Confiança

4928 Palavras
Draco Pov - Tobias?!- Exclamei assim que abri a porta e o homem alto e tatuado na minha frente me deu um sorriso que eu costumava admirar quando vinha com algum pedido obsceno. - Oi Draco. Posso entrar? - Já previa a merda de receber o meu ex ficante na cobertura. Mas se bem que eu nunca cheguei a terminar o nosso lance de fato. O tempo nos afastou, então achei que não havia necessidade. Me afastei pra ele entrar, decidindo aproveitar que ele estava aqui pra colocar um ponto final nisso. Ele começou a me explicar que se afastou pois a mãe ficou doente e ele teve que passar mais tempo cuidado dela. Disse que sinto muito e perguntei se eles precisavam de algo. Todos sabem que eu sou dono de uma parte do melhor hospital de Nova York. Mas ele disse que não, que não precisava de nada além de explicar o que aconteceu. - A gente ainda está bem? - Ele perguntou, e ponderei quais palavras iria usar exatamente pra isso. - Bem Tobias, nunca assumimos algo sério, então teoricamente nunca existiu um "a gente". Sinto muito pela sua mãe, mas não quero continuar com o que rolava antes. Ele ficou um tempo em silêncio, e espero que esteja processando. Mas bem que ele poderia processar rápido né, o livro estava realmente chegando na parte boa... Ele se levantou do sofá, e eu repeti o gesto pensando que ele finalmente iria em bora para eu poder voltar ao jogo, mas em vez disso... ele me beijou. Isso se você chama essa merda de beijo. Confusão e incredulidade me atingiram, e eu o afastei segundos depois, quase tendo ganas de o queimar vivo. Cara, eu acabei de "terminar" com ele, e além disso o cara enfiou o consentimento no cu foi? No entanto, antes de eu conseguir expressar em palavras a ira que senti, uma voz que conheço muito bem falou atrás de mim: - Boa tarde - Harry disse nada agradável. - Hazz, eu posso explicar... - Tentei intervir pois sei como essa situação pode parecer. - Não precisa. Estarei no meu quarto, assim que der sobe lá por favor - Ele parecia até que calmo, mas não consegui o avaliar muito bem antes dele subir. - Draco desculpa... eu não sabia que você e ele... - Tobias começou uma desculpa esfarrapada. - Você deveria ter respeitado quando eu disse que não rolaria mais nada entre nós por respeito a mim, e não pelo fato de eu já ter outra pessoa. Agora sai da minha casa antes que se arrepende amargamente por ter cruzado o meu caminho - Fui grosso enquanto mil e uma coisas e preocupações giravam na minha cabeça em relação ao Harry. Assim que Tobias saiu, em menos de um segundo já estava no batente da porta do quarto do Harry. - Não é nada do que você está pensando, ele que me beijou... - Comecei a explicar afoito. - E você acha que eu não sei? Não sou uma protagonista adolescente de livro i****a Draco. Sou adulto e entendi perfeitamente o que aconteceu lá em baixo - Harry falou com as narinas dilatadas e respiração descompassada enquanto andava de um lado pro outro do recinto. - Então porque está assim? - Perguntei cruzando os braços e o avaliando. - PORQUE, JÁ SE PASSARAM SEMANAS, SEMANAS DRAY. Acabei de perceber lá em baixo, que eu não duvidei de você nem por um segundo, sendo que nem temos nada sério. Você poderia muito bem está metendo a sua língua na boca daquele gostoso tatuado pois não somos namorados e não falamos nada de exclusividade, mas nem por um momento eu pensei que esse fosse o caso. Eu confiei em você, confio e confiarei. Mesmo você me escondendo algo por semanas. - E? Onde você quer chegar? - Sei que a raiva que estou sentindo não é realmente minha. Harry está irradiando dele mesmo, mais isso está me deixando agitado, mesmo que eu não queira. - O que eu quero dizer é: eu confio em você, mas você confia em mim? Cada um tem o seu tempo, e eu entendo isso. p***a, como eu entendo, e por isso não espero que me conte tudo pessoal seu agora. Tudo bem você dizer sobre isso do transtorno alimentar depois. Tudo bem você ir se abrindo aos poucos que nem estou fazendo com você, mas você sabe como eu detesto mentiras. Eu vivi em uma mentira a minha vida toda e estou cansado. CANSADO. Então Draco, se você não confia em mim pra dizer algo importante, que pelo jeito tem haver comigo, acho melhor a gente parar por aqui. Confiança não é algo pra ser unilateral. Porra. Eu queria gritar pra ele que confio nele. Confio mais do que acho saudável, mais do que eu achava que era possível confiar em alguém que conheço em tão pouco tempo. Eu queria gritar que estava tentando fazer o certo pra ele, pois me importo. Me importo de mais, c*****o. O olhei fundo nos olhos, tentando criar coragem. Tentando eternizar na minha memória os sentimentos de carinho em seu rosto que aparecem por baixo da raiva, os quais ele nunca mais vai direciona-los a mim depois de agora. Os tons de seu