Draco Pov
Qual é o nosso limite moral? Não estou falando isso de ter um diabinho e um anjinho nos nossos ombros nos dizendo o que fazer ou ou baboseiras assim, estou falando de índole. Qual é a medida que usamos para dosar até quando pode mentir, omitir ou dizer a verdade a alguém?
Alguns certamente vão falar que a verdade é sempre o melhor caminho. Mas será mesmo? Uma sociedade totalmente franca seria marcada por pessoas sem filtros e sem empatia pra discernir se suas palavras vão ou não machucar o outro.
As vezes não queremos saber a verdade, pois ela é um fardo.
Então outras pessoas podem deduzir que pensar antes de falar é o melhor. Medir as palavras para contar meias verdades que preservem os outros da dor e nos livre da culpa. Mas isso não seria omissão? Usar de argumentos falaciosos? Manipular o outro?
Quem é você pra saber que aquela pessoa não irá saber lidar com a verdade? Quem é você para decidir por ela o que ela deve saber ou não e o modo como vai saber disso?
E ainda tem aqueles que irão dizer, então, que mentir nem sempre é errado. Entretanto, "Uma mentira branca" não é apenas uma mentira que na sua perspectiva de vida é pequena e insignificante, mas que pode impactar muito na vida da outra pessoa? Quem é você pra dizer quais são os padrões e limites de até onde se pode mentir sobre a vida do outro se a vida, gatilhos, emoções... são subjetivos?
E o que fazer quando a pessoa confia em você de corpo e alma e mesmo assim você se vê nesse abismo eloquente de querer fazer o melhor para ele, mesmo não sabendo como? Mesmo arriscando tudo... se decidindo por omitir.
Enfim, era mais ou menos isso que eu estava pensando enquanto tinha o maior tesouro do mundo dormindo nos meus braços.
Harry se enrolava em bolinha enquanto dormia, me usando de travesseiro.
Uma brisa amena e refrescante entrava pela sacada aberta, o que era perfeito para esfriar a minha cabeça e me fazer pensar, mas tornava o quarto meio gelado para o batatinha. E por isso eu induzia um pouco do meu poder para deixar a cama aconchegante o suficiente.
O ressoar baixinho do Hazz me dizia que estava fazendo o certo.
O certo... o que seria fazer o certo agora que voltei? Sei que preciso dizer a verdade pois mais cedo ou mais tarde ele vai saber. No entanto, na mesma proporção eu tenho medo. Medo que essa minha decisão por ele, pelo nosso futuro (isso se existir um nós oficial depois disso), abra um abismo entre a gente no lugar onde era pra haver a confiança.
Confiança é o tesouro mais difícil de se conquistar e o mais fácil de se perder.
Senti uma lágrima escorrer, tão atrevida e silenciosa.
Quando colocamos em escala, isso não é nada comparado ao fim do mundo, comparado a tudo que estamos passando... mesmo assim sinto que isso está me sufocando.
Pode não ser tão importante para o mundo, mas tem haver com o Harry. E só talvez ele seja o meu mundo.
Falar depois e assim condenar o futuro, ou falar agora e tentar concertar a burrada que tive que fazer?
Será que eu vou conseguir guardar esse fato para que o Harry continue feliz, mesmo que isso coloque um grande peso de culpa sobre mim? Ou será que eu devo contar?
Eu sei que ele é forte, mas tenho medo que ele tenha uma recaída. Antes eu do que ele, e sinto que isso não é apenas maneira de falar.
Deixei essas dúvidas e questionamentos reverberarem por horas afinco enquanto a madrugada e as estrelas se faziam presente. Me perdendo totalmente nos meus pensamentos até ouvir o primeiro suspiro alto do Harry, me fazendo temer por um pesadelo.
Mas ai o outro suspiro veio e percebi que aquilo não eram gemidos de dor, e sim de...
Harry estava tendo um sonho erótico.
Isso fez um humor sórdido me atingir. Eu queria estar que nem o Harry, calmo e tendo sonhos picantes... mas aqui estou, me lamentando sobre a bomba que vou jogar em nós sendo que nem existe um nós.
E isso é outra questão. Tudo o que eu quero é pedir a batatinha em namoro, fazer cumprir todas as promessas que fiz para ele naquele quarto de hospital na madrugada... Mas que escória eu seria se fizer isso sem contar a verdade? E quando eu falar do acordo, sei que vai estar tudo acabado.
Simples assim.
Harry continuou se remexendo na cama, gemendo e procurando um pouco de flexão do colchão contra o seu m****o, tudo ainda tomado pelo sono. Mas não fiquei muito tempo pra notar nada além pois levantei, fui até a janela, a fechei e depois sai do quarto. Tudo com a minha velocidade sobrenatural, mas também em silêncio para não acorda-lo.
No entanto, mesmo já no corredor eu ouvi em alto e bom tom (por causa da minha perfeita audição sobrenatural) o suspiro baixo e arrastado que o Harry deu:
- Dray...
Isso foi música para os meus ouvidos, e deveria ter sido deleite para a minha alma. Mas enquanto eu caminhava para o andar de baixo, tudo o que eu conseguia sentir era a minha consciência pesada.
Pelo bem da minha saúde mental e do meu dominador interno, fui para o cômodo da casa mais longe do quarto, a cozinha. Mas logo percebi a burrada que tinha feito ao ir ali...
Abri a geladeira e comecei a tirar tudo de lá de dentro. Fui até a dispensa e fiz o mesmo, ainda em estado de transe de tão pensativo.
As vezes acho que pensar é um fardo.
Coloquei as comidas na mesa da cozinha e me pus a olhar o banquete aleatório a minha frente, ainda inerte e aéreo.
Juro que tentei me impedir, tentei respirar e pensar em outra coisa como a Ginny diz pra fazer... mas não consegui. Mordida por mordida. Pedaço por pedaço. Comecei a comer tudo o que estava na minha frente.
Um misto de sentimentos estavam na minha mente e a bombardeavam até eu perder a razão. Alivio por estar e casa e todos estarem bem. Orgulho do Harry não ter tido uma recaída na ansiedade no tempo em que estive fora, e orgulho por ele ter tomado uma decisão tão difícil sobre o selo, sendo que até eu teria dívidas. Raiva pelo acordo que tive que firmar, e por precisar a chegar nesse ponto. Raiva do meu pai por me colocar nessa situação e pelos grifinórios idiotas que começaram tudo isso pra início de conversa. t***o por saber que Harry está lá em cima, gemendo meu nome e sonhando em como eu poderia lhe dar alívio...
E culpa por não ser tão bem estruturado como todos queriam que e fosse. Por não ser perfeito, apesar de ser quem sou e de ser filho de quem sou.
Não ser valente o suficiente pra ter aceito meu cargo no inferno a cinco anos mundanos atrás e por ter fugido como um covarde. Por estar perdido nessa coisa de apocalipse mesmo que todos me olhem como se eu soubesse o que fazer, como se soubesse como salva-los...
E por ser a pessoa mais incrível e bonita dos três mundos, e mesmo assim a mais perdida delas.
Mas o real gatilho foi o que o Harry falou assim que eu cheguei. Falando que confia em mim com tanta convicção e entrega... E na hora eu fiquei feliz, realizado, com o coração disparado com um sentimento reconfortante, e estava tudo perfeito.
No entanto, agora sozinho... nada é reconfortante. Nada está perfeito.
Então eu comi, cada garfada me sentindo mais sujo, mais inerte e mais sem controle. Aos poucos a comida foi acabando. Bolos, frango, biscoitos, saladas... normalmente por ser sobrenatural eu já tenho um apetite maior que o dos humanos por gastar mais energias e afins, mas isso era diferente, e uma parte consciente do seu cérebro sabia.
E esses é um dos motivos de eu ter uma relação tão contraditória com a comida mundana, é por isso que procurei a Ginny, e é por isso que preciso dela agora.
- Draco? Que horas são? - minha terapeuta resmungou do outro lado da linha, embriagada de sono.
Me mantive em silêncio perante o celular.
- Me conte o que aconteceu - Ginny já parecia mais desperta, e eu comecei a chorar e a contar tudo.
Nem as maiores barreiras do mundo ficam de pé sempre.
As vezes o meu poder se descontrolava um pouco, e posso ter queimado uma... ou dez almofadas, mas Ginny se mostrou receptiva a me ouvir, como sempre.
