Ana ainda sentia o peso do dia nas costas quando fechou a porta do apartamento. O celular vibrava sem parar, notificações que ela não queria ler. Os boatos tinham tomado conta das redes e, por mais que tentasse ignorar, sabia que não podia controlar a tempestade que se aproximava.
O toque na porta foi baixo, quase hesitante.
Quando abriu, Miguel estava ali. Terno amassado, gravata afrouxada, olhar intenso.
— Precisamos conversar — disse, sem preâmbulos.
— Não é uma boa ideia — ela respondeu, mas não conseguiu fechar a porta.
— Então me diga que não quer me ver — ele provocou, a voz grave e baixa.
Ana hesitou. Quis dizer, mas não conseguiu. Ele deu um passo à frente, e ela não recuou.
— Vem comigo — pediu. Não era uma pergunta.
O carro parou diante de uma casa afastada, no alto de um morro. O lugar era cercado por árvores, iluminado apenas pela luz suave da varanda. Ao entrar, Ana percebeu o silêncio — nenhum som de cidade, nenhum eco de câmeras ou sussurros de curiosos.
— É seguro aqui — disse Miguel. — Meu pai comprou essa casa anos atrás. Ninguém sabe que eu venho.
Ela caminhou até a varanda, olhando a cidade de longe, como se estivesse observando outro mundo.
— É bonito. Parece… outro tempo.
— É isso que eu queria pra hoje — ele disse, aproximando-se. — Um tempo só nosso.
Ficaram alguns segundos em silêncio, até que Ana suspirou.
— Miguel… isso é perigoso.
— Já não importa — ele respondeu, tocando de leve a mão dela. — Eu não quero mais viver só pra ser o que esperam de mim.
Ana olhou para ele. Havia sinceridade ali. E algo mais… algo que fazia seu coração disparar.
— E se tudo desmoronar? — ela perguntou.
— Então vamos cair juntos.
A resposta veio acompanhada de um toque no rosto, suave, como se ele pedisse permissão para ir além. Ela não disse “sim” nem “não”, mas fechou os olhos — e isso bastou.
O primeiro beijo foi contido, como se ambos testassem o terreno. Mas logo se tornou mais urgente, como se todo o tempo em que se seguraram desabasse de uma vez. As mãos dele envolveram seu rosto, enquanto ela se prendia ao calor dele como quem finalmente encontra abrigo.
— Eu pensei em você o dia todo — ele confessou entre um beijo e outro.
— E eu tentei não pensar em você… e falhei — ela admitiu.
Foram se movendo pela casa, guiados mais pelo que sentiam do que pelo espaço ao redor. A sala, o corredor, o quarto — cada passo parecia inevitável. As luzes ficaram para trás, substituídas pela penumbra suave que deixava apenas o suficiente para ver os olhos um do outro.
O mundo lá fora deixou de existir.
Quando o amanhecer começou a tingir o céu, Ana estava deitada com a cabeça no ombro dele, sentindo a respiração calma de Miguel. Nenhum deles falou sobre o que viria depois. Era cedo demais para promessas, mas tarde demais para negar o que tinham feito.
Ele segurou a mão dela, entrelaçando os dedos.
— Não vou deixar que te machuquem — disse, firme.
Ana sorriu de leve, sem abrir os olhos.
— Então já estamos no mesmo perigo.
Do lado de fora, o sol nascia sobre a cidade que, em poucas horas, voltaria a cobrar deles explicações.
Mas, ali, naquele momento, eram só Miguel e Ana.
E isso era tudo.