Alina
Acordei com três chamadas perdidas e gemi. Minha cabeça latejava, meus pés estavam doloridos da noite longa, e eu ainda podia sentir o gosto dele nos meus lábios.
Ainda podia sentir seus dedos entre minhas pernas.
Levantei e tomei um banho. Não sabia o que diabos estava pensando. Enquanto limpava meu rosto, meu telefone vibrou — outro número desconhecido. Deixei cair na caixa postal.
Crescer na família Petrov me ensinou muitas coisas. Primeiro: nunca atenda imediatamente; sempre filtre suas ligações. Segundo: policiais nunca vão admitir que são policiais, mas são os primeiros a tentar te pressionar a fazer algo ilegal. Terceiro: família é a coisa mais importante do mundo... exceto quando não é.
E, acima de tudo, aprendi que a violência está presente em tudo o que fazemos, desde o momento em que acordamos até a hora de dormir. Um dia sem ser morta é um dia muito bom.
Ontem à noite, eu m*l sobrevivi.
Mas o toque dele me deixou diferente — como se uma fome desconhecida estivesse alojada no meu estômago, roendo os ossos.
Eu me sentia doente, estranha e aterrorizada.
Saí do chuveiro, me sequei e arrumei meu cabelo e maquiagem o mais rápido que pude.
Eu não planejei beijá-lo. O observei algumas vezes enquanto trabalhava e pensei que ele era bonito — alto, cabelos castanhos, olhos de um azul claro, mandíbula bem definida, com um ar desleixado, muitos músculos e várias tatuagens. Ele se destacava... e, ao mesmo tempo, parecia tentar não chamar atenção, de uma forma que era quase desconcertante.
Então, o vi novamente no bar da cidade e pensei que ele poderia estar me seguindo. Testei ele com a bebida e tudo mais, depois fui para casa.
Mas quando ele apareceu com meu telefone, eu soube que algo estava errado. Só não tinha ideia de quão errado.
Minha família joga jogos. Você não pode crescer na família Petrov sem se acostumar com o perigo. Só que eu nunca imaginei que o jogo iria tão fundo dessa vez.
Outro telefonema. Pulei quando o celular começou a vibrar na tampa do vaso sanitário.
— Cale a boca — murmurei. — Eu já estou indo.
Deixei cair na caixa postal novamente.
Alguém queria que eu fosse embora. Isso não era exatamente novidade — meu pai é o segundo homem mais importante da Família Petrov do Crime, afinal, e eu nasci nesse mundo horrível. Mas nunca tinha sido diretamente comigo antes.
Eu já perdi primos, amigos, tias e tios. E agora, parecia que meu carma havia chegado.
Só que ele não fez isso. Porque eu o beijei.
Era insano, mas havia algo nos olhos dele. Ele não queria fazer aquilo. Ele poderia ter acabado comigo a qualquer segundo, mas hesitou. Minha vida estava nas mãos dele, meu destino sob seus dedos, e mesmo assim, ele não apertou o gatilho.
Foi então que fiz meu movimento. Desesperado, louco...
E, meu Deus, funcionou.
Eu ainda estava viva. E, como se não bastasse, ele me deu o melhor orgasmo da minha vida.
Achei que seria rápido. Eu o beijaria, talvez mordesse sua língua ou lábio, depois daria uma joelhada nas bolas e sairia correndo.
Foi o que pensei, até que provei seus beijos, senti suas mãos no meu corpo, seus dedos entre minhas pernas — e meus planos mudaram drasticamente.
Eu queria machucá-lo, escapar e nunca mais olhar para trás.
Mas, em vez disso, eu gozei ali mesmo, na rua.
Deus, o que estava errado comigo? Eu estava completamente perturbada.
Meu telefone começou a vibrar novamente.
— Cale. A. Boca.
Enviei a ligação para a caixa postal e entrei no meu quarto. Vesti-me rapidamente, calcei meu par de pantufas surradas, enfiei o telefone na bolsa e atravessei meu apartamento bagunçado. Roupas estavam espalhadas pelo sofá, garrafas de vinho vazias e copos meio cheios ocupavam a mesa de centro, pratos acumulavam-se na pia, recibos e lixo se acumulavam no balcão acima da lata de lixo, e mais roupas estavam jogadas no chão perto da porta da frente.
Apressei-me para sair.
Chamei um táxi. O motorista resmungou algo enquanto eu entrava no carro e acelerava para longe.
Olhei pela janela e fechei os olhos com força. O táxi tinha um cheiro forte de cigarro misturado com comida chinesa para viagem.
Nikolay. Um nome que soava irlandês, mas ele definitivamente não era irlandês, e muito menos meu parente. Cruzei as pernas, tentando afastar o pensamento daquele orgasmo, mas falhei miseravelmente. Eu ainda estava molhada e frustrada comigo mesma.
Não podia me dar ao luxo de me distrair, não agora. Não com a vida do meu irmão em jogo.