Ficamos quase uma hora conversando, e ela estava aqui quando aquela repulsa e arrependimento vieram e corri para o banheiro vomitar. Estava em ligação fazendo de tudo pra me fazer acalmar pra me tirar dessa crise.
Todavia, não apenas ela estava aqui, mas minha mãe também. Não sei que horas ela chegou no banheiro, ou como soube que eu precisava dela, mas elas estava aqui, afagando os meus cabelos enquanto eu regurgitava de novo e de novo, sentindo como se precisasse tirar todo o erro que comi, nem que fosse a força.
O piso do banheiro ao lado da privada estava rachado pelo fato de eu ter socado inconscientemente o chão pra tentar me acalmar, tentar parar de vomitar e apenas respirar...
Mas minha mãe nem se assustou, na verdade, ela continuou com o seu toque nos meus cabelos e costa, o qual era quase que mágico, era... reconfortante.
Como um apoio de mãe deve ser.
E algumas das mulheres que são rochas na minha vida estavam aqui... e sei que elas ficariam mesmo se tudo der errado, principalmente se tudo der errado. Eu não estava sozinho...
Quando fiquei momentaneamente melhor, Ginny me agendou para o primeiro horário da manhã, e minha mãe me deu banho. Lilith não teve medo de se molhar quando me colocou em baixo do chuveiro ainda de calça de moletom, e me ajudou mesmo quando minhas mãos tremiam e as lágrimas ameaçavam embasavar minha visão.
Ela saiu para eu me trocar, e depois ficamos conversando de assuntos aleatórios no meu quarto até eu ter forças para voltar ao do Harry. Ao ponto que quando fiz, os primeiros raios de sol já anunciavam o amanhecer do último dia de Fevereiro.
Entrei pela porta esperando vê-lo desmaiado de sono, talvez até com as calças melada... mas quando adentrei Harry estava encolhido perto da cabeceira da cama, sentado abraçando as pernas e parecendo pensativo.
Seus olhos estavam longe e foscos, como se refletissem todas as trevas e amarguras do mundo, mas de um jeito singelo e nada ameaçador.
Com certeza essa é uma imagem que eu poderia facilmente pintar dele.
Quando me viu, Hazz correu até mim e me abraçou quase me derrubando no chão. Não era um abraço como o de mais cedo quando cheguei, não, esse era de compreensão mútua, empatia, carinho, preocupação e... eu até arriscaria dizer amor, mas tenho certeza que não.
Me deixei levar por esse contato que eu necessitava tanto, sentindo algumas lágrimas voltarem a deslizarem pelo meu rosto. Me agarrei a ele, ao seu cheiro, a suas nuances, ao fato de seus braços estarem começando a ficarem mais fortes depois dos meses de treinamento, ou como ele fica fofo com o meu moletom que é o dobro do seu tamanho...
Me agarrei ao agora, ao meu batatinha.
E com isso percebi que do mesmo modo que eu precisava da minha mãe e da Ginny, eu também precisava disso do Harry.
Eu posso ter salvado ele no dia que nos conhecemos, mas sinto que agora eu também preciso e quero que ele cuide de mim. Que veja minha parte mais vulnerável, a qual tenho medo de mostrar a qualquer um na minha vida.
Pois, ao encarar suas esmeraldas, sei que ele compreende. Mesmo não sabendo do que se trata, ele me compreende.
- Quando estiver pronto, e se quiser... saiba que pode me contar. Saiba que eu estou aqui e pretendo ficar até que você me expulse. Posso ficar bravo, posso precisar de tempo pra respirar... mas vou continuar aqui. Não me assusto fácil - Sua voz era doce e convicta, de modo que só pude afirmar com a cabeça, mesmo sabendo que ele não ficaria.
Ele diz isso pois não sabe, mas quando souber... não vai ficar. Mas esqueci isso momentaneamente pra focar no presente, no meu batatinha.
Não me deixei pensar de como o Harry sabia que eu estava escondendo algo, ou como percebeu que eu tive uma crise... E tá tudo bem, isso eu não quero esconder dele.
