Cruzando uma linha de risco

1284 Words
Mariana não lembrava exatamente como saiu do quarto de Leonardo. Só sabia que saiu rápido demais. Rápido o suficiente para não pensar. Rápido o suficiente para não olhar para trás. O corredor parecia mais longo agora, como se a casa inteira tivesse mudado de forma depois do que aconteceu. Seus passos eram apressados, mas descompassados, e o coração ainda batia forte demais dentro do peito, como se tentasse acompanhar algo que ela não conseguia entender. Quando finalmente entrou no próprio quarto, fechou a porta com força e encostou as costas nela, respirando fundo. Uma vez. Duas. Três. Mas não adiantava. A sensação ainda estava ali. Viva demais. O toque dele. As mãos segurando seus braços. O olhar. Principalmente o olhar. — Que inferno… — murmurou, passando a mão pelo rosto. Ela caminhou até a cama e se sentou, ainda enrolada na toalha, tentando organizar os pensamentos, mas tudo parecia embaralhado. Aquilo não tinha sido só um acidente. Não daquele jeito. Não com aquele olhar. Mariana apertou a toalha contra o corpo, sentindo um arrepio percorrer sua pele ao lembrar da forma como ele a olhou… como se estivesse vendo algo pela primeira vez. E isso a incomodou. Muito mais do que deveria. — Ele sempre me viu como irmã… — sussurrou, como se dissesse aquilo fosse tornar verdade. Mas algo dentro dela já não acreditava tanto assim. Do outro lado da casa, Leonardo permanecia imóvel no próprio quarto. O silêncio agora era diferente. Pesado. Quase irritante. Ele passou a mão pelo rosto devagar, como se tentasse apagar a imagem que insistia em voltar. Mas não conseguia. Não queria. Mariana. De toalha. Molhada. A poucos centímetros dele. O corpo dela pressionado contra o seu. A respiração acelerada. O calor. Leonardo fechou os olhos por um instante, apertando a mandíbula. — d***a… Aquilo não deveria ter acontecido. Ele passou cinco anos evitando exatamente isso. Cinco anos mantendo distância. Cinco anos se convencendo de que tinha feito a escolha certa ao afastá-la. Mandá-la embora. Tirá-la de perto antes que fosse tarde demais. Mas agora… Ela estava de volta. E não era mais a garota que ele lembrava. Aquilo ficou claro demais. O corpo dela. A forma como reagiu. O jeito que o encarou. Não. Ela não era mais uma menina. E esse era o problema. Leonardo caminhou até a janela, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado consigo mesmo. Ele tinha perdido o controle por alguns segundos. Poucos. Mas suficientes. E isso não podia acontecer de novo. Não com ela. Principalmente não com ela. — Você precisa se controlar — murmurou, mais para si mesmo do que qualquer outra coisa. Mas a lembrança veio de novo. Mais forte. Mais nítida. E, pela primeira vez em anos… Ele não quis afastar. Ele quis repetir. O maxilar dele travou. — Isso acaba aqui. A decisão foi rápida. Fria. Como tudo que ele fazia. Mas, no fundo, ele sabia. Aquilo não tinha acabado. Nem de perto. — Mais tarde, o clima na casa estava… estranho. Denso. Quase palpável. Mariana desceu as escadas com cuidado, já vestida, mas ainda sentindo o corpo reagir de forma traiçoeira a cada lembrança. Ela tentou agir normalmente. Tentou ignorar. Mas era impossível. Quando entrou na sala… Ele já estava lá. Sentado. Esperando. Como se soubesse exatamente o momento em que ela desceria. O olhar dele subiu devagar. Encontrando o dela. E ficou. Tempo demais. Mariana engoliu em seco, mantendo a postura. — A reforma do seu banheiro termina hoje — disse ele, direto, como se nada tivesse acontecido. Aquilo a irritou. A naturalidade. A frieza. — Ótimo — respondeu ela, seca. Silêncio. Mas não era um silêncio neutro. Era carregado. Cheio de coisas não ditas. Ela deu alguns passos pela sala, tentando