O táxi parou. Paguei em dinheiro e corri para o parque. Era bonito, com caminhos largos de pedras lisas, árvores altas que projetavam sombras, pessoas sentadas em cobertores na grama e cachorros sendo passeados em pares. Contornei a fonte ampla e segui em direção a um grupo de bancos.
Um homem solitário estava sentado no banco mais afastado, olhando para o telefone. Diminuí o passo à medida que me aproximava. Ele ergueu os olhos, semicerrando-os.
— Você está atrasada. Eu estava ligando.
— Eu sei. Sinto muito.
Hesitei, mordendo o lábio. Podia jurar que ainda sentia a língua de Nikolay na minha boca.
— Posso me sentar?
Renzo grunhiu e gesticulou para que eu me sentasse. Ele tinha quase trinta anos, provavelmente uns cinco a mais que eu, e trabalhava para a família criminosa Leone — ou, pelo menos, para o que restava dela. Seu Don se chamava Park, mas eles estavam no meio de uma guerra violenta, com duas facções rivais brigando nas ruas. Era sangrento e feio, e minha família queria distância daquela bagunça.
E, no entanto, lá estava eu, bem no meio dela.
— O que você tem para mim?
Renzo olhou para o telefone enquanto digitava. Vestia calças escuras e uma camisa social branca com as mangas enroladas até os cotovelos.
— Falei para Tully e Vadim que isso só duraria esta noite, mas… — Ele parou e me encarou, os olhos escurecendo. — Não me diga que vai inventar uma desculpa esfarrapada.
— Eu ia — confessei, sentindo um desespero subir pela garganta, o mesmo que senti ontem à noite, quando beijei Nikolay. Só que, desta vez, o desespero era puro medo, sem desejo algum misturado.
— Não é o suficiente.
As palavras dele me atingiram como uma facada.
— Eu não faço parte do negócio. Quando faço perguntas, isso levanta suspeitas. Ontem à noite eles ficaram irritados. Eu pressionei o máximo que pude, mas eles não disseram nada.
Renzo suspirou, impaciente.
— Que pena. Acho que vou ter que dar a má notícia ao seu irmão.
— Espere — interrompi rapidamente. — Me dê mais tempo.
— Quanto tempo você acha que seu irmão tem?
Ele digitava algo no telefone enquanto falava, sem nem me encarar.
— Seus primos têm uma remessa chegando em uma semana. Quero saber para onde ela vai. Descubra para mim, e eu não corto a mão do seu irmão. Continue falhando, e ele vai voltar para você dentro de cem caixinhas minúsculas.
Um nó se formou na minha garganta. Senti como se fosse vomitar e precisei segurar as laterais do banco para não desabar.
Tudo começou duas semanas atrás. Eu estava no trabalho, mantendo minha rotina de sempre — distância da família, sobrevivendo nesse mundo de merda — quando Renzo se aproximou de mim. No início, não entendi o que estava acontecendo.
Até que ele me mostrou uma foto.
Aiden estava amarrado em um porão, com os olhos roxos e sangue escorrendo pela boca.
Imediatamente, me lembrei do meu pai chutando a porta do quarto de Aiden quando éramos crianças. Lembrei do som de um cinto batendo em sua pele.
Renzo disse que ninguém sabia que eles estavam com Aiden. Todos achavam que ele estava morto.
E ele estava certo. Quando cheguei em casa, meu pai deu a notícia: Aiden morreu em um tiroteio.
Mas não era verdade.
Renzo me fez jurar que, se eu contasse a alguém, ele acabaria com meu irmãozinho.
Tudo o que eu precisava fazer era trazer informações para ele. Espionar minha própria família para Renzo e, eventualmente, ele mandaria Aiden para casa.
Naquela noite, ele me deixou falar com meu irmão pelo telefone. Aiden implorou para que eu não cedesse, para que não fizesse o que eles pediam — mas, é claro, eu concordei. Aiden tinha apenas dezoito anos. Eu não podia deixá-lo apodrecer e morrer no porão de uma casa escura.
Não quando eu devia minha vida ao meu irmão. Não quando eu já havia falhado com ele tantas vezes. Todas as noites em que meu pai ficava bêbado e invadia o quarto de Aiden com aquele cinto grosso de couro, manchado com marcas vermelho-escuras de tanto ser usado, eu ficava paralisada.
Depois que tudo passava, eu me sentava com Aiden, limpava as feridas abertas com algodão e álcool. Ele estremecia, enxugava as lágrimas e tentava fazer piadas, enquanto eu sorria e ria delas. Mas, por dentro, eu me odiava.
Porque eu nunca tentei impedir. Eu nunca disse uma palavra.
Eu me escondia no meu armário, chorando, enquanto meu irmão mais novo apanhava. Os anos passaram, e Aiden endureceu. Todo aquele sofrimento se transformou em cicatrizes profundas em suas costas. Eu nunca me perdoei.
