Os aplausos ainda ecoavam quando Ana deixou o palco. Os fotógrafos se acotovelavam, jornalistas esticavam microfones, e assessores da organização tentavam abrir espaço para a nova estrela da noite.
— Por favor, um minuto para fotos! — gritava um dos organizadores, quase sendo atropelado pela multidão.
Ana manteve o sorriso sereno, posando de forma natural, a estatueta firme em suas mãos. Seus olhos brilhavam sob os refletores, mas por dentro ela já estava distante. A noite tinha cumprido seu propósito: mostrar que não tinha mais medo.
Miguel, do outro lado do palco, tentava abrir caminho.
— Preciso falar com ela — dizia aos seguranças, que o bloqueavam com a mesma neutralidade com que impediam repórteres inconvenientes.
— Senhor Castro, só convidados autorizados nos bastidores — explicou um deles.
Miguel rangeu os dentes.
— Eu sou o convidado que entregou o prêmio! — retrucou.
Mas não adiantava. O protocolo era rígido, e a presença da imprensa tornava qualquer exceção impossível.
Enquanto ele se debatia contra regras e barreiras, Ana atravessava os corredores internos, protegida por sua equipe. A cada passo, mais flashes, mais perguntas:
— “Qual o segredo do sucesso?”
— “A quem dedica o prêmio?”
— “Qual o próximo passo da rede Café do Luar?”
Ela respondia com calma, voz segura, até que entrou em um carro que a aguardava discretamente na saída lateral.
Quando Miguel finalmente conseguiu alcançar a área externa, viu apenas o veículo afastando-se na avenida iluminada. Ficou parado, os punhos cerrados, observando as lanternas vermelhas sumirem na noite.
No banco de trás, Ana recostou-se, o troféu sobre o colo. Tirou os brincos, respirou fundo. Estava exausta, mas também orgulhosa. Não se importara com Miguel. Não naquela noite.
— Que ele engula a surpresa — murmurou, sozinha. — Eu não devo mais nada a ele.
O carro seguiu silencioso até o prédio luxuoso onde agora morava. Ao subir para seu apartamento, Ana olhou o reflexo no espelho do elevador e sorriu. Não o sorriso doce de antes, mas o sorriso de quem, finalmente, assumia o próprio lugar no mundo.
Na mansão dos Castro, Helena segurava uma taça de vinho quando o telefone tocou. Uma das assessoras pessoais, ofegante, falava do outro lado:
— Dona Helena, a senhora está acompanhando o Summit?
— Não, por quê? — respondeu, irritada.
— A vencedora do prêmio revelação… foi Ana Clara.
A taça escorregou da mão de Helena, o vinho respingando no tapete claro.
— O quê?
— Ela… ela subiu ao palco. Recebeu o prêmio das mãos do senhor Miguel. Há fotos, vídeos, está em todos os sites agora.
Helena apertou o telefone contra o ouvido, o coração disparado.
Ana.
O nome que ela acreditava ter enterrado no passado, agora brilhava em manchetes e telões.
— Isso não pode estar acontecendo… — sussurrou. — Não pode.
Miguel voltou para casa tarde, sem sequer trocar de roupa. O paletó ainda carregava o cheiro de perfume e flashes. Trancou-se no escritório e abriu o laptop. As redes sociais estavam em ebulição: “Miguel Castro entrega prêmio à empresária revelação Ana Clara”. Fotos dos dois juntos, lado a lado no palco, inundavam os portais.
Ele clicava compulsivamente, ampliando imagens, revendo os segundos em que ela sussurrou: “Enfim, nossos destinos se cruzaram.”
As palavras giravam em sua mente como um feitiço.
Ana não era mais um fantasma.
Era realidade.
Era poderosa.
E estava de volta ao seu mundo — não como coadjuvante, mas como protagonista.
No apartamento, Ana já havia colocado Gabriel para dormir. Entrou no quarto do filho e acariciou os cabelos cacheados dele.
— Você é minha razão, meu pequeno. Agora ninguém vai nos separar.
Beijou-lhe a testa e fechou a porta devagar. Sentou-se na varanda, olhando as luzes da cidade. Por mais que Miguel tentasse se aproximar, não daria a mínima. Não mais.
Ela tinha riqueza.
Tinha poder.
Tinha voz.
E, acima de tudo, tinha um filho que a tornava mais forte do que qualquer império.
Ana sorriu sozinha, o vento bagunçando alguns fios soltos de cabelo.
— Enfim, Miguel… nossos destinos se cruzaram. Mas agora, quem decide como será esse encontro sou eu.