Capítulo 4 — O Dia em que o Café Virou Manchete

623 Words
Ana Clara chegou cedo à cafeteria naquela manhã, como sempre. O barulho das xícaras se chocando, o aroma forte do café sendo moído, o tilintar suave da campainha quando a porta abria — tudo fazia parte da sua rotina. Mas, naquele dia, havia algo diferente no ar. Algo desconfortável. E ela descobriu o que era antes mesmo de colocar o avental. Duas colegas estavam no canto, cochichando em cima do celular. Quando Ana se aproximou, fingiram que falavam sobre outra coisa, mas não foi rápido o suficiente. Na tela, ela viu. Uma foto sua. Borrada, mas inconfundível. De avental, no balcão, servindo um homem de terno. A legenda estampada no perfil de fofoca dizia: “Misteriosa garçonete conquista a atenção do herdeiro Miguel Castro. Quem é a mulher que pode abalar um noivado bilionário?” Ana sentiu o estômago afundar. A matéria estava em todos os perfis de fofoca — de economia aos de celebridades. Em alguns, seu rosto aparecia mais nítido, recortado de imagens antigas que provavelmente haviam sido tiradas no próprio café. O nome dela, não. Ainda não. Mas era questão de tempo. O movimento da manhã foi atípico. Clientes que nunca tinham aparecido antes surgiam, pediam um café e ficavam observando, como se esperassem algo acontecer. Outros, mais ousados, tentavam puxar conversa. — Então… é verdade? — perguntou um homem de meia-idade, apoiado no balcão com um sorriso curioso. — É verdade que quer um café? — Ana respondeu, mantendo a calma, mas por dentro o coração estava acelerado. Ela estava terminando de atender uma cliente quando a porta se abriu. E, por um instante, todo o barulho do lugar pareceu sumir. Miguel. Terno escuro, expressão firme, olhar direto. Havia algo na presença dele que fazia o espaço se reorganizar ao redor. Algumas pessoas sussurraram, outras tentaram disfarçar e fotografar. Ele não se importou. — Precisamos conversar — disse, baixo, mas com a intensidade de quem não está pedindo. Ana cruzou os braços. — Aqui não é um bom lugar. — Então escolha um — ele retrucou. Antes que pudesse responder, um flash disparou próximo demais. Miguel virou-se na direção da mesa de onde viera o clique. — Apague agora — disse, num tom tão frio que fez o rapaz recuar imediatamente. O clima no café mudou. O silêncio pairou por alguns segundos, até que o som da máquina de café voltou a preencher o ar. Ana percebeu que ele não estava ali para se esconder. Ele estava ali para protegê-la. — Você não devia ter vindo — ela disse, depois que ele se aproximou de novo. — E você não devia estar sozinha nisso — ele respondeu. — As coisas vão ficar piores antes de melhorar. Ela respirou fundo. — É exatamente por isso que é melhor que não nos vejam juntos. — E se eu não me importar? — Miguel perguntou, e havia algo no tom dele que fazia a pergunta soar como uma declaração. Ana desviou o olhar. — Então você não entende o que está em jogo para mim. Ele quis dizer que entendia, que também estava arriscando tudo, mas sabia que não era o momento. Em vez disso, deixou um cartão sobre o balcão. — Quando achar que não dá mais pra aguentar sozinha… me ligue. Miguel se virou e foi embora, ignorando as câmeras disfarçadas e os celulares que se erguiam para tentar capturar mais uma imagem. Ana ficou olhando o cartão por alguns segundos, sentindo o peso invisível que ele carregava. Do lado de fora, Miguel entrou no carro. O celular vibrou. Mensagem de Helena: Você acabou de confirmar todas as manchetes. Prepare-se. Ele fechou os olhos, inspirou fundo e respondeu com apenas uma frase: Então é bom que as manchetes sejam verdadeiras.
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