O corredor da mansão estava em penumbra quando Miguel parou, ouvindo as vozes que vinham da sala ao lado. Reconheceu o timbre da mãe, ríspido, venenoso. Reconheceu também a voz de Isabela, aguda, carregada de falsidade.
— Precisamos unir forças, Isabela. — Helena falava baixo, mas firme. — Se deixarmos Ana crescer, ela vai engolir tudo. Precisa ser derrubada.
Isabela suspirou.
— Mas como? O público a ama, a imprensa a idolatra. Qualquer ataque seria visto como perseguição.
— Então vamos fazer com que ela caia sozinha. — Helena rebateu, fria. — Criaremos uma narrativa, um escândalo. Usaremos as fraquezas dela contra ela. E, se for preciso, usaremos o próprio Miguel.
Foi o suficiente.
Miguel empurrou a porta e entrou, o olhar faiscando.
— Já chega.
As duas se sobressaltaram. Helena empalideceu, Isabela arregalou os olhos.
— Miguel… não é o que você pensa… — a mãe tentou se justificar.
Ele ergueu a mão, cortando-a.
— Eu ouvi tudo. — caminhou devagar, como um predador cercando sua presa. — Vocês duas tramando contra Ana. Vocês duas tentando derrubar uma mulher que não tem nada além do próprio trabalho e da própria coragem.
— Miguel… — Isabela tentou intervir.
— Cale-se! — ele a cortou, sem sequer olhar em sua direção. — Você não passa de uma farsa que eu ainda tolero por conveniência.
Isabela recuou, humilhada. Helena, por outro lado, manteve o queixo erguido.
— Essa mulher é uma ameaça, Miguel. Se o acordo ruir, estaremos falidos. Você não entende o risco que corre.
Miguel avançou até ficar frente a frente com ela, os olhos faiscando.
— Não, mãe. Quem não entende é você. Quero que me diga agora, sem rodeios: por que tanto medo de Ana? O que você esconde?
Helena vacilou.
— Eu não escondo nada.
— Não minta para mim. — A voz dele soou como um trovão. — Se não me disser a verdade agora, eu juro que corto você da empresa de vez.
Ela tentou manter a pose.
— Você não teria coragem.
— Quer apostar? — Miguel aproximou-se ainda mais, a respiração pesada. — Eu já tirei Isabela do jogo. Posso fazer o mesmo com você.
O silêncio foi esmagador. Helena desviou o olhar, fingindo calma.
— Eu não tenho nada a temer. Ana é só uma oportunista.
Miguel cerrou os punhos. Sabia que havia mais, muito mais, escondido atrás daquela fachada. Mas se ela não queria falar, ele a forçaria de outro jeito.
No dia seguinte, Miguel foi direto ao escritório do patriarca Azevedo.
— Preciso que oficialize a retirada da minha mãe de todos os cargos executivos. — disse, colocando documentos sobre a mesa. — Ela terá apenas uma mesada fixa, bancada por mim. Os cartões corporativos serão cancelados imediatamente.
O patriarca arqueou a sobrancelha, surpreso.
— Tem certeza?
— Absoluta. — Miguel respondeu, a voz firme. — Ela não representa mais os interesses da família. Só representa os próprios caprichos.
Houve uma pausa longa, pesada. Então, lentamente, o patriarca assentiu.
— Muito bem. Como quiser.
Naquela noite, Helena recebeu o golpe.
O advogado entregou-lhe uma pasta com o novo arranjo: salário fixo, cartões cancelados, nenhum poder de voto nas reuniões. Apenas a sombra de um lugar que antes fora todo dela.
Ela leu cada linha com as mãos trêmulas.
— Isso é um ultraje. — murmurou. — Eu construí esse império!
Miguel, em pé diante dela, respondeu com frieza:
— Não, mãe. Você destruiu esse império. Agora eu estou apenas salvando o que sobrou.
Helena levantou-se, tentando manter a dignidade.
— Você vai se arrepender de ter me traído.
— Não. — Miguel a encarou, sem piscar. — O único arrependimento seria continuar deixando você me manipular.
Helena saiu da sala arrasada, os saltos ecoando como um lamento. Pela primeira vez em sua vida, não era mais a rainha do tabuleiro. Era apenas uma peça descartada.
E, sozinha no corredor, admitiu para si mesma algo que nunca teria coragem de dizer em voz alta:
Ela temia Ana não porque fosse uma ameaça externa… mas porque Ana tinha algo que ela jamais tivera.
O amor verdadeiro de Miguel.