Chegando
AVISO 1:
Essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, lugares ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.
AVISO 2:
Este livro pode ter conteúdos sensíveis, como violência, tortura, abuso, uso de drogas, além de atos sexuais.
Dito isso, boa leitura!
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Davi
Esse não é o meu primeiro trabalho e acredito que não vai ser o último. Eu poderia dizer que com o passar dos anos eu já esteja acostumado, mas tem algo de diferente no dia de hoje. Se eu acreditasse em sexto sentido, até poderia desconfiar que o universo estava preparando algo para mim, mas sei que isso tudo é conversa fiada, pois não acredito em nada que não seja em mim mesmo. Não que eu não pense que exista uma força divina, mas sei que um policial disfarçado precisa contar com muito além da fé para sobreviver. De qualquer forma, já estou atrasado e ficar divagando enquanto tomo o meu café não vai adiantar em nada.
Assim que me apresento no meu QG, que é em um local totalmente separado dos outros policiais, já que minha identidade e dos outros colegas que trabalham infiltrados tem que ser extremamente guardada, pego a minha missão e escuto mais uma vez as orientações do meu supervisor. Eu e o Raul vamos nos infiltrar em uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, que domina praticamente todo o tráfico de armas no Brasil e levantaremos todas as provas possíveis para prender o chefe do morro e desarticular esse esquema gigante. Pode até parecer uma missão suicida, mas se a gente não vacilar, temos tudo para conseguir cumprir nossos planos e sairmos ilesos.
Depois de recebermos documentos novos, um pouco de dinheiro e roupas adequadas, fomos à estação e pegamos um ônibus e partimos rumo à Favela da Nave.
Quando já estávamos nos aproximando do nosso destino, percebi uma inquietação no Raul e com o olhar o repreendi. Eu sei que dava medo estar ali, praticamente sozinho dentro de uma missão gigante, mas seria muito pior para nós se a gente desse mole e descobrissem a nossa identidade, por isso, não dava mais para voltar. A partir daquele momento a gente não era mais policial, mas sim dois técnicos de informática viciados, que estavam em busca de trabalho para poder manter o seu vício. A gente sabia exatamente aonde ir e como fazer nos primeiros dias, já que arrumamos um emprego temporário no coração da favela. A gente ia arrumar os computadores de uma antiga Lan house e colocar tudo para funcionar, pois o chefe queria que as crianças da comunidade tivessem acesso à internet. Pode até parecer sorte, mas nossos centro de inteligência fica quase 24 horas por dia infiltrado em grupos de redes sociais e assim que surgiu essa conversa, eles lutaram até conseguir essa brecha. O nosso disfarce estava perfeito. Pelo menos, por enquanto. Eu não precisei me preparar muito, já que amo tecnologia e sou formado em Sistema da Informação, então, consertar e programar alguns computadores era tranquilo para mim. O Raul teve um pouco de dificuldade, mas aprendeu bastante no mês que teve para se preparar.
A gente chegou no bar do Ronan, um dos homens do Abutre, chefe do morro e que além de controlar a Lan house, também tinha alguns quartos para alugar, uma espécie de pousada no segundo andar, onde iríamos ficar nos próximos dias.
Assim que chegamos, tivemos o nosso primeiro desafio, pois, como era de praxe, o cara desconfiava da gente. Ele queria ter certeza de que a gente não era de algum morro rival ou até mesmo policial. Depois de nos encher de perguntas e m*l dar tempo para a gente responder, vi que o Raul estava ficando nervoso e quase nos entregando. Essa era a primeira vez que trabalhávamos juntos disfarçados e eu estava começando a achar que ele iria me colocar em problemas. Eu respirei fundo e então tomei a frente da situação. Depois de uma atuação digna de novela, o Ronan ficou mais tranquilo e finalmente nos mostrou o lugar que a gente ia trabalhar. Assim que olhamos tudo, ele nos levou para o quarto que eu ia dividir com o Raul e disse que antes do trabalho a gente iria ter que se apresentar para o chefe e só assim, se ele permitisse, a gente poderia começar.
Nós deixamos as nossas coisas ali e fomos para um lugar com o Ronan. Acho que a gente estava em uma das bocas de fumo, então, de repente, um homem forte, não tão jovem, mas com o olhar assassino e frio, nos disse:
ㅡ Então são vocês os técnicos de informática?
Vendo que o Raul travou, eu respondi calmamente:
ㅡ Sim, somos nós. Espero que a gente tenha a sua permissão para começar o trabalho com os computadores.
O homem então nos olhou e disse:
ㅡ Quero saber se posso confiar em vocês ou se terei que cortar o seu pescoço e o do seu amigo... Não sei se dois homens de boa aparência e que falam de forma correta estão de boas intenções na minha área. Vocês precisam me convencer...
ㅡ Desculpa, chefe, mas somos apenas dois amigos que fizeram escolhas ruins na vida e agora lutam para sobreviver.
ㅡ E quais seriam essas escolhas ruins? ㅡ disse olhando no fundo dos meus olhos.
Era agora ou nunca. Ou eu seria convincente, ou estava morto, então, mudando um pouco a estratégia, disse:
ㅡ Cocaína! Fomos expulsos de casa e agora rodamos por aí tentando sobreviver.
ㅡ Pelo o que eu sei, tem cocaína fora da favela. Tenho ótimos clientes nas faculdades e em outros lugares de riquinho ㅡ disse com o olhar desconfiado.
Então, dei a minha cartada final e respondi:
ㅡ As pessoas têm muito preconceito e sei que aqui no morro vou poder trabalhar sem ser julgado o tempo todo por um hábito que por sinal eu estou tentando parar.
ㅡ Certo... Vou dar uma chance para vocês. Não quero ser chamado de insensível, mas quero que vocês me provem que conseguem se controlar perto daquilo que abala vocês. Essa Lan house é um projeto da minha filhinha, se um de vocês não souberem se comportar perto dela, vão morrer. Não quero saber de ninguém doidão perto dela, certo?
Eu e o Raul concordamos, quase em um coro e então o homem nos disse:
ㅡ Hoje vai ter um baile na quadra. Se divirtam sem medo. Vou dar ordem para ninguém mexer com vocês, mas no meio da noite quero que vocês venham falar comigo. Vou ver se souberam se controlar.
Nós assentimos e depois da ordem, saímos da frente daquela imagem ameaçadora e voltamos para a espelunca do Ronan. Eu fiquei impressionado, pois não imaginava que o chefe do morro fosse um homem mais velho, além de demonstrar ser até bem culto.
O Ronan conversou muito com a gente, na verdade o cara não parava de tagarelar, o que já estava esgotando a minha paciência, no tudo, isso era um bom sinal, já que havíamos passado na primeira fase