Capítulo 55 — Elegância e Pânico

693 Words
Os aplausos ainda ecoavam quando Ana deixou o palco. Os fotógrafos se acotovelavam, jornalistas esticavam microfones, e assessores da organização tentavam abrir espaço para a nova estrela da noite. — Por favor, um minuto para fotos! — gritava um dos organizadores, quase sendo atropelado pela multidão. Ana manteve o sorriso sereno, posando de forma natural, a estatueta firme em suas mãos. Seus olhos brilhavam sob os refletores, mas por dentro ela já estava distante. A noite tinha cumprido seu propósito: mostrar que não tinha mais medo. Miguel, do outro lado do palco, tentava abrir caminho. — Preciso falar com ela — dizia aos seguranças, que o bloqueavam com a mesma neutralidade com que impediam repórteres inconvenientes. — Senhor Castro, só convidados autorizados nos bastidores — explicou um deles. Miguel rangeu os dentes. — Eu sou o convidado que entregou o prêmio! — retrucou. Mas não adiantava. O protocolo era rígido, e a presença da imprensa tornava qualquer exceção impossível. Enquanto ele se debatia contra regras e barreiras, Ana atravessava os corredores internos, protegida por sua equipe. A cada passo, mais flashes, mais perguntas: — “Qual o segredo do sucesso?” — “A quem dedica o prêmio?” — “Qual o próximo passo da rede Café do Luar?” Ela respondia com calma, voz segura, até que entrou em um carro que a aguardava discretamente na saída lateral. Quando Miguel finalmente conseguiu alcançar a área externa, viu apenas o veículo afastando-se na avenida iluminada. Ficou parado, os punhos cerrados, observando as lanternas vermelhas sumirem na noite. No banco de trás, Ana recostou-se, o troféu sobre o colo. Tirou os brincos, respirou fundo. Estava exausta, mas também orgulhosa. Não se importara com Miguel. Não naquela noite. — Que ele engula a surpresa — murmurou, sozinha. — Eu não devo mais nada a ele. O carro seguiu silencioso até o prédio luxuoso onde agora morava. Ao subir para seu apartamento, Ana olhou o reflexo no espelho do elevador e sorriu. Não o sorriso doce de antes, mas o sorriso de quem, finalmente, assumia o próprio lugar no mundo. Na mansão dos Castro, Helena segurava uma taça de vinho quando o telefone tocou. Uma das assessoras pessoais, ofegante, falava do outro lado: — Dona Helena, a senhora está acompanhando o Summit? — Não, por quê? — respondeu, irritada. — A vencedora do prêmio revelação… foi Ana Clara. A taça escorregou da mão de Helena, o vinho respingando no tapete claro. — O quê? — Ela… ela subiu ao palco. Recebeu o prêmio das mãos do senhor Miguel. Há fotos, vídeos, está em todos os sites agora. Helena apertou o telefone contra o ouvido, o coração disparado. Ana. O nome que ela acreditava ter enterrado no passado, agora brilhava em manchetes e telões. — Isso não pode estar acontecendo… — sussurrou. — Não pode. Miguel voltou para casa tarde, sem sequer trocar de roupa. O paletó ainda carregava o cheiro de perfume e flashes. Trancou-se no escritório e abriu o laptop. As redes sociais estavam em ebulição: “Miguel Castro entrega prêmio à empresária revelação Ana Clara”. Fotos dos dois juntos, lado a lado no palco, inundavam os portais. Ele clicava compulsivamente, ampliando imagens, revendo os segundos em que ela sussurrou: “Enfim, nossos destinos se cruzaram.” As palavras giravam em sua mente como um feitiço. Ana não era mais um fantasma. Era realidade. Era poderosa. E estava de volta ao seu mundo — não como coadjuvante, mas como protagonista. No apartamento, Ana já havia colocado Gabriel para dormir. Entrou no quarto do filho e acariciou os cabelos cacheados dele. — Você é minha razão, meu pequeno. Agora ninguém vai nos separar. Beijou-lhe a testa e fechou a porta devagar. Sentou-se na varanda, olhando as luzes da cidade. Por mais que Miguel tentasse se aproximar, não daria a mínima. Não mais. Ela tinha riqueza. Tinha poder. Tinha voz. E, acima de tudo, tinha um filho que a tornava mais forte do que qualquer império. Ana sorriu sozinha, o vento bagunçando alguns fios soltos de cabelo. — Enfim, Miguel… nossos destinos se cruzaram. Mas agora, quem decide como será esse encontro sou eu.
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