Agora, Renzo me controlava porque sabia que eu faria qualquer coisa para tentar corrigir o passado. É por isso que eu tinha que descobrir sobre o carregamento de drogas.
— Me deixe tentar falar com ele — pedi suavemente, implorando.
Renzo bufou, sem sequer levantar os olhos para mim.
— Por que eu faria isso? Você fracassou, Alina. Não se ganha recompensas por falhar.
— Por favor, eu só quero ouvir a voz dele, ter certeza de que ele está vivo.
Renzo parou de digitar e suspirou. Ele discou um número e o segurou no ouvido, olhando diretamente para mim.
— Sim, sou eu. Pegue o garoto e coloque-o na linha.
Enquanto esperávamos, meu coração batia tão rápido que parecia querer sair do peito. Um casal de idosos passou com dois cachorros pequenos, latindo e puxando as coleiras. Um deles rosnou e tentou morder meu tornozelo, mas eu me afastei rapidamente.
Renzo estendeu o telefone. Quando tentei pegá-lo, ele balançou a cabeça. Em vez disso, colocou o telefone perto do meu ouvido.
— Aiden? Aiden, sou eu, Alina. Me diga que você está bem.
— Ali, não os ajude. — Era ele, definitivamente ele, mas sua voz soava distante e fraca. — Não faça isso, Ali. Eu estou bem, eu estou...
Antes que ele pudesse terminar, Renzo desligou o telefone e guardou no bolso. Ele suspirou e esfregou as têmporas, enquanto eu abraçava meu próprio corpo, lutando para não desabar.
— Descubra onde a remessa vai estar ou eu corto a mão direita dele e enfio na sua caixa de correio. — Ele se levantou e olhou para mim com desprezo. — E não se atrase para outro encontro de novo.
Ele foi embora, me deixando sozinha no parque.
Esperei até que ele desaparecesse para enterrar o rosto nas mãos e finalmente chorar.
Deus, que bagunça. Eu estava chorando sozinha em um banco de um parque público. Me permiti desmoronar por dez segundos antes de me forçar a recuperar o controle.
Eu era boa em controlar minhas emoções. Tinha que ser, vivendo na família Petrov.
Eu não podia me dar ao luxo de um colapso, não com a vida de Aiden em jogo. Limpei meu rosto com as mãos, borrando meu delineador no processo, e me levantei para ir embora. Um homem de terno com um laptop ao lado franziu a testa para mim e pareceu querer dizer algo, mas meu olhar provavelmente o assustou.
Ultimamente, eu assustava muita gente. Menos Nikolay.
Comecei a caminhar de volta para a rua.
Quem me queria morta?
Não podiam ser os Leones — eles ainda queriam me usar para conseguir informações. Talvez fosse minha própria família, mas eu duvidava que eles soubessem que eu era uma espiã traidora. Pelo menos, ainda não. Eles acabariam descobrindo se eu não tomasse cuidado, e minha família não perdoava inimigos, nem mesmo os da família.
Então só restava a família Starkov, a última grande família do crime. Mas por que os russos, em particular, iriam querer me matar? Entre tantas pessoas, por que eu?
A menos que eles soubessem que os Leones estavam me manipulando.
Fazia sentido. Nikolay tinha um jeito vagamente europeu.
Parei ao lado da cerca preta que cercava o parque e continuei andando pela rua. Foi quando meu coração deu um salto.
Lá estava ele, encostado em uma vitrine entre duas ruas, me observando.
Seus braços estavam cruzados sobre o peito, e aquele sorriso lindo e enlouquecedor estava estampado em seus lábios. Ele assentiu para mim, então se virou e começou a se afastar.
Corri atrás dele.
Ele desapareceu na esquina, e eu saí correndo pelo trânsito.
— Ei, Nikolay! — gritei, ignorando um louco que quase me atropelou com a van.
Cheguei à esquina e virei, esperando vê-lo à frente.
Mas não havia nada.
Procurei por ele nas vitrines das lojas, mas não havia sinal de Nikolay. Ele havia sumido.
Se é que era ele mesmo.
Eu estava enlouquecendo. Um assassino de aluguel foi enviado para me matar, e tudo o que eu conseguia pensar eram os lábios dele contra os meus, sua mão entre as minhas pernas — enquanto meu irmão estava morrendo em algum porão porque eu não conseguia arrancar informações dos meus primos idiotas.
Encostei-me em um semáforo e respirei fundo.
Aiden não merecia isso. Ele acreditava na família, como todos nós. Mas ele ainda era apenas uma criança. Ele só queria orgulhar nosso pai. E eu...
Eu nunca quis nada disso.
Aiden não merecia ter o corpo mutilado por algum mafioso italiano i****a.
Eu não podia me dar ao luxo de ser assassinada. Não podia deixar Aiden acabar morto.
Era por isso que eu nunca deixaria a Filadélfia. No momento em que tentasse fugir, os Leones jogariam o corpo do meu irmão no rio.
Eu estava presa.
E Nikolay ainda estava na minha cola.