Nos deitamos, e foi sua vez de me abraçar, e ele fez isso tão forte, que cheguei a cogitar que talvez ele tenha super força, ou seja eu que estou fraco. Deve ser.
Então que bom que hoje ele é forte por nós dois.
- Ved stjernerne, måske en dag vil du forstå, hvad jeg har gjort - Sussurrei.
Com certeza ele não entendeu, mas em vez de perguntar, Harry continuou a cantarolar uma melodia aleatória, enquanto um sentimento bom me invadia aos poucos, percorria minha pele, me preenchia por dentro, selava as feridas...
- Você não precisa - Disse virando a cabeça e admirando suas orbes quando notei que ele estava a usar o seu poder em mim.
- Draco, você me mantem aquecido e seguro. Deixa eu retribuir o favor darling.
A última palavra fez meu coração bater mais forte, mesmo que em um pulsar dolorido. Dei permissão, e Harry continuou a me acalmar com os seus poderes, fazendo uma melodia quase que mística ecoar e arrepiar minha pele.
Isso me fez pensar que talvez ele tenha sentido a minha agonia. Talvez ele tenha entendido o meu ataque não apenas por ser inteligente e sacar que estou escondendo algo, mas por literalmente sentir o meu desespero no meu distúrbio de convulsividade alimentar.
Afastei essas hipóteses e esvaziei a mente aproveitando o momento e a canção que me dava um p**a dejà vú, esse que durou até o sol estar mais intenso no céu, e nós termos que nos levantar. Eu para uma consulta com a minha psicólogo/ terapeuta, e Harry para a faculdade e a vida real de espião.
- Harry, uma hora você vai ter que me soltar. Já disse que estou melhor. Foi só uma noite r**m - Repeti depois que cuspi a pasta de dente quase que no cabelo do Harry pois o batatinha ainda estava me abraçando.
Na verdade ele está fazendo isso desde que acordamos, me impedindo de fazer minhas outras higienes pessoais além de escovar bem os dentes e colocar uma camisa.
Não quero que a primeira vez que ele me veja nu seja pra cagar.
- Não - Foi a única resposta dele com o rosto contra minha blusa.
- Harry! - Disse em tom de aviso.
- Não Draco, não foi só uma noite r**m. Sei que tem algo te incomodando, e que você entrou em crise por causa disso. Mas não importa, pois não vou te largar até te entregar nas mãos da Ginny. E depois disso vou voltar a ficar grudado em você até sentir que você está realmente bem.
- Vai fazer cosplay de bicho preguiça? Por acaso virei canguru? - Perguntei voltando para o quarto com ele ainda me abraçando, e tropeçando toda hora nos meus pés aliás.
- Se for preciso, vou sim. Sei como é triste passar por esses momentos sozinhos - Hazz disse.
Levantei o seu rosto pelo queixo para ver seus olhos. As vezes eu me esqueço o quanto ele sofreu com crises, talvez não como as minhas, mas tão ruins quanto, sempre sozinho. Sem uma mãe como a Lilith ou uma Ginny ao seu lado. Sem alguém pra lhe abraçar como ele fez e está fazendo comigo.
Então eu o beijei, passando pelo ósculo toda a minha gratidão, toda a minha alegria por ele está aqui, mesmo com a culpa e os pensamentos de ontem ainda vibrando em um canto escuro da minha mente.
Harry parecia nunca se cansar, nunca perder o fôlego nos nossos beijos, e isso me fascina muito. Mas separei o ósculo selando seus lábios algumas vezes antes de tomar impulso e levanta-lo, fazendo cruzar as pernas nas minhas costas, e os braços no meu pescoço.
- O que está fazendo? - Perguntou.
- Se vai ficar grudado em mim a manhã toda, é melhor eu te carregar se não é capaz de você tropeçar e me derrubar junto. Ou quer arriscar descer as escadas do jeito que estávamos?
Harry riu negando com a cabeça.
- Gosto da sua risada - disparei sem pensar.
- Sei disso - Ele disse convencido, me fazendo franzir o cenho pois nunca disse isso pra ele.
- "E Henry sorriu, de um modo que me alucinou em níveis estonteantes. Cada mísero dente do meu batatinha era perfeito. Sua risada? Uma das mais belas sinfonias do mundo, que deveria ser canonizada mesmo que não chegue aos pés dos seus gemidos" - Harry começou a citar tentando não rir.
