V - JULIANA

1119 Palavras
Ele não respondeu às minhas mensagens, nem às minhas ligações. Fui dormir tarde esperando um retorno e, sinceramente, não consigo entender esses homens… Um dia parece que morre de amor por você e no outro te ignora com todas as honras. Eu já tinha dado um passo em direção a ele. Agora era a vez dele vir em minha direção. Minha mãe sempre disse que relacionamento é como uma dança. O segredo consiste na sintonia. Se cada um der um passo, fica harmonioso. Às vezes a gente até aumenta o ritmo, mas isso vai depender da música. No nosso caso, estava tocando uma valsa... Cheguei no escritório mais cedo do que eu costuma chegar na Lauder. Se eu continuasse desse jeito, teria que comprar uma plantação de pepino só para pôr nos olhos… O Dr. Miguel nos separou em quatro grupos de três pessoas. Fiquei com Anna e Maurílio e ganhamos a honrosa missão de fazer a defesa de grandes lojistas. Zilhões de processos parecidos e a defesa padrão já estava montada. A gente basicamente precisava atualizar o nome dos autores e ajustar os fatos. Não precisava ter cursado direito para fazer aquilo. Anna parecia uma índia e devia ter uns vinte e um anos no máximo. Ela era rápida na digitação e pesquisa. Era o primeiro estágio e ela estava super animada. Maurílio tinha mais experiência e foi muito atencioso com nós duas. Tinha estagiado em outros escritórios e na defensoria. Ele nos ensinou a usar o sistema do Tribunal, o que foi mais complexo que preparar as defesas. Eu não tinha tido tempo para estagiar, mas não me faltava disposição para aprender todas as coisas. Por isso fiquei me perguntando, como foi que consegui aquela vaga? Eu estava digitando quando me deparei com a figura do Lucas parado na minha frente. ― Oi! ― ele sorriu. ― Oi, Dra. Como estão as coisas por aqui? ― Está tudo bem, Dr. ― devolvi a formalidade, mas mantive o sorriso. ― Que bom! Imagino que esteja com o seu celular desligado. ― lembrei do aparelho e abri rapidamente a bolsa para pegá-lo. O Luciano devia estar tentando falar comigo. Graças a Deus! ― Eu tenho hábito de mantê-lo desligado durante o expediente. ― rio sem jeito, aguardando impaciente o aparelho ligar. ― Você pode mantê-lo no silencioso. ― ele olhou em volta e voltou a se dirigir a mim num tom um pouco mais baixo. ― Você conhece uma senhora chamada Renata? ― Sim. Por que? ― perguntei enquanto colocava a senha. ― Ela está tentando falar com você a um tempo. ― olhei para ele preocupada. ― Aconteceu alguma coisa com o Luciano? ― sussurrei preocupada e ele riu. Abri o aplicativo de mensagens para saber o que tinha acontecido com ele. ― Eu não acho que tenha relação com ele. Pelo menos não diretamente. ― não havia mensagem do Luciano, nem ligação… sorri sem graça para Lucas. ― Obrigada por me avisar. ― agradeci. Ele sorriu e saiu. Havia duas ligações de Renata e uma mensagem pedindo para eu comparecer com urgência no RH para formalizar meu desligamento da Lauder. Respondi que passaria lá na hora do almoço e foi o que eu fiz. Dispensei o convite para almoçar com o pessoal do estágio, para resolver meu passivo com o Grupo Lauder. Foi estranho pedir para ser anunciada e conseguir autorização para entrar na empresa que passei dois anos trabalhando. Eu mesma tinha cancelado meu livre acesso à diretoria. No quinto andar, assinei o termo de rescisão e deram baixa na minha carteira de trabalho. Esse mês eu iria ficar mais dura que p*u de t****o! Além de não receber o salário integral e a multa do FGTS, eu ainda tive que pagar o aviso prévio. Terei que apelar para meu santo e velho pai. Que boca, hein Liana? ― Eu pedi a ele para te liberar do aviso prévio, mas ele afirmou que não poderia abrir precedentes. Você acredita? ― Eu entendo, Renata! Eu devia ter me organizado melhor. ― Quem mandou eu ser impulsiva? ― Se você precisar de ajuda, me fala, Ju. O Luciano disse que eu não devia me preocupar, que você estava bem amparada financeiramente. Eu entendo que vocês estejam se relacionando, mas eu não acho legal depender do namorado, sabe? ― ela me olhava preocupada. Eu ri de lado. Ele devia estar falando do pagamento do contrato. Não deve ter visto os cartões no porta-luvas. Será que ele cogitou me pagar a multa para eu não ficar desamparada? Por mais que eu precise de dinheiro, não era justo. ― Eu não pretendo depender dele, Renata. De todo modo, muito obrigada pela oferta. Deixa eu aproveitar que ainda tenho um tempinho, para ir falar com ele. ― pisco para ela. ― Safadinha… ― saio rindo a caminho da diretoria. Dona Marlene abriu um sorriso largo quando me viu sair do elevador. Ou ela me adorava ou estava detestando a nova secretária. Eu apostaria na segunda opção. ― Como você está, minha querida? ― Estou bem, Dona Marlene. Como estão as coisas por aqui? ― ela estreitou os olhos para mim e mudou para um tom mais repreensivo. ― Você nos criou uma situação muito delicada, menina. ― Foi ela? ― a novata perguntou e olhando para mim indignada. ― Sinto muito. Não esperava que a moça fosse agir de uma forma tão…― Dona Marlene olha para algo atrás de mim e se levanta. Olho para onde ela tinha se direcionado e lá estava ele saindo do elevador. Lindo! Sério e elegante. Meu cubo de gelo favorito. Mordi o lábio inferior para conter a vontade de sorrir. Eu tinha esquecido como ele ficava lindo de terno. Ele me viu parada olhando para ele e eu não aguentei e sorri. Ele se manteve sério. Não misturava trabalho com prazer. Abaixei a cabeça com vergonha. Eu não estava me contendo nas calçolas. Queria muito beijá-lo e tudo mais que eu tinha direito. ― Dona Marlene, me acompanhe por favor. ― ele se dirigiu a ela de forma fria. Duro, como sempre fez. Não me cumprimentou, não retribuiu o meu sorriso, nem nada. Agiu como se não me conhecesse. Senti um soco na boca do estômago. Entendi que eu era a nova Laís. Logo teria um post it escrito “Juliana Medeiros - DESPACHAR”. Senti meus olhos se encherem de lágrimas e um nó se formar em minha garganta. Eu era um nada para ele. Só mais uma vítima dos Lauders. Respirei fundo para impedir uma lágrima que se formava escapasse e me recompus. Não esperei pela dispensa de Dona Marlene. Fui para o banheiro lidar com tudo o que eu estava sentido.
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