Armando

1464 Palavras
Sentada no chão, desbloqueio meu celular. Tenho algumas mensagens sem ler desde a briga de hoje cedo. Passo pelas fotos dos contatos, nada me interessa. Não tenho vontade de responder ninguém. Estou triste, bem triste. Mas entre as mensagens, uma é do Armando. Coitado, eu fui embora da festa da Escola sem nem falar nada para ele. Gosto muito desse garoto, não quero que ele ache que o estou ignorando. Clico em seu chat e, antes de ler, amplio sua foto. Quando olho para ele me dá uma sensação difícil de descrever. É tristeza misturada com carinho. Fico um tempo observando sua imagem. Ele está apoiado num muro casualmente, com um cotovelo para trás, sorrindo. O Armando é tão aegre e bonito, eu nunca o faria feliz. Não quero estragá-lo com minhas misérias. Volto para o seu chat. Armando: "Oi, Lynn. Você não sai hoje? Se você for sair me avisa. Eu vou na sua casa te buscar para irmos juntos. Beleza?" 18:27 Já é meia noite. Essa mensagem já tem muito tempo. Começo a ligar para ele, de puro impulso. Depois de várias chamadas, tiro o celular do rosto, sem esperanças. Direciono o meu dedo ao botão vermelho e vejo que a tela do meu celular agora mostra os segundos, demonstrando que ele acaba de atender. ─ Alô, Armando? - pergunto, colocando o celular de novo no rosto, para ver se ele segue na linha, com timidez. ─ Hey. - Ele responde com um timbre doce e super afável. Brincalhão e carinhoso, de um jeito difícil de explicar. Escuto muito barulho no lugar onde ele está, gritos e gargalhadas escancaras de várias pessoas no que parece ser um bar. ─ Oi. - Sinto minhas bochechas queimando. ─ Você já está na rua, não é? - Rio fraco. ─ Desculpa por não ter respondido você antes. Eu estava com uns problemas em casa. ─ Espera um momento. - Ele diz, e sinto como ele abafa o alto-falante do celular com sua mão, sua voz se converte num sussurro abafado que, involuntariamente, arrepiou minha coluna e me deixou mais vermelha. ─ Ok. - Murmuro. O barulho das pessoas foi abaixando gradualmente. Parece que o Armando foi para um lugar mais calmo. ─ Que problemas? - ele pergunta, com firmeza. Suspiro profundamente, dolorida. ─ Eu me desentendi com os meus pais... - olho para frente, enquanto meus olhos brilham melancolicamente. ─ Você está bem? - seu timbre abaixa, e incorpora um tom ressentido. ─ Estou bem. - Respondo com pouco entusiasmo. ─ Hm... Essa vozinha não soou convincente. - Ele brinca, amável. Dou um risinho tímido. ─ Aonde você está? - Pergunta Armando. ─ Na rua. - Respondo, sincera. Ele fica em silêncio alguns segundos, apenas ouço como suspira baixo. ─ Na rua? - ele faz uma pausa. ─ Na rua, onde? Você está com alguém? ─ Eu estou sozinha. ─ Malvina. - Ele fica sério. ─ Você está sozinha na rua neste horário? Sério? Fico em silêncio, corando muito. Rio baixinho, me sentindo uma merda. Inferior. ─ E com uma mala. - Caçoo. Armando corresponde o risinho. ─ Fofa... - Ele diz, de um jeito arrastado e encantado. ─ Por quê? - sigo tristonha. ─ É fofo você rindo de algo triste. - Ele responde. Quando ele perguntou o porquê de eu estar "sozinha na rua neste horário" achei que ele nunca entenderia nada se eu explicasse. Agora ele acaba de me pegar de surpresa. ─ Me manda a sua localização. Eu vou ir aí te ajudar. - Ele completa, quase de imediato, mudando seu tom encantado para um mais sério, como se fosse uma barreira. Sigo relutante, não porque eu não queira, mas porque não quero incomodá-lo. É verdade que somos amigos, mas sei lá... O Armando deve ter as coisas dele para fazer. ─ Deixa, não precisa não. Eu vou dar um jeito. Você está na rua se divertindo. Não se preocupa, eu vou ligar para outra pessoa. Fica tranquilo, ok? E depois você me manda as fotos e me conta tudo na aula. - Digo, bem mimosa. ─ Não. Eu não confio em 'outra' pessoa. - Ele diz, meio sério, meio brincando. ─ Mandou? ─ O quê? - pergunto. ─ A localização. ─ Espera. ─ Ok. Tiro o celular da orelha e vou até o chat