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A órfã que ninguém quis - Morro

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Blurb

Ayla passou a infância vendo outras crianças serem escolhidas enquanto ela permanecia esperando.

Quando finalmente foi adotada, acreditou que nunca mais precisaria sentir o medo de ser abandonada.

Estava errada.

Dez anos depois, às vésperas dos dezoito, ela foge da família perfeita que escondia sua pior realidade e acaba no lugar onde jamais imaginou procurar proteção: o Morro da Vigília.

Ali, Ayla volta a ser Luna.

E conhece Santo — perigoso, respeitado e estranhamente familiar.

O que ela ainda não sabe é que, antes de se tornar Santo, ele se chamava Caleb.

O menino que um dia prometeu voltar para buscá-la.

Mas Luna já esperou demais para ser escolhida.

Agora, entre segredos sobre sua origem, um passado que insiste em encontrá-la e sentimentos que nunca desapareceram por completo, ela precisará descobrir que talvez sua história nunca tenha sido sobre encontrar alguém que a quisesse.

Talvez sempre tenha sido sobre aprender a escolher a si mesma.

🌙 Vem conhecer uma história sobre feridas que não aparecem, laços construídos pelo afeto e a coragem de escolher a si mesma.📖 A Órfã que Ninguém Quis — Morro✍🏽 Carolina TorresInstagram: @carolinatorres.escritora

⚠️ AVISO ⚠️ Antes de iniciarmos preciso avisar que está é uma obra exclusiva de minha autoria, obra única escrita por mim desde o seu lançamento em 22 de setembro de 2026. A presente obra está em processo de registro junto à biblioteca nacional, logo, fica proibida a cópia total ou parcial, incluindo título e subtítulos conforme lei 9.620/98.

