Irmãos Castillo.
O aroma impregnado de cera de abelha, olíbano e pedra úmida era a única fragrância que Eloá conhecia desde os seus sete anos de idade. Para o resto do mundo, o Convento de Santa Lúcia era uma construção medieval esquecida no topo de uma colina íngreme, cercada por névoa e pinheiros densos. Para ela, no entanto, aquelas paredes de granito escuro e vitrais altos não representavam uma clausura, mas um refúgio divino. Um escudo sagrado contra as memórias confusas do mundo exterior — um lugar do qual restara apenas a lembrança borrada do rosto de seu pai e a promessa, feita em um tom embargado pelo álcool, de que ele voltaria para buscá-la assim que sua vida se ajeitasse.
Aos vinte anos, Eloá já não esperava por ele. Sua vida pertencia à rotina inflexível do silêncio, das orações matutinas e do trabalho manual. Ela vestia o hábito simples de cor escura com orgulho discreto. O pano pesado cobria seus ombros, escondendo a pele clara e as curvas suaves que ela jamais expusera a olhar algum. Seu terço de madeira escura, cujas contas estavam desgastadas pelo roçar diário de seus dedos finos, era sua arma e seu consolo.
Ela estava ajoelhada no corredor central da capela principal. A luz fraca do amanhecer atravessava o vitral de São Miguel Arcanjo, projetando tons de azul e carmesim sobre o chão de mármore frio. Suas pálpebras estavam suavemente fechadas, os lábios movendo-se num sussurro inaudível:
— Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...
O silêncio sagrado que reinava há séculos naquele santuário foi despedaçado sem aviso.
O som agudo e estridente de pneus cantando sobre o cascalho do pátio externo fez os pássaros abrigados nas torres de pedra voarem em disparada. Em seguida, a vibração grave de motores V8 roncou como o rugido de feras famintas, ecoando através dos portões de ferro. O som do metal pesado sendo arrombado e colidindo contra o muro reverberou pelas paredes da capela.
Eloá não se mexeu de imediato. A disciplina do convento a ensinara a buscar a paz interna mesmo na tempestade, mas o pavor explícito que ecoou na voz da Madre Superiora fez seu sangue gelar.
— Não podem fazer isso! Este é um lugar sagrado! Ajoelhem-se perante Deus ou a maldição cairá sobre vocês! — os gritos desesperados da idosa ressoavam pelo corredor de arcos.
— O único Deus que manda nesta p***a de cidade atende pelo sobrenome Castillo, velha. E Ele não se importa com a sua igreja — uma voz grave, áspera e carregada de uma autoridade perigosa ecoou, acompanhada pelo ritmo lento e pesado de passos usando sapatos de couro nobre.
A porta dupla de madeira maciça da capela, lavrada à mão há mais de cem anos, foi empurrada com tanta violência que as dobradiças de ferro rangeram em protesto, colidindo contra as paredes com um estrondo similar a um tiro.
Eloá abriu os olhos devagar. Levantou-se do chão de pedra com a serenidade ensaiada de quem passou a vida servindo ao altar, virando-se para a entrada.
O contraste era aterrador e hipnotizante. A santidade do altar encontrava a depravação crua do submundo.
Cinco homens avançavam pelo corredor central. Vestiam ternos sob medida de corte impecável, em tons de preto e cinza-chumbo, mas não havia nada de civilizado neles. Exalavam uma aura sufocante de poder, tabaco caro, perfume amadeirado e o aroma metálico e inconfundível de perigo iminente.
À frente do grupo estava Dimitri Castillo. Ele erguia-se como o próprio imperador da escuridão. Alto, de ombros largos e mandíbula travada, trazia o cabelo escuro perfeitamente alinhado. Seus olhos, cinzentos como o metal de uma lâmina fria, varreram a arquitetura sacra com absoluto desprezo até se fixarem diretamente em Eloá. O poder que exalava de sua postura era quase físico, uma força gravitacional que exigia submissão total sem que precisasse dizer uma única palavra.