dele, lá lhe envio o lugar onde eu estou, pelo mapa. ─ Aí. Já recebi. - diz Armando. ─ Escuta, Lynn... - ele diz tão amável, que começo a sentir que ele realmente gosta de mim e quer o meu bem. ─ Eu estou um pouco longe. Como estávamos bebendo, eu não peguei o carro e vou ter que ir embora no metrô. Acho que eu vou demorar para chegar aí no centro uma hora. Me espera aí, ok? ─ Tudo bem. - Respondo, mesmo com vergonha de incomodá-lo. ─ Entra em um bar de preferência. Sai da rua. Ei, você promete que não vai se mover? Dou um risinho tímido. ─ Prometo. ─ Linda. - Ele ri baixinho, e grave. ─ Hm? - murmuro, corada. ─ Não, nada. Acabo rindo um pouquinho mais alto, ao mesmo tempo que ele. ─ Obrigada, Armando. - Sorrio labialmente, me encolhendo, queimando. ─ Já estou indo ao metrô. Fica aí paradinha, hm? - ele diz, carinhoso. ─ Se não eu vou ficar bravo! - e logo brinca, dando uma gargalhada gostosa. Começo a rir dele, espremendo meus olhos. ─ Tá rindo do quê? - ele começa a se fazer de nervoso. ─ Mm... Nada não! - exclamo e sigo rindo. ─ Mas você não me leva a sério mesmo, né? Eu vou ficar putinho se você sair daí. - Ele afirma, com um tom mais firme, ainda assim, sei que está brincando. ─ Mmmm... - caçoo. ─ Hehe. - Ele ri baixo, relevando. ─ Já entrei na estação. - Informa Armando. ─ Vem logo. - Sorrio. ─ Vamos ficar no celular até eu chegar aí. Ok? Estou com medo de acontecer algo com você. ─ Não exagera, Mando. - Respondo, sorrindo, mas feliz por sua preocupação. ─ Não é exagero. Você é muito linda. É perigoso ficar sozinha nesse horário. ─ Ok, tá bom... Eu vou entrar em algum bar agorinha mesmo. - Respondo amável. ─ Ah! - ele exclama, brincando. ─ Mas você ainda não tinha entrado?! ─ Não. - Rio. ─ Entrou? - Ele pergunta de novo, após poucos segundos, bem ansioso e nervoso. ─ Sim, estou num barzinho. - Respondo, fechando a porta do local atrás de mim. O lugar está cheio de pessoas de trinta a quarenta anos bebendo e se divertindo. E eu com essa mala na mão. Daqui a pouco o barman vai vir perguntar o que eu quero tomar e vou ficar constrangida de beber algo aqui sozinha. ─ Manda a sua localização de novo. - Armando pede, todo protetor. É fofo o jeito como ele cuida de mim. Me deixa tímida porque sou carente. Ele, sei lá, parece o pai ou a mãe que eu nunca tive. ─ Tá bom. - Respondo. ─ O que aconteceu com você? ─ É complicado... - respondo, olhando para baixo. Olho ao redor no bar. Já há senhores me analisando, abrindo sorrisos ladeados. Ai, que vergonha. ─ Você não quer falar disso? ─ Não... - suspiro baixinho. ─ Agora mesmo eu só preciso me distrair. Preciso que você me conte alguma piada cretina. - Armando começa a rir, assim que enfatizo a última palavra. Ele é consciente de que todo mundo acha ele um palhaço. Mas isso é só sua capa. ─ E rir de tudo... - murmuro. ─ Esquecer de tudo. - abro um pequeno sorriso. ─ Tudo bem. Nós não vamos falar de coisas ruins, eu prometo. Em vez disso vamos nos divertir à beça. Como se fosse o último dia das nossas vidas! - ele exclama, todo empolgado. ─ E eu vou cuidar de ti a noite toda. Hm? Sorrio, vermelha. ─ Você é maravilhoso. - Digo baixinho. ─ Mm... Haha. - Ele murmura e ri sem jeito. Apesar de sacana, aposto que ficou vermelhinho. ─ Eu vou ir para a estação do metrô para economizar tempo. - digo rapidamente. ─ Te espero lá! - exclamo. ─ Não, Lynn. Não! Fica aí parada! Quieta! - ele diz do outro lado. Desligo o celular no meio das suas petições, sorrindo. Saio deste bar onde todos os velhos nojentos estão me olhando, e vou caminhando pelo centro de Barcelona, com um sorriso enorme e esperançado. Dou passos longos e rápidos, praticamente correndo para a estação do metrô, me sentindo livre. Livre como um pássaro. Olho o meu celular quando chego à estação e vejo que há uma mensagem nova: "Estou chegando na linha L2, cuidado." Cuidado, cuidado. Sorrio. Obrigada, Armando. Por se preocupar tanto.
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