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1. Ayla / Luna
A primeira coisa que aprendi sobre despedidas foi que elas não faziam barulho. O portão do abrigo fechou devagar, sem bater. Mesmo assim, alguma coisa dentro de mim se partiu. Eu tinha sete anos. Do outro lado das grades, um casal ajeitava um bebê no banco traseiro de um carro branco. A mulher chorava enquanto prendia o cinto da cadeirinha. O homem ria, nervoso, segurando uma sacola cheia de fraldas e mamadeiras. A funcionária do abrigo acenava como se tivesse acabado de entregar ao mundo uma promessa cumprida. Todo mundo sorria. Menos eu. Atrás de mim, outras crianças acompanhavam a cena pelas janelas. Algumas encostavam o rosto no vidro. Outras fingiam que não estavam olhando. Quando uma família chegava, as cuidadoras penteavam nossos cabelos, procuravam roupas sem manchas e mandavam que respondêssemos apenas o que fosse perguntado. Era como uma apresentação na escola, só que o prêmio não era uma nota boa. Era ser escolhido. Naquela manhã, colocaram um laço no meu cabelo. Soube que não era para mim quando o casal pediu para conhecer o berçário. Guardei o laço no bolso mesmo assim. O bebê tinha chegado havia poucos meses. Era pequeno, de pele clara e com fios lisos grudados na testa. Chorava de madrugada e recebia colo antes que as lágrimas secassem. Talvez porque ainda coubesse nos braços e nos sonhos de alguém. Eu já tinha aprendido a não pedir. Na semana anterior, ouvi duas funcionárias conversando perto da lavanderia. Elas não sabiam que eu estava atrás da porta procurando uma meia perdida. — O perfil continua o mesmo — disse uma delas. — Bebê, se possível menina, pele clara, cabelo liso, sem irmãos e sem nenhum problema de saúde. — E as maiores ficam esperando. — Infelizmente. Eu não sabia o que perfil significava. Imaginei uma lista com nomes marcados e espaços vazios. Passei o dia pensando se o meu estava nela. Depois fui ao banheiro e me olhei no espelho manchado. Minha pele não era clara como a do bebê. Meus cachos cresciam para todos os lados. Eu já tinha sete anos, amarrava o próprio cadarço e carregava lembranças que não queria ter. Tentei molhar o cabelo na pia. Puxei os fios com os dedos até ficarem esticados e colei cada mecha ao lado do rosto. Por alguns segundos, achei que poderia enganar alguém. Quando soltei, os cachos voltaram ao lugar. Chorei de raiva deles. Também prometi que nunca ficaria doente. Não tossiria diante das visitas nem contaria sobre os pesadelos ou sobre acordar procurando uma mãe cujo rosto eu não lembrava. Se algum adulto perguntasse, eu seria saudável. Eu seria obediente. Eu seria fácil de amar. Uma criança não entende que o preconceito pertence aos adultos. Por isso, veste a culpa e procura defeitos na própria pele, no cabelo e no corpo. Acredita que, se diminuir o que é, caberá no desejo de alguém. Fiquei diante do portão até o carro desaparecer. Depois, atravessei o corredor com cheiro de água sanitária e entrei no quarto sem olhar para ninguém. Debaixo da minha cama havia uma mala vermelha, com uma das rodinhas quebrada. Não era minha de verdade. Nada ali era de verdade de ninguém. As roupas vinham de doações, os brinquedos eram divididos e até os aniversários aconteciam juntos quando faltava dinheiro para dois bolos. Mesmo assim, eu chamava aquela mala de minha. Às vezes, dobrava as duas mudas de roupa de que mais gostava e colocava dentro dela. Um vestido amarelo, uma blusa com uma flor descosturada e um chinelo azul, maior que meu pé. Arrumava tudo como se uma família pudesse aparecer de repente e dizer que estava atrasada. Que tinha demorado porque não sabia onde me procurar. Que havia passado todos aqueles anos sentindo a minha falta sem nem conhecer o meu rosto. Na minha imaginação, a mulher se ajoelhava para ficar da minha altura. Não perguntava se eu sabia me comportar nem mexia no meu cabelo para conferir se era macio. Apenas abria os braços e dizia: “Desculpa ter demorado, filha. Agora você vai para casa.” Eu tinha inventado até o cheiro dela. Sabonete e bolo de laranja. Naquele dia, tirei tudo da mala. O vestido. A blusa. O chinelo. Também tirei o laço do bolso e deixei no fundo. Depois fechei a tampa sobre ele. Se eu não esperasse, talvez doesse menos. Carreguei a mala vazia até o pátio dos fundos e me sentei perto do muro. O sol já tinha ido embora. A noite se espalhava pelo chão, entrando pelos cantos e apagando as cores. Apoiei o queixo nos joelhos e tentei não chorar. — Vai fugir com a mala vazia? Levantei a cabeça. Caleb estava encostado na parede, os braços cruzados sobre a camiseta larga. Era mais velho e falava pouco. Tinha um corte na sobrancelha e desconfiava do mundo. — Não vou fugir. — Então por que trouxe a mala? — Porque ela é minha. Ele olhou para a rodinha quebrada. — Bonita. — Está debochando? — Um pouco. Virei o rosto. Caleb se sentou ao meu lado. Não tentou me abraçar nem perguntou por que meus olhos ardiam. Talvez por isso eu não o mandasse embora. Lá dentro, chamaram as crianças para o jantar. Pratos começaram a bater, chinelos arrastaram pelo corredor e uma cuidadora gritou que ninguém ganharia sobremesa se demorasse. Eu continuei imóvel. — Levaram o bebê — falei. — Eu vi. — Todo mundo vai embora. — Nem todo mundo. — Os pequenos vão. Ele demorou antes de responder. — Os grandes também podem ir. — Quem vai querer uma criança grande? — Alguém que não seja burro. Olhei para ele, surpresa. — E quem vai querer uma menina com a minha cor e este cabelo? Caleb franziu a testa. — O que tem seu cabelo? — Ele não fica liso. — Ainda bem. — Ainda bem por quê? — Porque cabelo liso não brilha desse jeito. Uma nuvem saiu da frente da lua. A claridade caiu sobre o pátio e tocou meus cachos. Caleb inclinou a cabeça, prestando atenção em alguma coisa que eu não conseguia enxergar. — Parece que tem ouro nele. Passei a mão depressa pelos fios. — Não tem nada. — Tem luz. — Meu nome é Ayla. — Eu sei. — Então para de inventar. Ele deu de ombros. — Ayla é nome de quando chamam você para levar bronca. Luna combina mais. — Por quê? Caleb apontou para o céu. — Porque só dá para ver essa luz quando a lua bate. Olhei para cima. A lua parecia enorme, presa entre os fios elétricos e o muro alto. Pela primeira vez naquele dia, pensei que talvez alguma coisa em mim pudesse ser bonita sem precisar mudar. — Luna — repeti baixinho. — Ficou melhor. — Só você pode me chamar assim. Ele estendeu a mão, sério como se estivéssemos fechando um acordo importante. — Fechado. Segurei a mão dele. — E se você for embora? Os olhos de Caleb mudaram. Foi rápido, mas eu vi. Medo reconhece medo, mesmo quando ninguém dá nome. — Eu volto. — Todo mundo fala isso. — Eu não sou todo mundo. — Promete? Uma cuidadora apareceu ao longe e chamou o nome dele. Foi quando reparei que Caleb usava o tênis reservado para os dias em que alguém importante visitava o abrigo. — Veio uma família ver você? — Só conversar. — Se eu for, encontro um jeito de voltar — garantiu Caleb. Quis perguntar como. Crianças não tinham dinheiro, telefone nem endereço. Iam para onde os adultos decidiam e, às vezes, desapareciam sem tempo para dizer adeus. Mas não falei nada. Se obrigasse Caleb a explicar, talvez a promessa quebrasse antes mesmo de ele partir. — Ayla! A voz atravessou o pátio e o tempo. — Ayla, o café não vai se servir sozinho! Abri os olhos. A lua tinha desaparecido. O muro áspero virou uma parede clara. O cheiro de água sanitária foi substituído pelo perfume caro do aromatizador da cozinha. Não havia mala vermelha aos meus pés. Nem Caleb sentado ao meu lado. Havia uma bandeja de prata nas minhas mãos. Dez anos tinham passado, mas a sensação de estar esperando diante de um portão continuava presa dentro de mim. — Já estou indo — respondi. Minha voz saiu controlada. Era assim que precisava ser naquela casa: baixa, educada e grata. Sempre grata. Arrumei as xícaras sobre a bandeja. Café sem açúcar para Otávio. Chá claro para Lavínia. Leite morno para o menino que carregava o sobrenome deles no sangue. No meu pulso, uma marca arroxeada escapava da manga. Puxei o tecido para baixo. — Ayla! — Lavínia chamou novamente. — Não me faça repetir. Respirei fundo e ergui a bandeja. Faltavam dois meses para eu completar dezoito anos. E, naquela manhã, enquanto atravessava o corredor impecável da família Ferraz, eu ainda não sabia que a mala vermelha continuava guardada no fundo do meu armário. Esperando por mim.

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