Capitulo 01
FERNANDA NARRANDO
O despertador do meu celular vibrou em cima da mesa antes mesmo do sol nascer. Nem era um toque alto, mas foi suficiente para me arrancar de um sono leve e cansado. Abri os olhos devagar, sentindo o corpo pesado como se eu não tivesse descansado nada.
Fiquei alguns segundos olhando para o teto manchado do meu quarto, respirando fundo. Todo dia parecia começar igual. E, de certa forma, terminava igual também.
Suspirei e peguei o celular.
Cinco e quarenta da manhã.
Mais um dia.
Virei a cabeça automaticamente para o outro lado da casa, como se pudesse ouvir algum movimento vindo do quarto da Rafaela. Silêncio. A casa estava quieta demais.
Franzi a testa.
Ela ainda não tinha chegado.
De novo.
Sentei na cama e passei as mãos pelo rosto, tentando espantar o cansaço que parecia morar dentro de mim. Levantei e caminhei até a cozinha pequena, aquela mesma que eu limpava todos os dias tentando manter a casa organizada.
Desde que meus pais morreram, eu tinha assumido tudo.
Aos dezesseis anos eu deixei de ser filha para virar responsável por uma casa inteira.
Coloquei água para ferver e preparei um café forte. Encostei na pia e fiquei olhando pela janela da cozinha.
O céu ainda estava escuro, mas a rua já começava a ganhar vida. Algumas motos passando, gente indo trabalhar, e ao longe o som abafado de funk que provavelmente vinha de algum baile que ainda não tinha acabado. Nós morávamos perto do morro do PPG.
Balancei a cabeça.
Eu nem precisava perguntar onde Rafaela estava.
Tomei um gole do café e senti o gosto amargo descer pela garganta.
Eu sempre tentei fazer o melhor por ela. Sempre.
Quando nossos pais morreram, eu prometi para mim mesma que nada ia faltar dentro dessa casa. Trabalhei onde apareceu serviço. Mercado, faxina, salão… qualquer coisa que ajudasse a pagar as contas.
Tudo para que Rafaela não sentisse tanto a falta deles.
Mas minha irmã cresceu diferente de mim.
Enquanto eu aprendi a sobreviver, ela parecia querer viver tudo aquilo que nunca teve.
Baile, bebida, roupas caras, atenção.
Principalmente atenção.
Eu estava terminando o café quando ouvi o barulho do portão abrindo.
Suspirei.
Passos arrastados no quintal.
Alguns segundos depois, a porta da casa se abriu e Rafaela entrou.
O cheiro de álcool e fumaça veio junto com ela.
Minha irmã estava com um vestido curto cheio de brilho, maquiagem borrada e o salto na mão. O cabelo bagunçado e os olhos vermelhos denunciavam uma noite inteira sem dormir.
— Bom dia — ela disse, com um sorriso preguiçoso.
Cruzei os braços.
— Isso são horas de chegar em casa?
Rafaela revirou os olhos enquanto jogava o salto no canto da sala.
— Ai, Fernanda… começa não.
— Eu tô falando sério.
— E eu também. Se for começar avisa que eu ja volto pra onde eu estava.
Ela foi até a geladeira, pegou uma garrafa de água e bebeu direto do gargalo.
— Eu tava no baile.
— Eu sei muito bem onde você tava.
— Então pronto.
Respirei fundo.
— Rafaela, você não pode continuar assim.
Ela me olhou, já irritada.
— Assim como?
— Subindo o morro todo fim de semana.
Rafaela soltou uma risada curta.
— Ah, para. Você fala como se fosse o fim do mundo.
— Você sabe muito bem o que acontece lá.
— Acontece festa.
— E droga.
Ela deu de ombros.
— Relaxa.
— E tem bandido.
Rafaela apoiou o corpo no balcão e me encarou.
— Eles me tratam melhor do que muito homem trabalhador por aí.
A frase me atingiu como um soco.
Apertei os dedos ao redor da xícara.
— Rafaela…
— O quê?
— Você não tem medo?... - antes que eu terminasse ela me interrompeu.
— De quê?
— De se meter com gente errada.
Ela revirou os olhos.
— Errado é passar a vida toda sendo pobre e fingindo que tá tudo bem. Eu quero mais Fernanda e você não pode me dar isso.
Fiquei em silêncio.
Aquela conversa já tinha acontecido tantas vezes que eu já sabia como ia terminar.
Rafaela suspirou e caminhou em direção ao quarto.
— Eu vou dormir. Trabalhar igual você não é pra mim. Eu gosto do luxo, e sei bem quem é que vai me dar.
Ouvi a porta bater e fiquei parada na cozinha.
Olhei para a xícara na minha mão.
O café já estava frio.
Mesmo assim eu terminei de beber.
Algumas horas depois eu já estava vestida com o uniforme simples da loja onde trabalhava. Peguei minha bolsa e fui até o quarto da Rafaela.
A porta estava entreaberta.
Empurrei devagar.
Ela estava jogada na cama, ainda com metade da maquiagem borrada no rosto. O vestido da noite anterior estava amassado e o cabelo espalhado pelo travesseiro.
Dormindo profundamente.
Como se nada no mundo fosse problema dela.
Encostei na porta por um segundo.
Às vezes eu sentia vontade de sacudir ela.
Perguntar se ela não via tudo que eu fazia.
Se ela não entendia que eu estava tentando manter a nossa vida de pé sozinha.
Mas em vez disso, só suspirei.
Puxei o cobertor um pouco mais sobre ela.
— Você ainda vai me matar de preocupação — murmurei baixo.
Ela nem se mexeu.
Saí do quarto e caminhei até a porta da frente. Peguei minhas chaves e olhei a casa uma última vez antes de sair.
Mais um dia.
Mais uma batalha.
Tranquei o portão e comecei a caminhar pela rua.
O sol começava a nascer devagar no horizonte, pintando o céu de laranja. Algumas pessoas já estavam indo trabalhar, outras voltando de mais uma noite perdida.
Enquanto caminhava até o ponto de ônibus, minha mente não parava de pensar na Rafaela.
No morro.
Nos bailes.
Nas pessoas com quem ela andava.
Eu conhecia aquele mundo de longe o suficiente para saber que ele nunca terminava bem.
E, mesmo assim, minha irmã parecia cada vez mais afundada nele.
Respirei fundo e tentei afastar os pensamentos.
Eu só precisava continuar fazendo o que sempre fiz.
Trabalhar.
Sobreviver.
E torcer para que um dia Rafaela percebesse que aquela vida não levava ninguém para lugar nenhum.
Mas, no fundo, uma sensação estranha se instalava no meu peito.
Como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer.