Acordei com o som irritante do despertador e, por alguns segundos, fiquei encarando o teto, tentando encontrar motivação para sair da cama. Levantei-me devagar, com o corpo ainda pesado de sono, e fui direto para o banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes e, com um suspiro, abri o guarda-roupa. Lá estava ele, o blazer preto, com o brasão da escola bordado no bolso.
Respirei fundo enquanto abotoava a camisa social branca, ajustando a gola antes de amarrar a gravata. O conjunto era completado por uma saia social escura e um cinto preto, que m*l me esforcei para apertar direito.
Peguei o moletom com "Westbrook" estampado, um par de meias brancas e calcei meus tênis Nike.
Joguei a mochila no ombro e desci as escadas correndo. O cheiro de bacon tomava conta da casa.
Na cozinha, Sidney já estava sentada à mesa, comendo cereal direto da tigela. Minha mãe, em frente ao fogão, contava algo para ela enquanto mexia ovos e virava fatias de bacon. Deixei a mochila no chão.
— Bom dia — murmurei, puxando uma cadeira.
— Olha quem resolveu sair do coma — minha irmã respondeu.
— Engraçadinha como sempre — retruquei, forçando um sorriso. — Vai ver eu só não acordei antes porque não ouvi você roncando no quarto ao lado.
— Eu não ronco, i****a.
Mamãe riu enquanto virava o bacon na frigideira.
— Vocês duas já começaram cedo hoje... Quer torradas, filha?
Acenei com a cabeça, ela me entregou um prato com quatro torradas.
Sentei-me à mesa, começando a comer uma das torradas, quando meu pai entrou com passos firmes e um sorriso.
— Bom dia, família — disse, colocando a maleta preta sobre o balcão da cozinha antes de se sentar à mesa. — Sidney me contou que o pneu da sua bicicleta furou ontem, Roxie.
— Sim, tá na garagem — respondi, com a boca cheia.
Meu pai olhou para mim e perguntou:
— Quer que eu te dê carona hoje?
— Quero sim. Valeu, pai.
Meu pai deu o último gole no suco de laranja, olhou para seu relógio de pulso e disse:
— Hora de ir. Vamos.
Ele se despediu da minha mãe com um beijo rápido, pegou as chaves do SUV no gancho ao lado da porta e voltou ao balcão para pegar a maleta. Eu me levantei, peguei minha mochila e a pendurei num ombro. Sidney já estava na porta com os fones de ouvido pendurados no pescoço. Ambas nos despedimos da nossa mãe.
— Até logo, mãe! — disse, já saindo.
— Tchau, mãe — repeti, ganhando um beijo rápido no rosto.
Minha irmã saiu na frente, como sempre, e eu a segui, ainda mastigando o último pedaço de torrada.
Sidney sentou no banco da frente e, antes mesmo de meu pai ligar o carro, já tinha enfiado os fones de ouvido. Eu me joguei no banco de trás, encostei a cabeça no vidro.
Primeiro paramos na escola da Sidney, um prédio moderno cheio de meninas de uniforme azul e branco que riam alto no portão. Ela saiu sem nem dizer tchau, só acenando com a mão antes de se perder no meio das amigas.
Depois, meu pai seguiu até a minha escola. O estacionamento já estava cheio de carros, e alguns alunos ainda fumavam escondidos perto da cerca, tentando disfarçar quando viram um professor se aproximando.
— Boa aula, filha — disse, estacionando e virando-se para mim com um sorriso.
— Valeu, pai — respondi, pegando minha mochila.
Saí do carro, pendurei a mochila num ombro e dei tchau com a mão.
Mal tinha fechado a porta quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim:
— Roxie! Roxie!
Era meu amigo, o Jason. Bom, ele não era exatamente meu amigo, a gente só se falava às vezes. Jason era um cara legal, mas tinha uma vida difícil. Os pais dele eram alcoólatras, e ele vivia sumindo da escola por semanas. Quando voltava, muitas vezes trazia um olho roxo ou marcas de dedos no braço. A gente nunca falava sobre isso, mas todo mundo sabia.
— Você não vai acreditar no que rolou ontem no "Buns & Beats" — ele disse, com aquele sorriso que só significava uma coisa: problema.
Eu suspirei.
— O que foi dessa vez?
— O Liam fez uma aposta com o Noah...
— Quem é Noah? — perguntei, meio desinteressada.
— Aquele é o meu primo, Noah.
Jason apontou para um garoto que estava de costas para nós. Ele usava uma jaqueta de couro desgastada e tinha o cabelo castanho bagunçado, como se tivesse acabado de sair da cama.
Quando o garoto se virou, meu cérebro parou.
Ele era muito bonito. Não no sentido comum, mas daquele jeito que faz você olhar duas vezes. Tinha olhos claros, quase cor de mel, e um sorriso maravilhoso.
— Ele é novato? — perguntei.
— Sim, começou hoje, mas chegou na cidade semana passada.
Noah estava rindo com um grupo de garotos, quando de repente me encarou. Ele sorriu, piscou e voltou a conversar.
— Qual foi a aposta?
— O Liam desafiou o Noah na queda de braço. Disse que quem perdesse tinha que andar pelado pelo estacionamento hoje à noite.
— E quem perdeu?
Jason me olhou com um sorriso.
— O Miller.
Putä que pariu. Eu não podia perder essa oportunidade de ver o Liam Miller exatamente como veio ao mundo.
— Roxie? — Jason cutucou meu braço. — Tá ouvindo?
— Claro, Jason... Liam, Noah e uma aposta i****a, eu ouvi — respondi, distraída, enquanto Noah virava para conversar com outro garoto, revelando uma tatuagem discreta atrás da orelha.
Jason deu uma risada:
— Achei que ia ficar animada com a oportunidade de ver o Miller peladão.
— Cala a boca, Jason. Vamos lá, senão vamos nos atrasar — revidei, começando a caminhar em direção à escola.
Mas, enquanto caminhávamos em direção à escola, eu não conseguia parar de olhar para trás.
Entramos na escola e, no corredor, encontramos o senhor Piter, o zelador, que reclamava do fato de algum aluno ter sujado uma parte do piso onde ele havia acabado de limpar. O lugar ainda cheirava a produto de limpeza, e uma mancha se espalhava pelo chão, como se alguém tivesse derrubado suco ou café ali.
— Olha só isso! — o senhor Piter resmungou, esfregando o pano com força. — Nem tem cinco minutos que limpei e já fizeram bagunça.
Jason e eu trocamos um olhar, tentando não rir da irritação dele, e seguimos em direção aos armários. O som metálico das portas batendo ecoava pelo corredor, acompanhado por vozes e risadas.