1 — A Menina da Floresta
A Menina da Floresta
Dezoito anos antes.
A floresta estava silenciosa naquela noite.
O vento balançava as copas das árvores, espalhando o cheiro de terra molhada pelo caminho. A lua iluminava apenas alguns pontos entre as folhas, enquanto um homem caminhava sozinho entre as árvores.
O Alfa estava acostumado com aquela floresta.
Conhecia cada trilha, cada riacho e cada região onde sua alcateia costumava caçar.
Mas naquela noite havia alguma coisa diferente.
Seu lobo estava inquieto.
— O que foi? — perguntou mentalmente.
— Tem alguma coisa aqui.
O Alfa parou.
Observou ao redor.
Nada.
Nenhum animal.
Nenhum som além do vento.
— Sinto um cheiro estranho.
Ele respirou fundo.
Seu lobo estava certo.
Havia um cheiro diferente no ar.
Não era exatamente humano.
Também não era de lobo.
Era algo que ele nunca havia sentido antes.
— Vamos descobrir.
Seguiu o cheiro por alguns minutos, afastando galhos e descendo uma pequena encosta.
Foi então que ouviu um som.
Um choro.
O Alfa congelou.
Uma criança.
Ele acelerou os passos.
Quanto mais se aproximava, mais claro ficava o som.
Até que encontrou uma pequena menina sentada entre as raízes de uma árvore.
Ela era pequena demais para estar sozinha naquela floresta.
Estava suja, assustada e abraçava os próprios joelhos.
O Alfa se aproximou devagar.
— Ei...
A menina levantou a cabeça.
Seus olhos encontraram os dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu.
O Alfa esperava que ela gritasse.
Que tentasse fugir.
Mas ela apenas o observou.
— Ela está sozinha.
— Eu sei.
— Leve-a para casa.
O Alfa se ajoelhou diante dela.
— Onde estão seus pais?
A menina não respondeu.
Ele tentou novamente.
— Qual é o seu nome?
Silêncio.
Ela parecia não entender a pergunta.
Então o Alfa percebeu uma coisa.
Havia uma pequena marca próxima ao ombro da criança.
Uma lua.
E dentro dela, a cabeça de um lobo.
O olhar dele ficou preso naquela marca.
Seu lobo ficou completamente silencioso.
Pela primeira vez naquela noite, ele não disse absolutamente nada.
O Alfa tocou de leve a própria respiração.
Aquilo não era uma marca comum.
Ele já tinha visto símbolos de outras alcateias.
Conhecia histórias antigas.
Mas aquele símbolo...
Era diferente.
— Quem fez isso em você?
A menina continuou em silêncio.
Então estendeu uma pequena mão na direção dele.
O Alfa hesitou.
Depois segurou sua mão.
Ela estava gelada.
— Você está com frio.
A menina apertou os dedos dele.
E foi naquele instante que alguma coisa mudou.
Uma sensação estranha atravessou o peito do Alfa.
Seu lobo finalmente falou.
— Proteja-a.
Ele olhou novamente para aquela criança.
Não sabia quem ela era.
Não sabia de onde tinha vindo.
Não sabia por que estava naquela floresta.
Mas sabia que não poderia deixá-la ali.
— Você vem comigo.
Ele a pegou nos braços.
A menina imediatamente encostou a cabeça em seu peito.
E, pela primeira vez desde que havia entrado na floresta, o lobo dentro dele ficou tranquilo.
O Alfa começou a caminhar de volta para a alcateia.
Sem saber que carregava nos braços uma criança que mudaria sua vida para sempre.
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Quando chegou à alcateia, todos ficaram surpresos.
— Alfa?
Ele entrou na casa carregando a menina.
Sua empregada se aproximou imediatamente.
— Quem é essa criança?
— Encontrei na floresta.
Ela olhou para a menina e depois para o Alfa.
— Sozinha?
Ele assentiu.
— Não encontramos ninguém.
A mulher estendeu os braços.
— Posso pegá-la?
Antes que o Alfa respondesse, a menina apertou a camisa dele.
Ele olhou para baixo.
Ela não queria soltá-lo.
Por algum motivo, aquela reação fez seu coração apertar.
— Acho que ela quer ficar comigo.
Sua empregada sorriu.
— Então fique.
Naquela noite, a criança dormiu protegida pelos braços do homem que a encontrou.