Capítulo 5 — A Noite que Não Devia Acontecer

586 Words
Ana ainda sentia o peso do dia nas costas quando fechou a porta do apartamento. O celular vibrava sem parar, notificações que ela não queria ler. Os boatos tinham tomado conta das redes e, por mais que tentasse ignorar, sabia que não podia controlar a tempestade que se aproximava. O toque na porta foi baixo, quase hesitante. Quando abriu, Miguel estava ali. Terno amassado, gravata afrouxada, olhar intenso. — Precisamos conversar — disse, sem preâmbulos. — Não é uma boa ideia — ela respondeu, mas não conseguiu fechar a porta. — Então me diga que não quer me ver — ele provocou, a voz grave e baixa. Ana hesitou. Quis dizer, mas não conseguiu. Ele deu um passo à frente, e ela não recuou. — Vem comigo — pediu. Não era uma pergunta. O carro parou diante de uma casa afastada, no alto de um morro. O lugar era cercado por árvores, iluminado apenas pela luz suave da varanda. Ao entrar, Ana percebeu o silêncio — nenhum som de cidade, nenhum eco de câmeras ou sussurros de curiosos. — É seguro aqui — disse Miguel. — Meu pai comprou essa casa anos atrás. Ninguém sabe que eu venho. Ela caminhou até a varanda, olhando a cidade de longe, como se estivesse observando outro mundo. — É bonito. Parece… outro tempo. — É isso que eu queria pra hoje — ele disse, aproximando-se. — Um tempo só nosso. Ficaram alguns segundos em silêncio, até que Ana suspirou. — Miguel… isso é perigoso. — Já não importa — ele respondeu, tocando de leve a mão dela. — Eu não quero mais viver só pra ser o que esperam de mim. Ana olhou para ele. Havia sinceridade ali. E algo mais… algo que fazia seu coração disparar. — E se tudo desmoronar? — ela perguntou. — Então vamos cair juntos. A resposta veio acompanhada de um toque no rosto, suave, como se ele pedisse permissão para ir além. Ela não disse “sim” nem “não”, mas fechou os olhos — e isso bastou. O primeiro beijo foi contido, como se ambos testassem o terreno. Mas logo se tornou mais urgente, como se todo o tempo em que se seguraram desabasse de uma vez. As mãos dele envolveram seu rosto, enquanto ela se prendia ao calor dele como quem finalmente encontra abrigo. — Eu pensei em você o dia todo — ele confessou entre um beijo e outro. — E eu tentei não pensar em você… e falhei — ela admitiu. Foram se movendo pela casa, guiados mais pelo que sentiam do que pelo espaço ao redor. A sala, o corredor, o quarto — cada passo parecia inevitável. As luzes ficaram para trás, substituídas pela penumbra suave que deixava apenas o suficiente para ver os olhos um do outro. O mundo lá fora deixou de existir. Quando o amanhecer começou a tingir o céu, Ana estava deitada com a cabeça no ombro dele, sentindo a respiração calma de Miguel. Nenhum deles falou sobre o que viria depois. Era cedo demais para promessas, mas tarde demais para negar o que tinham feito. Ele segurou a mão dela, entrelaçando os dedos. — Não vou deixar que te machuquem — disse, firme. Ana sorriu de leve, sem abrir os olhos. — Então já estamos no mesmo perigo. Do lado de fora, o sol nascia sobre a cidade que, em poucas horas, voltaria a cobrar deles explicações. Mas, ali, naquele momento, eram só Miguel e Ana. E isso era tudo.
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