Miguel não dormiu naquela noite.
A cada hora que passava, a ausência de Ana se tornava mais insuportável.
No início da manhã, já estava no escritório, mas não para tratar de negócios. Ligou para um antigo conhecido: um investigador particular chamado Dantas, famoso por achar qualquer pessoa — mesmo aquelas que não queriam ser encontradas.
— Preciso que encontre alguém para mim — disse Miguel, direto. — Ana Clara. Tudo que eu sei é que ela saiu do apartamento ontem com malas e não deixou endereço.
— Vou precisar de fotos, lugares que ela costuma frequentar e… qualquer pista — respondeu Dantas.
— Você terá tudo até o fim do dia — prometeu Miguel.
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Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, Ana descia de um ônibus em uma cidade pequena, longe do barulho das capitais.
Segurava firme uma mala e um envelope grosso, com parte do dinheiro que Helena lhe entregara.
O ar fresco da manhã batia em seu rosto, mas não trazia alívio. Sabia que não estava ali para recomeçar — estava ali para se esconder.
Alugou um quarto simples nos fundos de uma pousada, pago adiantado, e pediu para a dona não registrar seu nome completo.
— É por segurança — disse, forçando um sorriso.
No quarto, tirou de uma sacola o exame de ultrassom que havia feito em segredo. Passou os dedos sobre a imagem borrada, o pequeno coração que já batia.
— Eu prometo que vou te proteger — sussurrou.
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Em São Paulo, Dantas voltou com as primeiras informações.
— Ela fechou o contrato de aluguel ontem de manhã, retirou dinheiro em espécie de uma agência do centro e pegou um táxi até a rodoviária. Depois disso, desapareceu das câmeras.
Miguel franziu o cenho. — Desapareceu como?
— Comprou a passagem no guichê, em dinheiro. Não há registro no nome dela. Isso foi planejado.
As palavras ecoaram na mente de Miguel como um alerta. Planejado. Frio. Deliberado.
Não parecia a Ana que ele conhecia. Algo a havia forçado a isso.
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Na pequena cidade, Ana evitava sair durante o dia. Fazia compras cedo, antes das ruas encherem, e mantinha as cortinas fechadas. Ainda assim, cada barulho de motor na rua a fazia gelar.
Helena era poderosa demais para ser subestimada.
E Miguel… Miguel não podia saber.
Porque, se soubesse, voltaria para buscá-la — e isso poderia custar caro demais.
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De volta ao seu apartamento, Miguel olhava para o celular como se pudesse fazer Ana aparecer.
A cada dia, a determinação só crescia: ele iria encontrá-la.
Não importava quanto tempo levasse.
Não importava quem tentasse impedir.