Dantas estava no escritório revisando anotações sobre o caso quando recebeu uma ligação inesperada.
— Investigador Dantas? — a voz feminina era fria, medida. — Aqui é Helena Castro.
Ele endireitou-se na cadeira, surpreso. — Posso ajudar?
— Pode, se for inteligente o suficiente para ouvir até o fim.
Helena marcou o encontro para aquela noite, em um restaurante discreto e caro. Chegou primeiro, impecável, como sempre. Dantas a encontrou numa mesa reservada ao fundo.
— Então… está procurando Ana Clara para o seu filho — disse ela, sem rodeios. — Eu sei disso.
— É meu trabalho, senhora. Ele me contratou para encontrá-la.
Helena sorriu levemente. — E eu quero que você continue sendo pago para… não encontrá-la.
Dantas arqueou a sobrancelha. — Está me pedindo para sabotar a investigação?
— Estou oferecendo para multiplicar o que meu filho lhe paga. — Ela colocou um envelope grosso sobre a mesa. — Tudo o que você precisa fazer é parecer ocupado, trazer pistas falsas, e manter Miguel acreditando que Ana está em algum lugar impossível de alcançar.
O investigador olhou para o envelope. — E se ele descobrir?
— Ele não vai. — Helena manteve o olhar firme. — Sou especialista em controlar narrativas.
Por alguns segundos, o silêncio se manteve, quebrado apenas pelo som distante de talheres e conversas abafadas.
Dantas respirou fundo, depois pegou o envelope. O peso das notas era considerável.
— Está feito — disse ele, guardando no paletó. — Mas vai precisar me passar alguns detalhes para que as pistas pareçam reais.
— Vai receber tudo amanhã cedo — respondeu Helena, levantando-se. — E lembre-se: quanto mais tempo ele ficar no escuro, mais todos nós sairemos ganhando.
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Nos dias seguintes, Miguel recebia atualizações do detetive. Relatos de “avistamentos” em cidades distantes, informações vagas sobre ônibus e hotéis… todas sem confirmação.
Cada pista parecia levá-lo a um beco sem saída.
— É questão de tempo — dizia Dantas ao telefone. — Ela se movimenta pouco, mas vamos encontrar.
Miguel acreditava.
Helena, no entanto, sabia que estava apenas comprando tempo… e distância.
A distância necessária para que Ana desaparecesse para sempre.