Os flashes pareciam lâminas de luz cortando o ar da manhã. Em frente aos portões da mansão Azevedo, dezenas de repórteres disputavam centímetros de calçada, microfones erguidos como lanças. O carro preto parou devagar, o motorista desceu e abriu a porta de trás. Primeiro surgiu Miguel, terno escuro, gravata fosca, rosto indecifrável. Em seguida, Isabela: vestido preto simples, óculos grandes, a mão apoiada delicadamente no antebraço dele. — “Senhor Miguel, como ela está?” “Foi espontâneo?” “A família pretende se manifestar?” — perguntas choveram como granizo. Miguel não respondeu. Apertou o maxilar, sentiu o cheiro de perfume caro misturado ao ferro frio do portão. A “perda” precisava parecer real. Isabela inclinou a cabeça para a frente, gesto estudado de fragilidade. Um assessor, previ

