.
E talvez…
Ele estivesse falhando nisso muito mais do que ela.