Sentada no chão, desbloqueio meu celular. Tenho algumas mensagens sem ler desde a briga de hoje cedo.
Passo pelas fotos dos contatos, nada me interessa. Não tenho vontade de responder ninguém. Estou triste, bem triste.
Mas entre as mensagens, uma é do Armando. Coitado, eu fui embora da festa da Escola sem nem falar nada para ele. Gosto muito desse garoto, não quero que ele ache que o estou ignorando. Clico em seu chat e, antes de ler, amplio sua foto.
Quando olho para ele me dá uma sensação difícil de descrever. É tristeza misturada com carinho. Fico um tempo observando sua imagem. Ele está apoiado num muro casualmente, com um cotovelo para trás, sorrindo. O Armando é tão aegre e bonito, eu nunca o faria feliz. Não quero estragá-lo com minhas misérias.
Volto para o seu chat.
Armando: "Oi, Lynn. Você não sai hoje? Se você for sair me avisa. Eu vou na sua casa te buscar para irmos juntos. Beleza?" 18:27
Já é meia noite.
Essa mensagem já tem muito tempo.
Começo a ligar para ele, de puro impulso.
Depois de várias chamadas, tiro o celular do rosto, sem esperanças. Direciono o meu dedo ao botão vermelho e vejo que a tela do meu celular agora mostra os segundos, demonstrando que ele acaba de atender.
─ Alô, Armando? - pergunto, colocando o celular de novo no rosto, para ver se ele segue na linha, com timidez.
─ Hey. - Ele responde com um timbre doce e super afável. Brincalhão e carinhoso, de um jeito difícil de explicar. Escuto muito barulho no lugar onde ele está, gritos e gargalhadas escancaras de várias pessoas no que parece ser um bar.
─ Oi. - Sinto minhas bochechas queimando. ─ Você já está na rua, não é? - Rio fraco. ─ Desculpa por não ter respondido você antes. Eu estava com uns problemas em casa.
─ Espera um momento. - Ele diz, e sinto como ele abafa o alto-falante do celular com sua mão, sua voz se converte num sussurro abafado que, involuntariamente, arrepiou minha coluna e me deixou mais vermelha.
─ Ok. - Murmuro.
O barulho das pessoas foi abaixando gradualmente. Parece que o Armando foi para um lugar mais calmo.
─ Que problemas? - ele pergunta, com firmeza.
Suspiro profundamente, dolorida.
─ Eu me desentendi com os meus pais... - olho para frente, enquanto meus olhos brilham melancolicamente.
─ Você está bem? - seu timbre abaixa, e incorpora um tom ressentido.
─ Estou bem. - Respondo com pouco entusiasmo.
─ Hm... Essa vozinha não soou convincente. - Ele brinca, amável.
Dou um risinho tímido.
─ Aonde você está? - Pergunta Armando.
─ Na rua. - Respondo, sincera.
Ele fica em silêncio alguns segundos, apenas ouço como suspira baixo.
─ Na rua? - ele faz uma pausa. ─ Na rua, onde? Você está com alguém?
─ Eu estou sozinha.
─ Malvina. - Ele fica sério. ─ Você está sozinha na rua neste horário? Sério?
Fico em silêncio, corando muito.
Rio baixinho, me sentindo uma merda. Inferior.
─ E com uma mala. - Caçoo.
Armando corresponde o risinho.
─ Fofa... - Ele diz, de um jeito arrastado e encantado.
─ Por quê? - sigo tristonha.
─ É fofo você rindo de algo triste. - Ele responde.
Quando ele perguntou o porquê de eu estar "sozinha na rua neste horário" achei que ele nunca entenderia nada se eu explicasse. Agora ele acaba de me pegar de surpresa.
─ Me manda a sua localização. Eu vou ir aí te ajudar. - Ele completa, quase de imediato, mudando seu tom encantado para um mais sério, como se fosse uma barreira.
Sigo relutante, não porque eu não queira, mas porque não quero incomodá-lo. É verdade que somos amigos, mas sei lá... O Armando deve ter as coisas dele para fazer.
─ Deixa, não precisa não. Eu vou dar um jeito. Você está na rua se divertindo. Não se preocupa, eu vou ligar para outra pessoa. Fica tranquilo, ok? E depois você me manda as fotos e me conta tudo na aula. - Digo, bem mimosa.
─ Não. Eu não confio em 'outra' pessoa. - Ele diz, meio sério, meio brincando. ─ Mandou?
─ O quê? - pergunto.
─ A localização.
─ Espera.
─ Ok.
Tiro o celular da orelha e vou até o chat dele, lá lhe envio o lugar onde eu estou, pelo mapa.
