Capítulo 59 — Portas Entreabertas

802 Words
Miguel não conseguiu dormir na mansão. O silêncio parecia gritar em seus ouvidos, os corredores se tornaram longos demais, e cada sombra parecia carregada de lembranças. Às três da manhã, levantou-se, vestiu o casaco e decidiu ir para sua cobertura. Precisava respirar longe das amarras da família. O carro estacionou diante do prédio luxuoso, e ele entrou pela portaria. O que não esperava era dar de cara com ela. Ana. Vestia um casaco claro, os cabelos soltos caindo sobre os ombros, e segurava o celular como quem acabara de enviar uma mensagem. Seus olhos se arregalaram ao vê-lo, mas não houve tempo para reações. Ele avançou um passo, firme, e segurou seu braço com suavidade, mas sem permitir fuga. — Precisamos conversar. — disse, a voz grave, carregada de urgência. Ana respirou fundo, tentando esconder o coração disparado. — Onde? — perguntou, sem hesitar, embora seu olhar fosse uma tempestade. Miguel não desviou os olhos. — No meu apartamento. Moro na cobertura. Por um instante, o ar pareceu rarefeito. Ana piscou, surpresa. — Você… mora aqui? Ele assentiu. — Moro. E não vou mais adiar o que precisamos dizer. Ela engoliu seco, e naquele instante não revelou que também morava no mesmo prédio. Ficou em silêncio, apenas caminhou ao lado dele até o elevador. Enquanto subiam, Ana pegou o celular e digitou rapidamente uma mensagem para a babá: "Coloque Gabriel para dormir. Vou demorar um pouco. Qualquer coisa, me ligue." Guardou o aparelho na bolsa, o coração acelerado. Não sabia se tinha feito bem em aceitar, mas sabia que não poderia fugir para sempre. A porta da cobertura se abriu com um clique suave. O apartamento de Miguel era amplo, moderno, com paredes de vidro que revelavam a cidade iluminada pela madrugada. Tudo parecia frio, perfeito, organizado demais. Ana entrou devagar, observando o espaço. — Então… é aqui que vive o herdeiro bilionário. — murmurou, irônica. — Sozinho, no alto do mundo. Miguel fechou a porta, aproximando-se. — Mais sozinho do que você pode imaginar. Houve silêncio. Os dois se encararam, e era como se anos de distância desmoronassem de repente. — Você cresceu, Ana. — disse ele, quase num sussurro. — Não é mais a menina da cafeteria. Agora é a mulher que conquistou tudo sozinha. Ela ergueu o queixo, firme. — E não devo nada a você, Miguel. Tudo o que construí foi sem a sua ajuda. Ele assentiu, respeitando a firmeza dela. — Eu sei. E é exatamente por isso que precisamos conversar. Ana caminhou até a janela, olhando as luzes da cidade. — Por que agora? Depois de cinco anos, por que me parar na portaria e me arrastar para cá? Miguel passou a mão pelos cabelos, um gesto de nervosismo que raramente deixava escapar. — Porque não consigo mais fingir que você não existe. Porque a cada passo que dou, parece que tudo me leva de volta a você. Ela respirou fundo, mantendo a postura. — Você tem uma esposa, Miguel. Uma família que manipula cada decisão sua. O que espera que eu diga? Ele se aproximou, mas manteve distância suficiente para não invadir o espaço dela. — Espero a verdade. Só isso. Ana o encarou, os olhos marejados, mas firmes. — A verdade é que você não esteve lá quando eu mais precisei. A verdade é que aprendi a sobreviver sozinha. E a verdade é que agora eu tenho algo que ninguém tira de mim. Miguel estremeceu. — Gabriel… Ela desviou o olhar, mas não respondeu. — É meu filho, não é? — ele insistiu, a voz carregada de emoção. Ana fechou os olhos por um instante. Tudo dentro dela gritava que não deveria responder, que o perigo ainda era real. Mas também sabia que aquele momento era inevitável. O silêncio pesou entre eles. A cidade continuava viva lá fora, mas ali dentro, apenas duas almas se enfrentavam. Finalmente, Ana abriu os olhos, encarou Miguel e disse: — Sim, Miguel. Ele é seu filho. O ar deixou os pulmões dele como um soco. Sentiu-se ao mesmo tempo devastado e vivo. Aproximou-se, mas Ana ergueu a mão, impedindo qualquer gesto. — Não pense que pode simplesmente voltar e reivindicar o que não construiu. Gabriel é meu. Eu lutei, eu criei, eu protegi. E vou continuar fazendo isso, mesmo que você, sua mãe ou o mundo tentem me impedir. Miguel assentiu devagar, os olhos marejados. — Não quero tirar nada de você. Só quero conhecer o que perdi. Ana respirou fundo, o coração dividido entre a raiva e a esperança. — Então prove que merece. Porque da minha vida, Miguel… quem manda sou eu. E virou-se de costas, caminhando até a porta. — Boa noite. Ele ficou parado, sozinho no meio da sala iluminada pela cidade, com o eco da verdade martelando em sua mente. Gabriel… meu filho.
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