À sua esquerda, Hector Castillo mantinha a jaqueta do terno aberta, revelando a camisa preta entreaberta no peito, coberta por tatuagens sombrias que subiam pelo pescoço. Preso ao seu coldre de couro nobre, o cabo de uma pistola preta reluzia sob a luz das velas. Seus olhos castanhos-escuros eram selvagens, desprovidos de qualquer traço de misericórdia. Ele tinha a postura de um predador esperando o sinal para despedaçar a presa.
Ao lado dele, Cassiano Castillo ostentava um sorriso lento e debochado nos lábios bem desenhados. Sua beleza era estonteante, quase angelical, mas os olhos revelavam uma inteligência maquiavélica. Ele observava a capela e a figura de Eloá como um apreciador de arte examinando uma nova aquisição valiosa.
Mais atrás, Eros Castillo mantinha-se nas sombras dos arcos laterais. Silencioso, frio e distante, ele segurava um dispositivo criptografado, digitando ordens com rapidez antes de erguer os olhos azuis e gélidos em direção à noviça. Não havia raiva ou deboche em sua expressão — apenas um cálculo analítico e minucioso, como se estivesse mapeando cada batimento cardíaco e cada ponto fraco da garota.
E encostado no batente da porta arrombada estava Cristian Castillo, o mais novo. Ele mascava chiclete com desdém, girando um canivete tático entre os dedos com uma destreza assustadora. Um sorriso sarcástico e jovem cortava seu rosto, mas a postura relaxada não escondia a instabilidade perigosa que queimava em seu olhar.
— Eloá... — uma voz rasgada, trêmula e patética veio de trás de Hector.
Um homem com as roupas sujas, a cara inchada por hematomas recentes e os olhos fundos, injetados pelo vício e pelo medo absoluto, foi empurrado sem cerimônia para a frente. Ele caiu de joelhos sobre o mármore, soluçando.
Eloá sentiu o ar escapar de seus pulmões. Suas mãos agarraram o terço de madeira com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
— Pai? — a palavra saiu como um sopro de poeira.
— Ele devia quatro milhões de dólares em remessas de cocaína e roubo de rotas de contrabando, garota — disse Dimitri, dando passos lentos e calculados em sua direção. O som de seus sapatos de couro nobre parecia marcar a contagem regressiva para o fim do mundo dela. — O desgraçado achou que podia roubar a família Castillo e depois se esconder atrás dos muros de um convento de freiras.
— Eu não tinha o dinheiro, Dimitri! Eu juro pela minha vida, eu não tinha! — o pai de Eloá rastejou alguns centímetros, agarrando-se à barra da calça de Hector, apenas para ser chutado no peito pelo executor com um baque seco e brutal. O homem urrou de dor, cuspindo sangue no chão sagrado.
— Não toque nas minhas calças com a sua imundície, seu verme — rosnou Hector, a voz grave parecendo um trovão prestes a desabar.
— Mas eu trouxe a garantia! — o pai gritou, desesperado, apontando um dedo trêmulo para Eloá. — Olhem para ela! É pura! Nunca saiu deste lugar, nunca viu um homem! Ela é uma noviça intocada, vale cada centavo do que eu devo! Fiquem com ela! A vida dela pela minha!
O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. Eloá sentiu as paredes da capela parecerem ruir sobre suas costas. A revelação não veio como uma dor física, mas como um veneno gelado correndo por suas veias. O homem que a deixara ali sob a promessa de amor paternal acabara de vendê-la como um pedaço de carne para pagar por suas drogas e traições.
Dimitri parou a escassos centímetros de Eloá. A altura dele a obrigava a inclinar a cabeça para trás para encará-lo. O cheiro de seu perfume caro, mesclado ao cheiro de pólvora e fumaça de charuto, envolveu o espaço ao redor dela, dissipando qualquer aroma de incenso.