manter distância. — Você podia ter avisado — disse, cruzando os braços. — Sobre a reforma. — Você não perguntou. A resposta veio rápida. Controlada. E irritante. — Eu acabei de chegar — retrucou ela. — Não tive tempo de fazer um checklist da casa inteira. Os olhos dele escureceram levemente. — Você também não teve tempo de bater na porta antes de entrar no meu quarto. O golpe veio direto. Mariana travou por um segundo. Mas não recuou. — Eu já expliquei — disse, firme. — Eu achei que você não estava. — Você acha muita coisa. A tensão aumentou. — E você controla demais — devolveu ela, sem pensar. Silêncio. Pesado. Diferente. Leonardo se levantou devagar. Sem pressa. Mas a mudança foi imediata. O ambiente inteiro pareceu responder àquilo. Ele deu um passo na direção dela. Depois outro. Mariana sentiu o corpo reagir automaticamente. Mas não recuou. — Você realmente não entende, né? — disse ele, a voz mais baixa agora. — Entender o quê? — desafiou. Ele parou na frente dela. Perto demais. De novo. — Que certas situações… não podem se repetir. O coração dela acelerou. — Foi um acidente. — Não importa. A resposta veio imediata. — Importa sim — insistiu ela, sentindo a irritação crescer. — Você está agindo como se eu tivesse feito algo errado. Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos fixos nela. — E não fez? Aquilo a pegou desprevenida. — Não — respondeu, mais firme do que se sentia. Silêncio. Ele a observou por alguns segundos. Longos demais. — Você entrou no meu quarto — começou ele, devagar — sem aviso… achando que estava sozinha… e saiu do meu banheiro daquele jeito. O tom dele mudou. Sutil. Mas carregado. — Que jeito? — perguntou ela, mesmo sabendo exatamente. Erro. Os olhos dele desceram. Lentamente. E voltaram. — Você sabe. O calor subiu pelo corpo dela de novo. Mas dessa vez veio junto com raiva. — Eu estava de toalha, Léo — disse, mais dura. — Não foi nada demais. Mentira. Ela sabia. Ele sabia. O silêncio confirmou. — Para você, talvez não — disse ele, baixo. O coração dela falhou uma batida. — E pra você? — perguntou, antes de pensar. Silêncio. Perigoso. Denso. Ele deu mais um passo. Agora não havia espaço. — Pra mim… — começou, a voz mais baixa ainda — foi um erro. A resposta veio rápida demais. Fria demais. E isso… Isso irritou mais do que deveria. Mariana deu um passo para trás. — Então pronto — disse, cruzando os braços. — Não vai acontecer de novo. Mas algo no olhar dele dizia que aquilo não era tão simples. E ela percebeu. — Não vai mesmo — completou ele. Mas não soou como alívio. Soou como aviso. Silêncio. Pesado. — Ótimo — disse ela, virando-se. Mas antes que pudesse dar dois passos— — Mariana. Ela parou. Sem se virar. — O que foi? A resposta demorou. Quando veio, foi mais baixa. Mais controlada. Mas diferente. — Evita esse tipo de situação. Ela franziu a testa. — Que tipo? Silêncio. — Você sabe qual. Aquilo foi o suficiente. Mariana se virou lentamente, encarando-o. — Não, Léo… eu não sei — disse, mais firme agora. — Então fala. Ele a encarou por alguns segundos. E então disse: — Situações onde você esquece… quem você é aqui. O impacto veio imediato. — E quem eu sou? — perguntou, desafiando. Os olhos dele escureceram. — Alguém que não pode se dar ao luxo de errar. Aquilo não fez sentido. Mas fez. De um jeito estranho. Perigoso. — Ou o quê? — insistiu. Silêncio. Longo. Carregado. E então ele disse, baixo: — Ou as coisas saem do controle. O coração dela disparou. Mas dessa vez… Não foi só medo. E isso era exatamente o problema. Porque, pela primeira vez… Mariana começou a perceber que não era a única tentando manter distância. E talvez… Ele estivesse falhando nisso muito mais do que ela.
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