Capítulo 58 — Fim da Rainha

686 Words
O corredor da mansão estava em penumbra quando Miguel parou, ouvindo as vozes que vinham da sala ao lado. Reconheceu o timbre da mãe, ríspido, venenoso. Reconheceu também a voz de Isabela, aguda, carregada de falsidade. — Precisamos unir forças, Isabela. — Helena falava baixo, mas firme. — Se deixarmos Ana crescer, ela vai engolir tudo. Precisa ser derrubada. Isabela suspirou. — Mas como? O público a ama, a imprensa a idolatra. Qualquer ataque seria visto como perseguição. — Então vamos fazer com que ela caia sozinha. — Helena rebateu, fria. — Criaremos uma narrativa, um escândalo. Usaremos as fraquezas dela contra ela. E, se for preciso, usaremos o próprio Miguel. Foi o suficiente. Miguel empurrou a porta e entrou, o olhar faiscando. — Já chega. As duas se sobressaltaram. Helena empalideceu, Isabela arregalou os olhos. — Miguel… não é o que você pensa… — a mãe tentou se justificar. Ele ergueu a mão, cortando-a. — Eu ouvi tudo. — caminhou devagar, como um predador cercando sua presa. — Vocês duas tramando contra Ana. Vocês duas tentando derrubar uma mulher que não tem nada além do próprio trabalho e da própria coragem. — Miguel… — Isabela tentou intervir. — Cale-se! — ele a cortou, sem sequer olhar em sua direção. — Você não passa de uma farsa que eu ainda tolero por conveniência. Isabela recuou, humilhada. Helena, por outro lado, manteve o queixo erguido. — Essa mulher é uma ameaça, Miguel. Se o acordo ruir, estaremos falidos. Você não entende o risco que corre. Miguel avançou até ficar frente a frente com ela, os olhos faiscando. — Não, mãe. Quem não entende é você. Quero que me diga agora, sem rodeios: por que tanto medo de Ana? O que você esconde? Helena vacilou. — Eu não escondo nada. — Não minta para mim. — A voz dele soou como um trovão. — Se não me disser a verdade agora, eu juro que corto você da empresa de vez. Ela tentou manter a pose. — Você não teria coragem. — Quer apostar? — Miguel aproximou-se ainda mais, a respiração pesada. — Eu já tirei Isabela do jogo. Posso fazer o mesmo com você. O silêncio foi esmagador. Helena desviou o olhar, fingindo calma. — Eu não tenho nada a temer. Ana é só uma oportunista. Miguel cerrou os punhos. Sabia que havia mais, muito mais, escondido atrás daquela fachada. Mas se ela não queria falar, ele a forçaria de outro jeito. No dia seguinte, Miguel foi direto ao escritório do patriarca Azevedo. — Preciso que oficialize a retirada da minha mãe de todos os cargos executivos. — disse, colocando documentos sobre a mesa. — Ela terá apenas uma mesada fixa, bancada por mim. Os cartões corporativos serão cancelados imediatamente. O patriarca arqueou a sobrancelha, surpreso. — Tem certeza? — Absoluta. — Miguel respondeu, a voz firme. — Ela não representa mais os interesses da família. Só representa os próprios caprichos. Houve uma pausa longa, pesada. Então, lentamente, o patriarca assentiu. — Muito bem. Como quiser. Naquela noite, Helena recebeu o golpe. O advogado entregou-lhe uma pasta com o novo arranjo: salário fixo, cartões cancelados, nenhum poder de voto nas reuniões. Apenas a sombra de um lugar que antes fora todo dela. Ela leu cada linha com as mãos trêmulas. — Isso é um ultraje. — murmurou. — Eu construí esse império! Miguel, em pé diante dela, respondeu com frieza: — Não, mãe. Você destruiu esse império. Agora eu estou apenas salvando o que sobrou. Helena levantou-se, tentando manter a dignidade. — Você vai se arrepender de ter me traído. — Não. — Miguel a encarou, sem piscar. — O único arrependimento seria continuar deixando você me manipular. Helena saiu da sala arrasada, os saltos ecoando como um lamento. Pela primeira vez em sua vida, não era mais a rainha do tabuleiro. Era apenas uma peça descartada. E, sozinha no corredor, admitiu para si mesma algo que nunca teria coragem de dizer em voz alta: Ela temia Ana não porque fosse uma ameaça externa… mas porque Ana tinha algo que ela jamais tivera. O amor verdadeiro de Miguel.
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