Na sala escuto a voz do Matias e do irmão dele, o Paulo, conversando sobre putas, drogas e negócios.
─ Preciso conversar com você.
─ Diga.
─ O Matias vai abrir um bar novo de garotas, e eu vou trabalhar lá de bartender.
─ E o meu irmão?
─ Ele fica com você, não é? - sua voz de altera.
─ Quais serão os seus horários?
─ Todos os dias, das sete da noite às cinco da manhã.
─ Fins de semana incluídos?
─ Óbvio.
─ Ou seja, eu vou ficar presa.
─ Eu já te falei mil vezes, Malvina. Enquanto você viver comigo você tem que me ajudar e cuidar do seu irmão. Você já não saiu ontem e ficou de gandaia e p*****a com esses seus amigos lixos, que não prestam e não vão te trazer nada de bom para a sua vida?!
─ Da última vez que você foi trabalhar com ele, ele não te pagou. Ou você já se esqueceu? Quando você foi cobrar ele te bateu. E ele te disse a mesma coisa que você está falando para mim: "você vive nas minhas custas, então não deveria nem reclamar".
Minha mãe fica em silêncio por alguns momentos.
─ É você quem decide, sua desocupada vagabunda.
Depois dessa, já não consigo me concentrar em estudar.
─ E se eu arrumar um emprego? Assim você não precisa dizer que eu sou uma carga financeira para você e eu posso arcar com meus gastos, e você não precisa trabalhar.
Já que às vezes ela se justifica dizendo que precisa me dar dinheiro.
─ Garota, você faz o que eu digo.
─ Ah, claro. Esqueci que você estraga todos os meus empregos. Fica difícil! Não é? Como da última vez, quando você foi na cafeteria onde eu arranjei trabalho dizer para o chefe que eu não precisava trabalhar e que você me dava de tudo.
Ela mostra uma cara bem nervosa.
─ Você só quer perseguir o Matias para ver se ele não vai se enrolar com nenhuma p**a. É por isso que você quer trabalhar lá.
─ Cala a sua boca! - ela exclama. ─ Eu preciso ficar atrás dele sim, se não ele arranja outra mulher.
Eu sabia. Ela pode até mentir que é pro meu bem, mas não é.
─ Como queira. Saia daqui, estou estudando.
─ Eu odeio você, garota. Você é mesmo a origem de todos os meus problemas.
─ Claro, como você quer me usar...
Ela sai do meu quarto e bate a porta antes de que eu acabe a frase.
Me deixando tremendamente nervosa.
Suspiro profundamente e decido dormir, já que não consigo mais me concentrar. Quando acordo depois de algumas horas, eles já não estão em casa de novo, mas o meu irmão sim.
Olho pela janela, me sentindo realmente presa. Começo a buscar ofertas de trabalho no celular e enviar o meu currículo para o máximo possível de pessoas.
E mais tarde, tenho uma crise de identidade sozinha no banheiro, às três da manhã, quando o meu irmão já está dormindo, bem cuidado e alimentado.
Estou pintando meu cabelo de roxo, de um jeito super desajeitado de propósito. Também acabo de picá-lo inteiro. Minha mãe vai me matar por ter estragado o meu cabelo de princesa Rapunzel da torre.
"Eu te odeio, você é a origem de todos os meus problemas".
A frase ressoa uma e outra vez na minha cabeça e acabo chorando.
Eu, que sou de pedra.
Esse tipo de declaração de amor, apesar de serem tão cotidianas, seguem me machucando.
Quando acabo de lavar o meu cabelo, vejo que a cor realmente funcionou. Eu o descolori, estraguei ele todo, está mais fraco e mais fino do que antes. Mas a cor está aí, um roxo claro vivo.
O meu celular começa a tocar e o atendo.
"Alô?"
"Oi, linda."
"Oi, André."
"Você não vai sair hoje?"
É sexta-feira e oficialmente Halloween. Todos os jovens e adolescentes estão por aí disfarçados, vivendo a vida nas discotecas. Todos que não tem um filho como eu. Hm. Agora entendo tudo. Minha mãe e meu padrasto devem ter saído para curtir o Halloween e deixado o meu irmão comigo. A vó dele não ajuda em nada.
Quem são os jovens da história? Eles, que já passaram dos quarenta, ou eu?
"Eu sou a Cinderela. Não posso, estou cuidando do meu irmão."
"Hmm... Entendi. Olha, Lynn. Parece que você está mal."
"Eu estou." Respondo.
"Tem alguma forma de eu te ajudar?"
"Acho que não, André. Mas obrigada."
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Talvez se você dissesse que você tem um namorado eles te dariam mais liberdade para sair."
"Acho impossível, mas talvez sim. Se houver outra pessoa de fora julgando o que eles fazem, eles ficam com vergonha. Isso funcionava com o meu ex."
"Por que você não diz para um dos caras da Escola ir à sua casa e fingir ser o seu namorado?"
André... Eu não digo por que não quero por nenhuma pessoa que eu gosto em risco. O meu padrasto é um cara perigoso e possessivo, tanto com a minha mãe, como com a empregada doméstica que sou eu.
"Sei lá."
"Hm... Bom, passa boa noite" escuto vários risos no fundo, ele já deve estar na rua.
"Se divirtam por mim."
"Pode deixar. Mas falta você, linda. Te amamos e vamos tirar muitas fotos."
Abro um sorriso ladeado, invejoso.
* * *
Casandro tem mesmo razão. Encontrar um trabalho em Barcelona não é tarefa difícil quando não se é muito exigente.
Hoje é sábado e já tenho uma entrevista por conta dos currículos que mandei ontem. Então eu fui lá ver no que dava. E eu consegui trabalho, por incrível que pareça.
Mas quando fui explicar em casa que não poderia ajudá-los sendo babá de domingo a domingo, aconteceu uma briga onde eu fui xingada e rebaixada a lixo.
Por isso estou com a mala feita, aqui do lado de fora, sentada num parque público, decidida a vazar daqui.
Minha mãe está crente que eu vou voltar, e eu decidida a não fazer isto.
Mas eu vou precisar de um lugar para dormir alguns dias.
Merda, está começando a chover.
Acho que vou ligar para algum amigo vir me buscar. Não quero incomodar a Elisa sempre. Ela já foi boa demais comigo.
Para quem eu deveria ligar agora?