A cada palavra meu rosto ia ficando mais vermelho. Isso pois eu reconhecia essas frases, reconhecia pois fui eu que as escrevi.
- Draco Malfoy não me contou, mas o Dean narrou isso muito bem em um dos capítulos. Sabe, em um perfil de um tal OPanFodaDoidoPorUmaBatatinha - Harry agora não tentava esconder mais as risadas.
Aquele merdinha adorável.
- Coisinha c***l e travessa. Se vamos entrar no assunto da fic que estou escrevendo, vamos ter que falar do fato de você gemer o meu nome dormindo - Joguei pesado fazendo as risadas dele cessarem na hora, e meu sorriso vitorioso crescer ainda mais.
- Voto perpétuo de silencio então. Mas não pensa que eu esqueci das coisas que escreveu - Declarou com um sorriso nada ingênuo e eu concordei animado.
Selamos o acordo com um beijo, e não me arrependo por termos nos empolgado um pouco.
Aqueles lábios são deliciosamente viciantes.
- Sabe, você deveria distrair mais a mente. Não vejo mais você pintar, treinar, jogar vídeo game ou ler como antes - Ele se lembrou quando estávamos passando pelos quadros que pintei no corredor. Verdadeiras obras de artes das melhores facetas da Slytherin, ou do Inferno.
- Não sobra muito tempo pra pintura e hobbies se você está tentando impedir que uns fodidos destruam a própria existência.
- Se eu arrumo tempo pra escrever, ir pra faculdade, ir beber na Hades, ficar grudado em você, e ainda ser um espião, você também arruma tempo Dray.
- Você consegue porque é incrível - E quase completei com "incrível de mais pra merecer o que eu fiz", mas fiquei quieto.
- E você não é? - Foi uma pergunta retórica que me pegou bem em cheio.
Ignorei essa sensação de querer desesperadamente que a vida volte para o eixo quando entrei na cozinha, onde todas as meninas estavam.
Eu hesitei quando cheguei naquele cômodo, com as lembranças da noite ainda bem vívidas. E acho que Harry sentiu isso, pois me apertou mais forte e nem questionou quando o pus sentado no balcão e o abracei por trás em vez de nos sentarmos a mesa.
Luna, Luana e Luara estavam em um papo empolgante sobre viagem no tempo, já minha mãe e Dora estavam na outra ponta, sendo que a mais velha estava dando conselhos pra ex elfo de como fazer novos penteados e arranjos com alguns lenços e turbantes para a cabeça.
- Bom dia - Disse chamando a atenção delas.
- Dia - Luna respondeu feliz.
- Meu irmão já teve o cu arrombado e por isso não está andando? Vocês não são tipo ricos? cadê a cadeira de rodas? - A irmã do Harry disse fazendo o Harry lhe dar dedo do meio antes de se lembrar que minha mãe está aqui e arregalar os olhos de um jeito que achei fofo.
- Não sua chatinha, o Harry só entrou no modo bicho preguiça pois, segundo ele, eu preciso disso - Resolvi não entrar em detalhes.
- Concordo. Meu cunhadinho é meio que o seu chá calmante, então melhor que já andem juntos pois aí você já fica 110% menos chato - Agora foi a vez da minha irmã implicar, mesmo assim vi no seu olhar uma pergunta silenciosa. Ela queria saber se eu estou bem.
- Luana, para de implicar com o seu irmão. E é bom saber que tem pessoas que se importam se ele está bem ou não - Minha mãe disse dando um olhar menos mortífero para o Harry, o que já é um avanço.
- Bom, já que não tem comida, que tal a gente comer em uma padaria? Depois eu te deixo no colégio Luara, e Luna, você também vai pra Hogwarts? - Minha irmã perguntou continuando a conversa do trio de Lua.
Me senti um pouco culpado por não ter mais comida. Ontem eu nem tinha percebido o quanto eu comi... faz tempo que não acontece algo assim, acho que uns bons três anos na verdade...
- Um passo de cada vez, e assim a gente sobrevive. Lembra? - Harry sussurrou no meu ouvido e concordei.
