01 GABRIELA
GABRIELA NARRANDO
Entro na casa que eu sempre amei morar e sinto aquele peso enorme cair sobre mim mais uma vez.
É engraçado como um lugar pode continuar exatamente igual e, ao mesmo tempo, ser completamente diferente.
As paredes continuam as mesmas. Os móveis continuam nos mesmos lugares. A escada continua ali. Mas nada aqui parece meu.
Às vezes tenho a sensação de que sou uma visita dentro da própria casa. Ou pior. Uma intrusa.
Passo pela sala e vejo meu tio Samuel sentado no sofá. Ele levanta os olhos do celular assim que percebe minha presença.
O olhar dele para em mim. Devagar demais. Como sempre. Mas hoje em dia é diferente.
Quando eu era mais nova, aquele olhar só me deixava desconfortável. Eu não entendia exatamente o motivo. Agora entendo. E isso me dá nojo.
Porque ele não olha para mim como um tio deveria olhar para uma sobrinha. Nunca olhou. Só que, conforme fui crescendo, ele parou de tentar esconder.
Meus dedos apertam as alças da mochila com mais força.
GABRIELA— Boa tarde, tio. _ falo a contragosto, porque, se eu não falo, as coisas ficam piores do que já estão.
SAMUEL— Por que chegou só agora? _ pergunta me olhando dos pés à cabeça.
Meu estômago revira. Estou usando uma calça jeans velha. Uma das poucas que ainda sobraram para mim.
Ela tem alguns rasgos. Não porque está na moda. Mas porque já está velha mesmo.
As roupas novas ficaram para Camila. As melhores ficaram para Camila. Quase tudo acaba ficando para Camila. Mas já chego nessa parte.
GABRIELA— Estava na escola e, de lá, fui ao mercado comprar o que a tia pediu. _ Ele continua me olhando por alguns segundos. Segundos longos demais. Desconfortáveis demais.
Então volta a olhar para o celular.
SAMUEL— Vai logo fazer o almoço. _ Nem respondo. Passo por ele o mais rápido que consigo e sigo para a cozinha.
Só quando atravesso a porta sinto que consigo respirar direito outra vez.
Meu corpo inteiro está quente. De raiva. De ódio. De revolta. Sentimentos que eu não conhecia três anos atrás.
Antes eu era feliz. Antes eu tinha minha mãe.
Coloco as compras sobre a mesa e começo a separar tudo para fazer o almoço.
Arroz. Feijão. Legumes. Carne. Os mesmos movimentos de sempre. Os mesmos que faço todos os dias. Mas meus olhos acabam parando no fogão. E meu peito aperta.
Porque durante dezesseis anos era a minha mãe quem ficava ali.
Era ela quem preparava o almoço. Era ela quem reclamava que eu roubava comida da panela. Era ela quem cantava enquanto cozinhava. Era ela quem fazia essa casa parecer viva.
Fecho os olhos por um segundo. Consigo até ouvir a voz dela dentro da minha cabeça.
Consigo lembrar do sorriso. Do jeito que ela me chamava de Gabi. Do beijo que ela deixava na minha testa quando eu passava correndo pela cozinha.
A saudade vem como uma facada. Forte. c***l. E completamente injusta.
Abro os olhos rápido antes que as lágrimas caiam. Mas elas já estão ali. Prontas para escapar.
A dor, mesmo depois de três anos, continua imensa. Talvez porque eu nunca tenha tido tempo para viver o luto. Talvez porque, no dia em que perdi minha mãe, eu tenha perdido muito mais do que ela.
Perdi minha casa. Perdi minha liberdade. Perdi minha paz. E, às vezes, acho que perdi uma parte de mim também.
Eu me chamo Gabriela. Tenho dezenove anos. Sou morena e tenho os cabelos cacheados, castanhos puxados para o mel. Ou pelo menos deveriam ser.
Desde os quatorze anos eu fazia morena iluminada. Então chegou em uma fase que ele estava mais loiro do que castanhos. Minha mãe adorava. Dizia que, quando o sol batia no meu cabelo, ele parecia ouro.
Ela gostava de mexer nos meus cachos. Gostava de dizer que eu tinha herdado a melhor parte dela.
Hoje em dia nem sei mais qual é a cor real deles. Faz tanto tempo que não faço nada por mim que às vezes nem me reconheço no espelho.
O brilho foi embora. O cuidado foi embora. A menina que gostava de se arrumar também foi. Hoje eu m*l tenho shampoo para usar.
Nasci e fui criada aqui no Rio de Janeiro. Moro em um bairro próximo ao Complexo do Alemão. E não. Eu não vivi m*l.
Muita gente olha para onde eu moro e já cria uma história na cabeça. Mas a verdade é que eu tive uma infância feliz.
Minha mãe trabalhava muito. Às vezes chegava cansada. Às vezes fazia hora extra. Mas eu nunca vi ela reclamar. Porque tudo o que ela fazia era por nós duas.
Eu tinha amor. Tinha carinho. Tinha segurança. Tinha alguém que me fazia sentir importante. E talvez seja por isso que a queda tenha sido tão grande.
Eu nunca conheci meu pai. Minha mãe não falava muito sobre ele e eu também nunca insistia. Porque ela sempre foi suficiente.
Nunca me deixou sentir falta de nada. Então eu cresci acreditando que não precisava de um pai.
Mas hoje... Hoje eu me pego pensando nisso. Será que minha vida seria diferente se ele estivesse aqui? Será que eu estaria passando por tudo isso? Será que alguém teria impedido o que fizeram com a minha vida?
Quando minha mãe morreu, eu só tinha minha tia Karol, irmã mais velha dela, como parente próxima o suficiente para assumir minha guarda. E isso foi o começo do meu inferno.
Eu e minha mãe nunca tivemos uma boa relação com ela. Na verdade, evitar Karol era uma das poucas coisas sobre as quais minha mãe era realmente firme.
Hoje eu entendo o motivo. Meu tio Samuel é nojento. Escroto. O pior homem que já conheci na vida. Daqueles que conseguem fazer você se sentir suja apenas com um olhar.
Minha prima Camila é folgada, metida, arrogante e s*******o. Mas, olhando para os pais dela, não tinha muito como ser diferente.
Já a minha tia vive em um mundo onde acredita ser melhor do que todo mundo. Age como se fosse rica. Como se fosse importante. Como se tivesse conquistado alguma coisa. Quando, na verdade, tudo o que ela tem veio da desgraça dos outros. Principalmente da minha.
AMORES, BOA NOITE. AQUI COMEÇAMOS UMA HISTÓRIA QUE PROMETE LAGRIMAS. RISOS. SUSPIROS. ÓDIO. RAIVA. DE TUDO UM POUCO.
COMENTEM MUITO A CADA CAPÍTULO E ELE FICARA GRÁTIS ATÉ O FIM DO MÊS.
LANÇAMENTO OFICIAL DIA 01/07, MAS ATÉ LA, TEREMOS DE