─ Aí. Já recebi. - diz Armando. ─ Escuta, Lynn... - ele diz tão amável, que começo a sentir que ele realmente gosta de mim e quer o meu bem. ─ Eu estou um pouco longe. Como estávamos bebendo, eu não peguei o carro e vou ter que ir embora no metrô. Acho que eu vou demorar para chegar aí no centro uma hora. Me espera aí, ok?
─ Tudo bem. - Respondo, mesmo com vergonha de incomodá-lo.
─ Entra em um bar de preferência. Sai da rua. Ei, você promete que não vai se mover?
Dou um risinho tímido.
─ Prometo.
─ Linda. - Ele ri baixinho, e grave.
─ Hm? - murmuro, corada.
─ Não, nada.
Acabo rindo um pouquinho mais alto, ao mesmo tempo que ele.
─ Obrigada, Armando. - Sorrio labialmente, me encolhendo, queimando.
─ Já estou indo ao metrô. Fica aí paradinha, hm? - ele diz, carinhoso. ─ Se não eu vou ficar bravo! - e logo brinca, dando uma gargalhada gostosa.
Começo a rir dele, espremendo meus olhos.
─ Tá rindo do quê? - ele começa a se fazer de nervoso.
─ Mm... Nada não! - exclamo e sigo rindo.
─ Mas você não me leva a sério mesmo, né? Eu vou ficar putinho se você sair daí. - Ele afirma, com um tom mais firme, ainda assim, sei que está brincando.
─ Mmmm... - caçoo.
─ Hehe. - Ele ri baixo, relevando. ─ Já entrei na estação. - Informa Armando.
─ Vem logo. - Sorrio.
─ Vamos ficar no celular até eu chegar aí. Ok? Estou com medo de acontecer algo com você.
─ Não exagera, Mando. - Respondo, sorrindo, mas feliz por sua preocupação.
─ Não é exagero. Você é muito linda. É perigoso ficar sozinha nesse horário.
─ Ok, tá bom... Eu vou entrar em algum bar agorinha mesmo. - Respondo amável.
─ Ah! - ele exclama, brincando. ─ Mas você ainda não tinha entrado?!
─ Não. - Rio.
─ Entrou? - Ele pergunta de novo, após poucos segundos, bem ansioso e nervoso.
─ Sim, estou num barzinho. - Respondo, fechando a porta do local atrás de mim. O lugar está cheio de pessoas de trinta a quarenta anos bebendo e se divertindo. E eu com essa mala na mão. Daqui a pouco o barman vai vir perguntar o que eu quero tomar e vou ficar constrangida de beber algo aqui sozinha.
─ Manda a sua localização de novo. - Armando pede, todo protetor.
É fofo o jeito como ele cuida de mim. Me deixa tímida porque sou carente. Ele, sei lá, parece o pai ou a mãe que eu nunca tive.
─ Tá bom. - Respondo.
─ O que aconteceu com você?
─ É complicado... - respondo, olhando para baixo. Olho ao redor no bar. Já há senhores me analisando, abrindo sorrisos ladeados. Ai, que vergonha.
─ Você não quer falar disso?
─ Não... - suspiro baixinho. ─ Agora mesmo eu só preciso me distrair. Preciso que você me conte alguma piada cretina. - Armando começa a rir, assim que enfatizo a última palavra. Ele é consciente de que todo mundo acha ele um palhaço. Mas isso é só sua capa. ─ E rir de tudo... - murmuro. ─ Esquecer de tudo. - abro um pequeno sorriso.
─ Tudo bem. Nós não vamos falar de coisas ruins, eu prometo. Em vez disso vamos nos divertir à beça. Como se fosse o último dia das nossas vidas! - ele exclama, todo empolgado. ─ E eu vou cuidar de ti a noite toda. Hm?
Sorrio, vermelha.
─ Você é maravilhoso. - Digo baixinho.
─ Mm... Haha. - Ele murmura e ri sem jeito. Apesar de sacana, aposto que ficou vermelhinho.
─ Eu vou ir para a estação do metrô para economizar tempo. - digo rapidamente. ─ Te espero lá! - exclamo.
─ Não, Lynn. Não! Fica aí parada! Quieta! - ele diz do outro lado.
Desligo o celular no meio das suas petições, sorrindo.
Saio deste bar onde todos os velhos nojentos estão me olhando, e vou caminhando pelo centro de Barcelona, com um sorriso enorme e esperançado.
Dou passos longos e rápidos, praticamente correndo para a estação do metrô, me sentindo livre.
Livre como um pássaro.
Olho o meu celular quando chego à estação e vejo que há uma mensagem nova: "Estou chegando na linha L2, cuidado."
Cuidado, cuidado. Sorrio. Obrigada, Armando. Por se preocupar tanto.