O bip constante das máquinas foi a primeira coisa que Helena ouviu ao despertar.
A luz branca do quarto a fez piscar várias vezes antes de focar no rosto de Miguel, que dormia encostado na poltrona ao lado.
— Miguel… — a voz saiu fraca, quase um sussurro.
Ele abriu os olhos imediatamente. — Mãe… graças a Deus.
Tentou segurar a mão dela com cuidado, mas percebeu algo estranho no olhar da mãe.
— Não sinto… — Helena moveu levemente a cabeça, os olhos arregalados — não sinto minhas pernas.
Miguel engoliu seco, olhando para o médico que entrava no quarto.
— É cedo para confirmar, mas o trauma na coluna foi grave — disse o doutor, com tom profissional. — Precisaremos de mais exames, mas é possível que haja perda de mobilidade.
Helena fechou os olhos, como se quisesse afundar no travesseiro.
Miguel respirou fundo. Seus planos, sua viagem, Ana… tudo parecia se afastar.
Agora, sua mãe precisava dele mais do que nunca.
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Enquanto isso, a quilômetros dali, Ana lia o jornal enquanto tomava café no balcão da primeira unidade do Café do Luar. Uma matéria na seção de negócios chamou sua atenção:
"Helena Castro, matriarca do Grupo Castro, sofre acidente grave e segue internada."
A foto mostrava a mulher elegante em um evento, ladeada por Miguel e Isabela.
Ana sentiu o coração acelerar.
Miguel…
Ela leu o texto rapidamente. O artigo mencionava que a empresária estava em estado crítico, mas não havia detalhes sobre o atual estado de saúde.
Por um instante, sentiu uma pontada de preocupação genuína — não por Helena, mas por ele.
Gabriel correu até ela com um desenho nas mãos.
— Olha, mamãe, é a gente dois no parquinho!
Ana sorriu, tentando afastar o turbilhão de pensamentos.
— É lindo, meu amor.
Mas, no fundo, sabia que aquela notícia reacendia uma chama que ela tentava apagar há anos.
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No hospital, Miguel ajeitava o cobertor da mãe.
A viagem estava cancelada.
O reencontro teria que esperar.