Escolhas que doem

815 Words
Mariana m*l teve tempo de fechar a porta. — Então vai continuar dizendo que não tem nada com aquele cara? A voz de Leonardo veio seca, cortando o silêncio da casa como uma lâmina. Ela parou. Fechou os olhos por um segundo. Cansada. Quando se virou, não havia mais tentativa de disfarçar. — Sério isso? — disse, soltando uma risada sem humor. — É assim que você me recebe agora? Ele estava encostado na parede, os braços cruzados, o olhar carregado. — Eu fiz uma pergunta. — E eu não te devo resposta nenhuma — retrucou ela, firme. Aquilo foi o suficiente. Leonardo se aproximou rápido, segurando o braço dela com força. — Deve sim. O toque foi firme demais. Quase bruto. Mariana tentou puxar o braço. — Me solta. — Não enquanto você continuar se fazendo de desentendida — disse ele, baixo, mas carregado de irritação. — Eu não tô me fazendo de nada! — rebateu ela, elevando a voz. — Você que inventa coisa na sua cabeça e acha que tem direito de me cobrar! Ele apertou levemente mais o braço dela. — Eu vi você com ele. — E daí?! — respondeu ela. — Eu tava voltando pra casa, não fazendo nada demais! O silêncio pesou entre os dois. Mas não durou. — Se você não se afastar dele… — começou Leonardo. Mariana estreitou os olhos. — O quê? — Ele tá demitido. Aquilo caiu como um choque. Imediato. — Você não faria isso — disse ela, mas a segurança na voz já não era a mesma. — Testa pra ver. O olhar dele não vacilou. Não tinha blefe ali. E ela percebeu. Miguel. O emprego. A vida dele. Tudo passou pela cabeça dela em segundos. E, pela primeira vez… Ela recuou. Devagar. O olhar mudou. A raiva ainda estava ali. Mas agora tinha algo a mais. Resignação. — Tá… — disse ela, mais baixo. Leonardo franziu levemente a testa. — Tá o quê? Ela puxou o braço da mão dele, dessa vez ele soltou. — Eu me afasto — respondeu. O silêncio veio. Mas não foi vitória. Foi pesado. Desconfortável. Porque ele sabia. Aquilo não era o que ela queria. — Satisfeito? — perguntou ela, fria. Ele não respondeu. E isso foi pior. Mariana apenas virou as costas. Subiu. Sem olhar pra trás. — Ela não desceu para jantar. Nem respondeu quando chamaram. Nem quis saber de nada. Ficou no quarto. Sozinha. Olhando pro teto. Pensando no quanto aquilo tinha saído do controle. E, pela primeira vez… Ela não chorou. Só ficou ali. Vazia. — No dia seguinte, o ambiente na empresa parecia ainda mais pesado. Mariana chegou cedo. Sentou. Ligou o computador. E tentou agir como se fosse só mais um dia. Mas não era. Ela viu Miguel. Logo de longe. Ele sorriu. Instintivamente. Mas o sorriso morreu aos poucos quando percebeu a postura dela. Fria. Distante. Ela desviou o olhar. Fingiu que não viu. O coração apertou. Mas ela manteve. Precisava manter. Era pro bem dele. Ele tentou se aproximar no meio da manhã. Parou ao lado da mesa. — Mariana… Ela nem levantou o olhar. — Tô ocupada, Miguel. A voz saiu neutra. Distante. Como se ele fosse… qualquer pessoa. O silêncio ficou estranho. Pesado. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele. Ela digitou mais rápido. — Não. — Tem certeza? Agora ela olhou. Mas não com carinho. Não com proximidade. — Eu acho melhor a gente manter só o profissional — disse ela. Direto. Sem rodeio. Aquilo atingiu. Ela viu. Mas não voltou atrás. Miguel assentiu devagar. — Entendi. E saiu. Sem insistir. Sem olhar pra trás. E aquilo… Doeu mais do que qualquer discussão. — O resto da manhã se arrastou. Até que algo quebrou a rotina. A porta da sala de Leonardo se abriu com força. — Quero todo mundo na sala de reunião. Agora. A voz dele veio firme. Autoritária. Diferente. Mariana franziu a testa. Aquilo não era normal. Os funcionários começaram a se movimentar rapidamente, trocando olhares discretos. Algo tinha acontecido. E não era pequeno. Minutos depois, todos estavam reunidos. Leonardo entrou. Mais sério do que o normal. Mais tenso. O olhar passou por todos… até parar rapidamente em Mariana. Mas ele não disse nada sobre isso. — A partir de hoje, a empresa vai passar por algumas mudanças — começou ele. O silêncio era total. — A gente teve uma quebra de segurança ontem à noite. O coração de Mariana acelerou. — Informações internas foram vazadas. Murmúrios baixos começaram. — E até eu descobrir quem foi… ninguém sai ileso — continuou ele. O tom era frio. Perigoso. — Todos vão ser investigados. O ar ficou pesado. — Inclusive vocês — completou, olhando ao redor. Mariana sentiu um arrepio. Não era só trabalho. Era o mundo dele invadindo tudo de novo. E, pela forma como ele falou… Aquilo ia dar problema. Grande problema.
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