"Nunca se sabe quando se tem de recorrer a medidas extremas."
Ivan Czar
***
— Tem razão. — respondi em russo, ela segurou minha mão e nos guiei para um dos quartos e então decidi tomar um banho para em seguida tentar esfriar a cabeça.
Natasha parecia a vontade, voltei do banheiro com apenas uma toalha na cintura, seus olhos direcionaram diretamente para mim, ela estava sentada com uma postura perfeita sobre a cama. O quarto não era tão luxuoso, só havia o básico e nada ali era tão atrativo como deveria ser.
— Estou acostumado a ficar à vontade, então… — Natasha virou de costas para mim o que me fez sorrir deixando a toalha cair do corpo, peguei uma troca em uma das gavetas disponíveis de uma cômoda ao lado da cama. Rapidamente cobri o corpo e senti seu olhar queimar sobre mim.
— Você é sempre assim?
— Sempre.
— …Arrogante? — suas palavras eram como um desafio, uma afronta.
— Mede suas palavras, mulher! — aproximei e pensei seu corpo sobre a cama de casal, sua caixa torácica movia de forma lenta, ela está ainda mais bela nessa visão.
— Ou? Fará o que? — respondeu em desafio, os olhos dilatados, talvez pela adrenalina do momento. Meus lábios encostaram nos de Natasha, nossas respirações se mesclando e mantemos o contato de nossos olhares.
— Posso fazer muitas coisas, não teste minha paciência Natasha. — seus lábios tremeram com o leve roçar dos meus, e então me afastei. Havia algo nela que me deixava à beira da loucura, não sei. Algo que me alertava sobre o incerto, como uma desconfiança inexplicável, tanto pela atração que temos, mas decidi deixar tal hipótese de minha intuição de lado.
— Onde vai? — ignorei sua pergunta repentina, tomando rumo ao andar de baixo, meus passos eram pesados conforme seguia até o escritório. Sentei observando todo o local até que me deparei com uma coleção particular de bebidas em uma mini adega onde havia visto antes. Andei até lá e retirei a primeira garrafa que toquei, bebi o vinho diretamente do gargalo fazendo o gosto adocicado descer suavemente, no momento seguinte já estava fazendo uma pilha de garrafas vazias.
— Quer companhia? — Edgar entrou com seus passos leves, era sua marca registrada sempre chegar de forma silenciosa. Apontei para a poltrona atrás da grande mesa de Carvalho envernizado, ele caminhou até lá e lhe ofereci um copo para servir o vinho que estava em minha mão.
— Eu sinto muito. — Suas palavras, por mais que fossem confortantes, não conseguiram tirar o que estava me sufocando no momento.
— Não sinta. A culpa é toda minha…
— Pode até ser, mas você tinha boas intenções amigo. Quem poderia ter imaginado tal coisa? Nem os mais fiéis a você sabia de tal condição.
— Engraçado, quando as coisas vão tão bem para quem não merece. — O assunto havia se encerrado tão rápido quanto o vinho em minhas mãos.
— Bom, pelo menos temos um lado extraordinário nesse assunto, tirando a tragédia, meu amigo terá muito trabalho pela frente. — Edgar estava se mantendo com o bom humor intacto, talvez acreditando que poderia ajudar com toda a tensão, mas não seria suficiente. — o russo parecia estar cada vez mais fluente e isto para mim é um tormento, lógico que sempre quando pude, pratiquei minha língua materna para não perder minha origem. Edgar riu.
— Você ainda não conheceu a Vanessa. — Disse enquanto comecei a vasculhar pelo local, deixando uma bagunça por onde passava.
— Sua mulher?
— Ela é brasileira. — senti seu orgulho inflar ao falar da mulher. — E muito mandona.
Ele ofereceu um cigarro ao qual peguei com muito gosto.
— Deixei alguns guardados para emergências. — Apenas acendi o cigarro e dei o primeiro trago, os músculos começaram a relaxar na medida que os minutos passavam.
Segui para a janela e abri para ver o céu bem pouco iluminado pela lua, o gramado adiante e algumas árvores sobre a pouca luz da casa, deixava tudo um pouco mais isolado da civilização de Moscou.
De repente uma movimentação estranha se fez presente nas copas das árvores e os cachorros começaram a ficar agitados, latindo para o escuro.
— Estamos sendo vigiados. — comentei deixando a janela. Edgar estava calmo com esta situação que nem estava me ouvindo.
— Seria estranho se não estivéssemos, Cezare sempre foi vigiado. — Deu de ombros. Havia algo de estranho no ambiente, como uma energia negativa. Edgar estava fumando outro cigarro, relaxado sobre a poltrona, parecendo o dono do estabelecimento.
— Mas te garanto, eles sabiam das barbaridades que aconteciam e por trás destas paredes, então a culpa é deles. Nunca fizeram nada para interferir! — Cuspiu as palavras aumentando o amargo em meu estômago.
— Temos algum plano? — me servi de outra bebida.
— O plano seria o ataque indireto, ganhe poder Ivan e você terá o que desejar. — ele sorriu presunçoso.
— Eu desejo a morte. — Ouvimos batidas na porta. — Entre!
— Com licença, Ivan. —Tom pediu entrando no ambiente.
