Capítulo 1: Casamento Acorrentado
Cincinat
A igreja estava vazia e fria, embora fosse verão. O documento estava sobre a mesa enfeitada com flores miúdas, e o padre aguardava pacientemente para me assistir cometer um pecado imperdoável.
Aquele casamento não me pertencia. O vestido elegante que eu estava usando também não era meu, assim como o próprio noivo.
Lucca Prado também não era o meu marido.
Mas, assim como a minha mãe, eu era uma alma condenada.
Fui condenada no dia em que ela se envolveu com um homem casado.
Nasci do pecado, e agora cometeria o mesmo erro que ela, ocupar um lugar que não me pertencia.
O desespero me atingiu quando vi um homem sendo levado por dois seguranças até o altar. Correntes grossas passavam pelo seu corpo.
Ele era muito maior pessoalmente. A cabeça estava tombada para baixo, o cabelo comprido caía sobre o rosto, tornando-o ainda mais sombrio.
Olhei para o padre, como quem suplica por misericórdia, mas ele sequer vacilou. Pensei em rezar, mas desisti... ninguém nunca me escutou.
A cerimônia foi breve.
— Sr. Lucca Prado, aceita a Srta. Coryne Bellarosa como sua legítima esposa?
Tive a impressão de que ele levantou o rosto brevemente, e vi um sorriso perverso passar por seu semblante.
Ou foi uma fantasia da minha cabeça?
— Sim. — A voz grossa saiu desordenada.
Ele parecia estar dopado, mesmo assim a aura de poder que pairava sobre ele era assustadora. Quão perigoso um homem precisa ser, para ter que ser contido por remédios e correntes de aço?
— Srta. Coryne Bellarosa, aceita o Sr. Lucca Prado como seu legítimo marido?
A pergunta reverberou na minha mente.
Eu não sou ela. Eu não sou ela. Eu não sou ela.
Se me passar pela minha meia-irmã no casamento dela, era o meu pecado. Lucca Prado, seria a minha penitência.
— Srta. Coryne? — o padre repetiu a pergunta.
Olhei para o homem diante de mim, sendo mantido de pé apenas porque dois homens o amparavam, e pensei comigo, até que ponto uma alma pode ser corrompida?
A minha madrasta estava certa. Era apenas uma assinatura em um papel.
Um casamento de fachada com um bilionário.
Eu viveria uma vida confortável e jamais seria perturbada por ele.
Dei um pequeno sorriso para o padre, feliz por ter um sacerdote como cúmplice do meu pecado, e respondi:
— Sim.
— Assine aqui. — Ele apontou para o “x” na folha e, apesar de ter treinado a assinatura de Coryne por dias, não tive tamanha ousadia.
Coloquei apenas um “C” seguido pelo meu sobrenome. Afinal, eu também era uma Bellarosa.
Cincinat Bellarosa.
Agora, a esposa substituta.
Ninguém fez questão de testemunhar o que aconteceu ali. Nem a minha madrasta, que articulou toda a situação, e me obrigou a entrar na igreja no lugar de Coryne, nem a família do noivo. Nenhum familiar apareceu.
Afinal, tínhamos algo em comum, ambos éramos rejeitados.
— Pode beijar a noiva.
O quê?! Isso não fazia parte do acordo, eu apenas assinaria o papel. Minha mente gritava.
Lucca levantou o rosto e murmurou algo para um dos seguranças. O homem imediatamente o soltou e abriu o cadeado da corrente que o prendia. O objeto caiu com um baque seco no piso sagrado.
Recuei um passo, mas senti a mão fria e calosa segurar o meu pulso.
A mão dele era firme, os nós dos dedos estavam machucados, e me recordei da fama de agressivo que ele tinha, motivo que o levou à cadeia diversas vezes.
Meu corpo estremeceu de medo e, mesmo tentando me controlar, meus olhos se encheram de lágrimas.
De forma inesperada, senti o seu polegar fazer um leve carinho no dorso da minha mão. Ele deu um passo na minha direção, e eu fechei os olhos com força, deixando as lágrimas que já estavam na borda caírem.
Senti o toque frio dos seus lábios na minha testa e o sussurrar do nome de outra mulher.
— Coryne...
— Eu os declaro marido e mulher! — o padre finalizou.
Lucca saiu na frente, os passos ainda vacilantes e os seguranças o escoltando. Quando ele já estava na porta, eu finalmente consegui me mover em direção à saída.
Assim que cheguei do lado de fora da igreja, havia muito mais seguranças. Um deles me conduziu até um carro de luxo.
— O Sr. Lucca irá em outro carro, mas fique tranquila. Sua segurança é a nossa prioridade.
Eu assenti com a cabeça.
A viagem foi longa, e eu estava exausta e atormentada.
Quando o carro finalmente parou, fiquei impressionada com a construção, e entendi porque chamavam o lugar de "castelo". Lembrava um castelo gótico, bonito e sombrio, exatamente como o seu dono.
Desci do carro, e logo uma moça jovem veio em minha direção. Ela era muito bonita, com longos cabelos loiros e um par de olhos azuis hipnotizantes.
— As suas malas já estão no seu quarto! — ela me informou animada.
— Poderia me mostrar onde é? Estou exausta... preciso descansar.
— Sim, senhora. — A loira me guiava por uma escadaria rústica, tagarelando enquanto andava. — Gostaria de algo especial para o jantar, Sra. Coryne?
— Não vou jantar! — respondi, ríspida.
Ouvir o nome de Coryne era como um ta-pa na cara.
Quão fundo um ser humano pode ir?
Eu tentava me justificar, dizendo que havia um motivo muito forte para ter aceitado trocar de lugar com a minha irmã.
Mas confesso que quando vi a foto de Lucca Prado, minha mente e principalmente o meu corpo foi despertado por ele.
Errado. Proibido. E agora... desejado.
Tirei o vestido de noiva e fui para o banho. Esfreguei o corpo até sentir a pele sensível, e uma ardência se espalhar pela superfície.
Busquei uma camisola simples na minha mala, mas Coryne e a mãe fizeram questão de renovar todo o meu guarda-roupa.
As minhas roupas simplórias não combinavam com a verdadeira Coryne.
Optei por uma camisola de cetim preta e finalmente deixei meu corpo exausto cair na cama macia.
Era tarde da noite quando ouvi alguém mexendo na maçaneta, mas eu havia trancado a porta. Prendi a respiração e fiquei imóvel na cama, apavorada.
A porta se abriu. Não precisei abrir os olhos para saber que era ele. Lucca.
Senti quando ele afastou a coberta e se deitou ao meu lado.
Sua mão escorregou para a minha cintura e me puxou contra o seu corpo forte.
Um choque percorreu o meu íntimo quando senti sua ere-ção atrás de mim.
— Nós vamos ter um bebê, meu anjo...