Com a calma de quem possui o destino de todos naquela sala, Dimitri ergueu a mão direita. Seus dedos longos e calejados seguraram o queixo de Eloá com uma firmeza que beirava a dor. Ele forçou o rosto dela para cima, analisando os olhos castanhos grandes e expressivos, a pele macia sem um pingo de maquiagem e a respiração descompensada que movimentava o tecido pesado do hábito.
— Uma santinha... — Cassiano soltou uma risada curta e aveludada, aproximando-se e cruzando os braços enquanto encarava a cena. — O miserável realmente achou que uma noviça cobriria quatro milhões de dólares e uma traição contra o nosso império?
— Ela não vai cobrir a dívida — disse Dimitri, sem desviar o olhar do rosto de Eloá. O aperto em seu queixo se intensificou o suficiente para deixar marcas vermelhas. — Ela vai pagar os juros. E a dívida do pai dela só será quitada quando não restar mais nada desta alma pura.
Apesar do pavor que fazia seus joelhos tremerem por baixo do hábito, Eloá recusou-se a chorar. Ela fechou os olhos por meio segundo, buscando no fundo de sua fé a força que precisaria para não se despedaçar. Quando abriu os olhos novamente, encarou a imensidão cinzenta e gélida de Dimitri com uma postura ereta e inabalável.
— Tirar as mãos de mim é o primeiro passo para você não arder no inferno, senhor — disse ela, a voz saindo surpreendentemente clara, firme e serena no meio da tempestade.
Hector soltou uma gargalhada alta, um som cru e preenchido de deboche que ecoou pelas abóbadas da igreja.
— Inferno, docinho? — Hector deu um passo à frente, debruçando-se sobre ela de modo que Eloá pudesse ver a cicatrização de um corte antigo em sua maçã do rosto e sentir o calor de sua respiração pesada. — Nós somos o inferno. E a partir de hoje, você é nossa propriedade exclusiva.
— Leve-a para o carro — ordenou Dimitri, soltando o queixo dela de forma abrupta e virando-se de costas. — Cristian, limpe o lixo.
— Com todo o prazer, irmão — Cristian deu um sorriso sádico, desencaixando o canivete e caminhando na direção do pai de Eloá, que começou a gritar e rastejar para trás em puro pânico.
— Não! Piedade! — a Madre Superiora tentou intervir, correndo em direção a Eloá, mas Cassiano simplesmente colocou o braço na frente da idosa, impedindo seu avanço com uma facilidade assustadora e um sorriso falso.
— Ajoelhe-se e reze pela alma dela, Madre. É a única coisa que lhe resta fazer — Cassiano sussurrou com falsa gentileza.
Hector segurou o braço de Eloá com a força de uma prensa de aço. O impacto do toque bruto contra seu tecido fez o terço escapar de seus dedos, caindo no chão de mármore com um estalo seco.
— Meu terço... — ela murmurou, tentando se soltar.
— Deixe essa porcaria para trás, santinha. Para onde você vai, Deus não consegue te ouvir — Hector rastejou a voz ao pé de seu ouvido antes de arrastá-la com violência pelo corredor central.
Eloá foi puxada para fora da capela enquanto o som abafado do primeiro tiro ressoava lá dentro, seguido pelo silêncio definitivo de seu pai. Ela não olhou para trás. Seus pés descalços dentro das sandálias simples pisavam o cascalho do pátio enquanto era empurrada para o banco traseiro de um SUV preto blindado com vidros fumê.
Quando a porta do veículo se fechou com um baque pesado e hermético, o mundo em que ela vivera durante treze anos desapareceu. Ao seu lado, Dimitri sentou-se, acendendo um charuto com um isqueiro de ouro. Do outro lado, Hector entrou, fechando a porta com força e encarando-a com um olhar faminto.
Eloá cruzou as mãos sobre o colo, mantendo a postura ereta no meio do estofado de couro caro. Seu coração batia como um tambor desgovernado contra as costelas, mas seu olhar permanecia fixo à frente. A caminhada pelo vale das sombras havia começado, e ela acabara de ser entregue aos cinco demônios mais perigosos do mundo.