Capítulo 57 — Voz de Comando

780 Words
A mansão estava mergulhada em silêncio quando Helena chegou. O motorista abriu a porta do carro, e ela desceu com passos firmes, ainda que o coração estivesse acelerado. Na mente, repetia a frase que ouvira de Ana horas antes: “Na minha vida, quem manda sou eu.” O peso daquela gravação, daquela ameaça velada, ainda a corroía. Se Ana realmente levasse aquele áudio à imprensa, seria o fim. Preciso alertar Miguel, pensava. Ele precisa entender o perigo que essa mulher representa. Subiu as escadas de mármore até o escritório do filho. A porta estava entreaberta. Lá dentro, Miguel lia relatórios, a gravata solta, a testa marcada por linhas de cansaço. — Precisamos conversar — anunciou Helena, sem rodeios. Miguel ergueu os olhos, mas não se levantou. — Entre. Feche a porta. Ela obedeceu, mas manteve a postura rígida. — Miguel, não podemos ignorar. Ana voltou. E pior: está cada vez mais forte, mais visível, premiada pela imprensa. Isso é uma ameaça direta a você, a mim, a todos nós. Ele apoiou a caneta sobre a mesa e cruzou os braços. — Continue. — Se ela falar, se abrir a boca sobre o passado, estamos acabados. O acordo com os Azevedo depende de silêncio, de aparência. Você sabe tão bem quanto eu que se isso ruir, estaremos falidos. — Helena caminhou até a janela, olhando para os jardins. — Seu pai deixou dívidas impagáveis. Só restou esse teatro, e você precisa sustentar até o fim. Miguel se recostou na poltrona, observando a mãe com olhos frios. — É engraçado, mãe. Você sempre fala como se fosse a única a entender esse jogo. Mas esquece que eu também sei as regras. — Não seja t**o, Miguel! — ela rebateu, a voz trêmula. — Ana é um perigo. Ela pode acabar com tudo o que construímos! Ele se levantou, caminhando até ficar frente a frente com ela. Sua voz saiu firme, carregada de autoridade: — Não. Quem destruiu tudo foi você, com suas manipulações. Quem trouxe os Azevedo para nossas vidas, quem me forçou a esse casamento de fachada, foi você. Helena piscou, surpresa. Nunca ouvira o filho falar daquele jeito. — Miguel, eu só queria proteger… — Proteger a si mesma. — Ele a interrompeu, cortante. — Você nunca quis me proteger. Quis proteger seu sobrenome, sua imagem. Mas eu já não sou mais o filho obediente. O silêncio entre eles foi quebrado apenas pelo tique-taque do relógio. Miguel deu um passo atrás, respirando fundo. — Eu não serei e******o de jogar tudo no lixo agora. Só faltam três meses. — A voz dele era controlada, mas firme. — Três meses para o contrato terminar, para eu estar livre desse pesadelo. Helena o encarou, confusa. — Então… você vai esperar? — Vou. — Ele voltou à mesa, retomando os relatórios. — Não porque você manda, mas porque eu decidi. Não sou i****a de provocar um escândalo agora. Mas entenda uma coisa, mãe: da minha vida e das minhas decisões, quem manda sou eu. As palavras ecoaram pelo escritório como um veredito. Helena tentou responder, mas não encontrou forças. A segurança na voz do filho a desarmava. Era como se o Miguel que sempre controlara tivesse desaparecido. — Miguel… você não entende. — murmurou, quase suplicando. — Ela me enfrentou, me ameaçou. Disse que gravou aquela noite, quando… Ele levantou a mão, cortando-a. — Já chega, mãe. Se você a ameaçou, então arque com as consequências. Eu não vou mais lutar as suas guerras. Helena levou a mão à boca, incrédula. — Você vai escolher ela em vez de mim? — Eu não escolhi ninguém. — respondeu Miguel, sem erguer os olhos do relatório. — Apenas escolhi a mim mesmo. Helena saiu do escritório atordoada. Desceu as escadas lentamente, como se cada degrau fosse um golpe. O motorista a aguardava na entrada, mas ela hesitou antes de entrar no carro. Lá dentro, sozinha, deixou as lágrimas caírem. Pela primeira vez em anos, sentia que estava perdendo Miguel. Ele já não a obedecia, já não se curvava. E, pior: parecia cada vez mais próximo de Ana, mesmo sem admitir. — Não… não pode ser… — sussurrou, a voz embargada. — Ele é meu filho. Meu império. Não vou permitir. Mas, no fundo, sabia que o poder já não estava em suas mãos. Miguel, no escritório, fechou o relatório e encarou o nada por longos minutos. Ana tinha voltado. Mais forte. Mais destemida. E ele sabia, em algum lugar dentro de si, que não importava o quanto tentasse resistir… quando os três meses terminassem, não seria apenas o contrato com os Azevedo que chegaria ao fim. Mas a distância entre ele e Ana também
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD