CAPÍTULO 2

2725 Words
3º. P.O.V. Sheffield sempre fora uma cidade famosa e desejada por qualquer turista à procura de um bom lugar para festas, bebedeira e boa movimentação. A sexta cidade mais populosa da Inglaterra, a tal aglomeração urbana que ultrapassa os limites de normalidade na visão de qualquer casal de idosos à procura de calmaria e música country ecoando pelas ruas em uma comum tarde fria. Já quando o "toque de recolher" das indústrias localizadas ali soava, indicando as cinco horas e o início de um novo período, homens bem vestidos largavam suas roupas sociais e não pensavam nada mais, nada menos que na sensualidade e diversão que a Sheffield noturna proporcionava, com seus bares e casas de show anunciando novas garotas de programa à venda, e o principal sustento de quem comandava toda a máfia de dinheiro, joias e mulheres por aquelas bandas: o tráfico. O lugar perfeito — o centro de todo o império — para Harry Styles. E William, agora Louis, sabia disso. Em uma mesa afastada de toda a movimentação de um desses bares bem frequentados, lá estava ele, tragando o primeiro cigarro do maço que brincava em seus dedos. Estava inquieto com toda aquela gente esquisita que chegava aos poucos no local; tamborilava os dedos sem nem perceber o desconforto que causava nas dançarinas aguardando o início de seu show. Não sabia bem o porquê de ter entrado ali, mas confiava na sua intuição, a qual lhe dizia: gângsteres procuram lugares caros, perfeccionistas, nos quais você só consegue entrar caso tenha muito dinheiro, ou quem sabe venda um carro esportivo e mate alguém a pedido de um político que poderá te pagar muito bem por isso. Logo quando desembarcou na cidade, os murmúrios da tal boate — ou bar, chame como quiser — já lhe tornaram comuns de tanto que ouvira falar sobre. Era a melhor da região, o verdadeiro portal para o inferno e prazer de quem quer e pode estar ali. Aliás, além de ser o refúgio dos riquinhos e barras-pesadas, concentrava o maior número de mulheres estrangeiras ou mesmo dali, pagando seus pecados e os cometendo também. Pobre Louis Tomlinson, estava ali apenas a trabalho. Por mais que tentasse não cair em tentação, acabou aceitando um whisky e petiscos não muito confiáveis a quem deve estar sóbrio até o final da noite. Disse a si mesmo que aquilo era apenas pelo seu nervosismo; que o álcool estranhamente fazia seu cérebro funcionar diante de missões como aquelas. E apenas pegou mais um cigarro, acendendo-o e tentando ignorar as prostitutas que se esfregavam em seu colo, preocupado apenas em vigiar a entrada da boate e em quem adentrava a mesma. A noite tornava-se cada vez mais obscura e caracterizada como tal conforme as horas iam passando, o piso fluorescente e as luzes estroboscópicas fazendo Louis xingar a si mesmo por não ter contado com a ajuda de um óculos escuro ou qualquer outra coisa que protegesse seus olhos. A música alta lhe incomodava, e os balcões lotados de bêbados gritando a letra das mesmas, também. No ápice da noite, já cansado de esperar pelo gângster — ficar ali, parado, alternando o olhar entre a porta de ferro cercada por brutamontes, e o DJ, ao fundo, animando a festa —, levantou-se do banco já marcado pela sua b***a, de tanto tempo que ficara ali sentado, desculpou-se com as meninas que antes tentavam satisfazê-lo com toda aquela típica sensualidade, e seguiu em direção à pista de dança. Não mais se importava com a multidão eufórica, e então, apenas entrou no ritmo da música e aproveitou a deixa para encarar e observar mais detalhadamente cada homem bem vestido e suspeito de ser Harry Styles. Claro que tinha uma vaga lembrança das fotos registradas na ficha criminal do mesmo, como um homem consideravelmente bonito (por mais que Louis detestasse admitir isso em relação a um criminoso), cabelos cacheados de cor castanha, mesmo que algumas fotos denunciassem um tom mais claro, olhos verdes e uma pegada ora rocker, ora indie. Mas nenhum dos homens ali apresentava tais características. Aquilo irritava Louis. Não satisfeito com o resultado de ter entrado naquele amontoado de gente, com mulheres vestidas em poucas roupas e homens aproveitando de tal fato para se entreterem, seguiu em direção às laterais da boate, onde estavam alguns balcões e barman's fazendo malabarismos com as bebidas. Sentou-se no primeiro banco em frente a um homem sem camisa e facilmente confundível a um gibi humano. Estava cansado, e sabe-se Deus com quais forças conseguiu pedir mais um whisky. Nunca fora de beber. Odiava beber. Seu único hábito r**m e mesmo assim evitado na maioria das vezes era o cigarro. Porém, de qualquer forma, era comum ficar nervoso e assim a crise de ansiedade lhe atacar durante missões a criminosos, ainda mais se considerando o fato de William ter ficado parado por tanto tempo, apenas computando as informações e aguentando Stan diariamente. Logo pediu mais um copo. Outro. Mais outro. Revirou os olhos e suspirou entediado, prometendo a si mesmo que o próximo seria o último, apenas por ainda estar sentindo a lucidez fluir por suas veias. Por sorte, a bebida nunca surtia muito efeito no organismo de Louis, e então, a ansiedade voltava. As luzes da boate tornavam-se cada vez menos atrativas — apesar de ele achar que, por ter bebido tanto, elas devessem ficar mais sensacionalistas e vibrantes. A música também continuava estrondosa, mas nenhum sinal de embriaguez lhe surgia. Era duro aceitar que sua intuição havia falhado, mas talvez Harry realmente não estivesse ali. E Louis Tomlinson não pode perder tempo. Girando o banco em 180 graus, com uma visão um pouco mais privilegiada à extensa área que pertencia à boate, usou o que tinha de melhor e mais útil por ser um agente especializado em casos como esses: a observação, olho clínico. À direita, uma extensão onde dançarinas faziam seu showzinho sujo, strip dance, enquanto homens e até mulheres jogavam-lhes dinheiro para que elas agissem com maior familiaridade aos decotes que vestiam. À esquerda, mais balcões de bebidas e portas corta-fogo que provavelmente dariam em um corredor lotado de pessoas se pegando. Mais ao fundo, os banheiros. E, finalmente, atrás da pista, duas escadas espirais com algum tipo de pigmento que as deixavam ainda mais fluorescentes que o piso. Oh, as escadas. Ele ainda não havia subido as escadas. Louis propôs que aquela seria a entrada para a área VIP, o último andar, o qual apenas os que realmente podem, entram. Claro. Como não pensou nisso antes? Onde mais o dono de tudo aquilo poderia estar? Sem hesitar e muito menos perder tempo, olhou o horário no visor do celular, marcando quase meia-noite, e calculou o precário tempo que teria antes que as pessoas começassem a se embebedar, e a saída da boate se tornasse ainda mais complicada que a sua entrada. Sequer preocupou-se em mexer muito as pernas, já que a multidão já tomava seu esforço, guiando-o em direção a uma das escadas espirais, onde o mesmo foi subindo de dois em dois degraus, até chegar a uma plataforma com dois seguranças — lê-se brutamontes —, que barravam um casal bêbado tentando pular as grades, inutilmente. Assim que encontraram os olhos do agente, típicos de um tira, entreolharam-se e não pensaram duas vezes antes de assentirem e abrirem passagem ao mesmo — afinal, sabiam identificar, mesmo de longe, caras ligados à polícia. Eram pagos para isso. Fizeram menção em ligar os rádios bidirecionais e certamente acabar com todo o plano do Tomlinson, mas esse fora mais rápido e, com o melhor dos melhores sorrisos sarcásticos, estendeu dois montes de uma bela quantia em euros aos dois, ainda assim se certificando se alguém em estado sóbrio estaria ali para ver tal ato. Claro, seria de extrema surpresa se os dois vagabundos não tivessem aceitado o dinheiro. Pelo visto, a segurança de Harry Styles não era tão qualificada assim. Chegando ao último andar, finalmente a área nobre de todo o império, apoiou-se no corrimão e sorriu debochado a toda aquela gente bêbada no andar inferior, ainda assim não encontrando Harry Styles em meio à pista bem mais acessível e com luzes ainda mais surpreendentes se comparadas à pista anterior. O som, agora na área mais privilegiada, já não era mais tão estrondoso, o que permitiu a Louis deixar acomodar-se num sofá mais próximo do balcão, com bebidas e pessoas mais comportadas, onde, surpreendentemente, pediu água e apalpou os bolsos da calça social, apenas certificando-se da presença do seu revólver; por sinal, de uso obrigatório, caso algum imprevisto.  Ficou cerca de alguns minutos assim, apenas de olhos fechados e aproveitando músicas R&B americanas — primeiras canções desejáveis da noite —, até que os anteriores murmurinhos que preenchiam e harmonizavam o clima noturno da área VIP se calaram. Simplesmente. Silêncio. Um silêncio assustador, que fizera Louis abrir os olhos repentinamente, as duas esferas azuis focalizando e deparando-se apenas com as quatro figuras que entravam ali, feito vampiros aparecendo misteriosamente no quarto de uma pobre mortal. Lado a lado, três indivíduos magnificamente jovens; o do meio, com um topete que fazia um belo contraste com os olhos escuros que quase se tornavam imperceptíveis ante a escuridão da boate; o outro, loiro e talvez o mais deslocado visualmente, já que a pose de durão e o nariz empinado pareciam apenas fachada se comparadas ao rosto angelical que tinha; o terceiro, claramente o maior e mais forte de todos, barbudo e de olhos cor de mel, porém, vazios. E logo atrás dos três, como se fosse o topo, e, ao mesmo tempo, a base da pirâmide... Ele. Jeans azul. Camisa branca. Logo de cara, um estilo peculiar que contrariava todas as imagens possíveis que Louis tinha sobre um gângster com toda aquela pompa da qual todos relacionavam ao Styles. De fato, não era um gângster clássico — daqueles que usam ternos caros e o cabelo puxado para trás com a ajuda de gel e todos esses adereços e pequenos detalhes que os tornam ainda mais intimidadores. Aquele era jovem, meio punk rock e, ao mesmo tempo, hipster. Os cachos puxados para trás, desordenadamente, pela headband de mesmo tom esverdeado que seus olhos maravilhosamente tinham. Por longos minutos, Louis perdera totalmente o controle de si mesmo. Como se as moléculas e átomos se perdessem do oxigênio, ou os elétrons parassem de girar ao redor do núcleo em órbitas, semelhante aos planetas descontrolando-se ao redor do sol. Naquele momento, pôde sentir a sensação da morte aproximando-se e fazendo eco enquanto isso. Não que fosse medo. Era algo mais forte, diferente e desconhecido... Uma conexão que fez seus olhos praticamente queimarem em um arrepio que percorria cada fibra de seu corpo, diferente de quando o mesmo reagira às acusações registradas na longa ficha criminal de Styles, há menos de 24 horas, quando ainda se preparava para viver o que viveria em Sheffield. Não era a reação esperada por ele, nem por ninguém testemunho de toda a história. Tanto que, quando se deu por livre daquele transe, por pouco não arrancou o revólver do bolso e disparou-o em si mesmo, para que parasse de pensar tanto — no inimigo —  e agisse. O tempo havia superado a sua capacidade de compreensão e inteligência à realidade e ao que acontecia no momento; olhando em direção à entrada da área VIP, os três garotos que acompanhavam Styles, provavelmente seus cachorrinhos, já haviam se separado e espalhavam-se pelos três cantos da boate, como um triângulo. Algo estratégico e inteligente, Louis tinha de admitir. A poucos metros de Louis, lá estava Harry: sentado num dos bancos giratórios em frente ao balcão onde antes Louis havia pedido um copo de água. Era o único ali, olhando para algum ponto fixo ante as luzes que circulavam atrás de si, na pista, pedindo uma dose dupla de qualquer coisa com álcool suficiente para apagar o resto de mais um de seus dias massacrantes. De súbito, tirou uma caixinha, aparentemente de bombom's, do bolso, mas depois surpreendendo qualquer um que estivesse olhando, já que dali saíra uma joia. E foi a chance que Louis teve para se aproximar. Quando Harry estava prestes a dar seu primeiro gole na bebida, sentiu aquela presença ao seu lado. Pensou até em ignorar, já acostumado com curiosos, e sem o mínimo de remorso em simplesmente estourar seus miolos caso o indivíduo ousasse aproximar-se da joia. Porém, assim como Louis sentira anteriormente, os planetas dentro de si descontrolaram-se ao redor do sol. Era uma sensação ainda mais excitante que a de observar mais uma das joias que lhe renderiam milhões. E então, assustado com tal sensibilidade a um desconhecido em que sequer batera o olho ainda, desviou o olhar da joia e encontrou os olhos azuis que, ao invés encará-lo de volta, prestava atenção na joia em suas mãos e chegava até a cerrar os olhos, como se, de fato, a avaliasse. — Está olhando o quê? — O Styles fuzilava o homem menor com aquelas íris esverdeadas ainda hipnotizadas por aqueles olhos de um extremo azul claro, não perdendo a pose de garoto mau. Louis, quando percebeu o homem diante de si, e que homem, o fitando, engoliu em seco e repetiu o mantra do porquê de estar ali. Afinal, era um policial. Um policial inteligente, profissional e sangue frio. Não tinha medo de ninguém. Ninguém o intimidava. Ele só estava ali porque iria acabar com a vida de Harry Styles. Apenas. Ao mesmo tempo em que repetia o mantra já tão mesquinho em sua cabeça, não pôde deixar de observá-lo mais de perto; o rosto, que por mais jovial fosse, tinha um semblante antigo, como se tivesse vivido por muito tempo e visto de tudo. Um piercing, claramente banhado em ouro, fazendo contraste, talvez o mais lindo que já vira, com a boca rosada e carnuda. As tatuagens que circundavam seus braços, os músculos apertados pela camisa branca, o jeans azul e rasgado nos joelhos, agarrando toda a pele de Harry. O Tomlinson estava ocupado demais o admirando descaradamente, e poderia ficar ali o dia todo, ora tentando decifrar as histórias de cada uma daquelas tatuagens, ora percorrendo os olhos por cada milímetro de pele exposta do gângster — sim, um gângster, seu maior inimigo, seu alvo, e, ao mesmo tempo, seu caçador. Porém, ouviu o mesmo limpar a garganta e o fitar de um jeito quase perfurante, fazendo-o ajeitar-se no banquinho giratório e voltar a encarar a joia na mão do maior. Hora de atuar. — Uh... Temos aqui uma joia falsa... — Disse finalmente, por pouco não deixando escapar o sotaque inglês, ao invés do francês. Por incrível que pareça, as palavras não soaram trêmulas, o que só incentivou o mais velho a prosseguir com a farsa e ainda aproximar-se do calor daquele corpo, ao mesmo tempo tão frio diante de si, esfregando a joia nos dedos e, sorrindo com razão, trazendo o resíduo de ouro falso até os lábios, lambendo o mesmo e olhando divertido para Harry. Harry, que àquele ponto já estava perplexo com tamanha audácia do desconhecido. Assustado também. Afinal, se com qualquer outro engraçadinho que ousasse tocar em seus negócios de forma tão lastimável, ele já teria acertado uma facada em cada um de seus fios de cabelo, e pronto. Mas com aquele era diferente. Não sabia o porquê, mas naquele momento só conseguia acompanhar cada movimento do pequeno atrevidinho a sua frente, desde os seus pequenos dedos até seu rosto de traços finos e delicados, finalmente à sua boca aparentemente tão macia e... Droga. — Nunca vi tão falso. Banhado a ouro? Uma porcaria. — Louis continuou, avaliando a joia por apenas mais alguns segundos antes de jogá-la à palma do Styles, com desdém, dando de ombros e pedindo um licor "de meilleure qualité". Sabia que havia acabado de mexer com o fogo. Mas quem disse que ligava? Estava apenas mantendo o profissionalismo... — O senhor, por acaso, sabe com quem está falando? — Praticamente rugiu, roubando o licor do mais velho e bebendo-o todo de uma só vez. Queria marcar sua posição. Mostrar quem era quem; quem mandava em quem. Mas Louis também era um ótimo jogador nesse jogo de "controle". Sabia usar as cartas certas, na hora certa. Não importava o quão perigoso fosse e o quão arriscado seria... Apenas fazia seu trabalho. Ganhava por isso, e, portanto, por que não fazer bem feito? Lento e gradativamente, aproximou-se do ouvido do maior até que seus finos lábios rosassem exatamente no lóbulo. Por mais que tentasse, não conseguiu resistir em aproximar também o nariz e, ainda mais devagar, inspirar a colônia cara que vinha daquela pele macia e misturava-se instantaneamente com o aroma do shampoo sabor morango... tão refrescante como a morte e doente como o câncer. — Sim, eu sei... Você é Harry Styles. E eu sou Louis Tomlinson. 
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