Os dias que se seguiram se passaram de vagar e meio melancólicos. Realmente um passo de cada vez e sobrevivendo.
Eu levantava depois de madrugadas longas de insônia e paranoias zelando o sono do Harry, mesmo que eu saiba que ele não dormia realmente. Na maior parte do tempo ele ficava acordado, seja pensando no que estou omitindo, seja vigiando pra saber se eu não vou ter outra crise.
Ai levantávamos, tomávamos café da manhã com as meninas, e eu o deixava na faculdade e ia para as consultas com a Ginny. Depois eu voltava pra casa e pintava. Passava horas pintando no meu quarto e recebendo chamadas de vídeo da Pansy e do Blaise pra me atualizar como iam as coisas em Hogwarts ou visitas ocasionais dos membros que moram no prédio com relatórios de missões.
Já sabemos que o quinto selo tem haver com Belzebu, não que isso ajude muito a saber que merda vai rolar. Na verdade, acho que o destino é um p**a palhaço que colocou o selo do príncipe da gula justamente quando voltei a ter problemas com a comida mortal.
Minha irmã normalmente passa as manhãs comigo. Deitada na minha cama me vendo trabalhar com o pincel na varanda em um quadro que não quero que ninguém veja ainda. A tarde ela ia a Hogwarts se encontrar com as outras Lu, justamente quando Harry chegava da faculdade.
Acho que eles se revezam para não me deixar sozinho ainda. Minha mãe quase sempre estava em casa também, o que gerava momentos bem embaraçosos de quando ela esquecia de bater na porta e acabava pegando eu e o Harry em uma sessão de amassos bem quentes.
Não, ainda não fomos muito adiante. Estamos indo de vagar, e sabemos que por mais que estejamos evitando, há um segredo entre nós que nos impede de continuar. Como aguilhões invisíveis ou algo assim.
Harry está me dando tempo pra contar, mas sinto os seus olhares quando ele pensa que não estou olhando. A sua curiosidade, o seu medo do que seja...
A tarde normalmente a gente treina aqui na cobertura mesmo ou temos aulas de história ("Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão destinados a repeti-lo" - George Santayana). Lutar combinando poderes, armas e foça física é um desafio gigante para o moreninho, que apesar de ágil e observador, ainda peca na previsibilidade e precisão.
Depois, costumo passar o início da noite jogando vídeo game, lendo ou assistindo algum filme com o pessoal que sempre invade a minha cobertura brotando do nada. Quando Remus, Sirius, Fred, Jorge, Theo, Regulus... não vinham e ficava apenas eu e o Harry, gostávamos de nos enrolar no sofá. Ele fazendo as tarefas da faculdade, e eu o abraçando enquanto jogava ou lia um livro.
Depois ou íamos pra Hades, ou o Harry ia para a cobertura do pai jantar e continuar a sua farsa antes de voltar de madrugada pra cá ou pro seu Loft com a Luara.
Com essa confusão toda de apocalipse eu real tinha esquecido o porquê havia comprado todo o prédio e feito com que moremos todos juntos. E passar essas primeiras semanas de Março nessa rotina mais calma e normal, me lembrou isso.
Me lembrou de levar a vida com mais calma, com menos pressão... viver, e não sobreviver.
E isso nos leva ao agora. Harry saiu com a Mione depois da faculdade, mas já deve estar voltando, minha mãe está lá em cima no quarto dela, Dora está na Ginny em um apartamento a alguns andares a baixo, e as Luas sumiram desde cedo.
Estava lendo "Corte de névoa e fúria" quando a campainha tocou. Se fosse alguém importante teria acesso a biometria da porta e já teria entrado, então tentei ignorar voltando a narração da Feyre. Mas quando o soar ecoou de novo, marquei a página com raiva e me levantei pra atender.
Odeio visitas.
- Tobias?!- Exclamei assim que abri a porta e o homem alto e tatuado na minha frente me deu um sorriso que eu costumava admirar quando vinha com algum pedido obsceno.
- Oi Draco. Posso entrar? - Já previa a merda de receber o meu ex ficante na cobertura. Mas se bem que eu nunca cheguei a terminar o nosso lance de fato. O tempo nos afastou, então achei que não havia necessidade.