— Alguma notícia? — Edgar manteve uma postura autoritária.
— Já demos um fim ao corpo de Cezare. — Seus lábios tremeram um pouco e em seguida, as sobrancelhas. Sinal de que havia utilizado algum entorpecente antes de ter retornado.
— Entrei em contato com Hutson, ele e a equipe estão vindo para fazer a guarda. — Edgar concilia entre beber e fumar, coisa de seu feitio.
— Parece que boa parte dos homens ao lado são de confiança. — Tom falou de forma abrupta, como se estivesse contendo algo dentro de si.
— Espero que sim, caso contrário… — suspirei sentindo o ar puro entrar em meus pulmões de forma dolorosa.
— Estarão todos mortos. — Analisei algumas tonalidades pelo ambiente. Eram em tons avermelhados, algo semelhante ao qual despertou sentimentos de solidão e de grande insanidade.
***
— Eu… preciso … — Vozes ecoam em meus ouvidos, já não sentia todo o corpo suspenso, apenas algo consideravelmente macio abaixo de mim e um cheiro insuportável de algo desconhecido.
— Não usa tanto p***a! — uma voz mais grave reverberou pelo ambiente. — É difícil de se conseguir.
Barulhos de sacolas preenchem meus sentidos, meu estômago se aperta de fome no mesmo minuto. O cheiro estava insuportável de tal forma que meus pulmões começaram a protestar em uma tosse rouca, talvez isto chame a atenção deles e ou talvez não, mas agora nem sei mais com o que me importo.
— O que fazem aqui? — Uma voz feminina reverbera por entre as outras vozes atiçando minha curiosidade.
— Ele deveria já estar pronto! — ouvi atentamente toda a discussão enquanto tentava me manter acordado. Meu corpo todo estava sensível intensificando de forma antecipada a ansiedade pelo o que estaria por vir, a porta é aberta de forma abrupta fazendo cada conexão de meu sistema nervoso fique novamente em atividade.
— Levanta. — A voz soou autoritária. Não sentia mais os comandos que tentei executar, todavia estava tão fraco ao ponto de não desejar menos que a chegada da morte.
— p***a! — A mulher de estatura pequena esbraveja andando em círculos. — A ordem era clara. Mas nem isso que lhes foi comandado conseguiram fazer?
Seus olhos âmbar pousaram sobre mim remexendo algo por dentro, era mais uma sensação boa que chegava a ter um efeito analgésico em meu corpo deplorável.
— Você precisa comer. — Ela voltou para o lado de fora deixando a porta aberta, não se preocupou com uma possível fuga. Tempo depois ela retornou com um embrulho, ela se ajoelhou ao lado da cama direcionando um sorriso gentil para mim.
— O … que está fazendo? — As palavras saíram dolorosas de minha garganta tornando a sensação menos prazerosa de se fazer.
— Te ajudando. — Ela desembrulhou uma grande tigela de isopor contendo um líquido amarelo nele, pegou uma colher e gentilmente levou até meus lábios. Tomei o líquido que chegou a doer na passagem pela garganta, aos poucos, as sensações de desconforto sumiram juntamente com a fraqueza muscular.
— Você não está me ajudando.
— Com certeza estou. Agora termine de comer, precisamos que você pelo menos consiga sair daqui andando.
Franzi o cenho com tal revelação, eles querem me levar para longe de minha mãe. Encarei a mulher estranha para mim, ela não parecia ter menos do que dezesseis anos em suas feições, seus gestos eram alternados de bruto para gentis e carregava marcas por algumas partes do corpo.
— Sair?
— Escute. — Ela abaixou o tom de sua voz e vigiou a porta de ferro que estava encostada. — Jhon quer que você seja mais um peão para seus joguinhos. Há pessoas que também não concordam com seus atos, Cezare não faz nem a noção do quanto está prejudicando as pessoas do lado de fora de seu castelo poderoso.
Ela dizia cada palavra que transbordava rancor, ódio e principalmente tristeza. Me parecia ser uma pessoa sincera, principalmente pelo fato de sempre tentar manter nosso contato visual.
— Eu e muitos outros, desejamos o melhor para todos. Mas só vai acontecer se investirmos na pessoa certa, Ivan fique vivo.
Megan como ela pediu para ser chamada, estava disposta a me ajudar, ficamos um tempo juntos. Até mesmo depois que me mudaram de local, ela sempre quis estar por perto e eu até que gostava de sua presença. Abri os olhos assim que os primeiros raios solares entram pelo ambiente, procurei pelo corpo pequeno de minha companheira sentindo apenas os lençóis, mas no meio deles havia uma peça íntima juntamente de um pequeno papel dobrado. Li o conteúdo que me fez abrir um sorriso ligeiramente espontâneo.
— Você é uma pequena encrenca. — Faltei sozinho sentindo meu peito preencher. m*l ele sabia que meus dias de felicidade estavam acompanhados por uma tragédia sem tamanho. Até hoje seus gritos desesperados invadem meus ouvidos, o conflito interno de sentimentos enquanto os homens do lado de fora da casa a espancaram e agrediram ela de forma sexualmente, me senti tão inútil que minha existência já não servia para mais nada.