olho, lábios, bochecha. Sus cílios compridos, tom de pele e como os raios do por do sol que entra pela sacada brincam com essas nuances formando a maior obra de arte que já vi. Eternizar da memória o Hazz, o meu batatinha. Harry Pov - Você quer saber a verdade, Harry? Então aqui vai a verdade: Eu tive que fazer um trato com o meu pai pra ele e os outros príncipes do inferno aceitarem serem a p***a do plano de contingência do apocalipse. Draco disse tudo tão expressivo, tão lívido... que fiquei paralisado. Em completo choque. Ele me contou a verdade, ou pelo menos está me contando, e por mais que eu queira ouvir... medo me corrói por dentro, dilacerando víscera por víscera. Me esfaqueando e prensando o mundo contra o meu coração. O mesmo medo que vem me corroendo nas últimas três semanas, desde aquela noite que foi de maravilhosa a fática em minutos. - E qual é o acordo? - Perguntei cambaleando para trás até me sentar na minha cama, como se realmente precisasse de ajuda para permanecer sem desmoronar. Draco continuou de pé, andando de um lado para o outro como se repassasse as palavras na mente. Obvio que consigo vê o quanto ele está nervoso, o quanto está... abalado. Acho que ter pais filhos da p**a que só ferram o nosso futuro é algo que temos em comum. Além da beleza, claro. - Draco - Exigi mais uma vez, e ele levantou o olhar me encarando. Havia tanta coisa pra se ler naqueles olhos... uma imensidão azul e turva como a parte mais profunda de um oceano. E tão sombria como. - O acordo consiste em duas principais coisas, podemos chamar de cláusulas. A primeira é eu voltar e governar o inferno quando impedimos o apocalipse. O que já era de se esperar, já que a algum tempo Lúcifer quer me colocar no comando pra poder finalmente fazer o que ele quiser com a sua "aposentadoria". Isso era uma das possibilidades que rodava na minha cabeça toda vez que eu pensava no assunto. Previsível. Algo doloroso e um alvo no nosso futuro junto, mas algo que já era deduzível. No entanto, no fundo, bem lá no fundo eu sabia que não era apenas isso, sempre soube que teria mais coisas... que não seria tão simples assim. - E a outra... é você - A voz de Draco era quase inexistente, mas seus olhos estavam arregalados e úmidos de lágrimas. - Como assim eu? Meu coração estava desparrado, e eu usava todo o meu resquício excedente de consciência pra não deixar o meu poder se descontrolar. Pra não ter um ataque. Por que o universo não pode me deixar em paz? Ele não vê o quanto eu estou cansado de sofrer? Cansado... - Sua lealdade, sua ajuda, seus serviços... ao inferno - Draco completou. Era como se tivessem socado minha barriga e eu não conseguisse respirar. Tudo saiu de foque, e apenas um saco de pancadas não seria o suficiente para eu descarregar a tempestade de emoções represada dentro de mim. Acho que Draco percebeu isso, pois tentou vir até mim na cama, se aproximando a passos apreçados, mas por reflexo me afastei. Levantei pelo lado contrário e quando Draco tentou me alcançar de novo, coloquei ainda mais distância entre a gente. E eu vi como se tivesse vendo o meu próprio reflexo no espelho, como essa recusa quebrou o loiro por dentro. Mas eu também estava quebrado. Agora sei que coisas quebradas não se jogam fora. Todavia, isso não signifique que elas deixam de estar quebradas. - Explica. Por favor Dray, explica - Eu não sabia que estava chorando até senti o gosto salgado em meus lábios. - Lá em baixo eles sentiram o seu poder, além de terem ouvido boatos do garoto humano com essência sobrenatural... Lúcifer é um colecionador e um visionário que sempre gosta de ter vantagem, e para ele você garantirá isso - Draco inspirou antes de mirar as cortinas e as fazer entrar em chamas. Ignoramos o fogo enquanto ele continuava com ódio e desgosto nítido na voz - Ele quer ter certeza que algo poderoso como você esteja do lado do Inferno. - Você vendeu a minha alma ao seu pai? - Minha cabeça girava. - Não! Obvio que não Hazz! Sua alma é sua... mas enquanto você viver, e lembrando que não sabemos se você é imortal ou não, mas enquanto você viver terá que tomar partido do inferno, que nem eu. Terá que apoiar a decisão do comandante, seja meu pai, ou eu no futuro. - Então você não vendeu minha alma, só minha liberdade de opinião, de decidir pelo o que eu devo lutar, do lado de quem devo ficar e com quem devo concordar - Raiva preenchia meu corpo ao lugar do medo. Como ele pode?! Mesmo sabendo o quando me custou ser independente, o quanto foi penoso... O quanto eu sofri até acreditar em mim mesmo, no meu potencial, e que eu mereço escolher... E no final ele tirou esse meu direito. - Como? Como fez o acordo se eu nem estava lá? - Minha voz estava mais grave, banhada de mágoa. - Eu tinha o seu sangue... para os pactos do inferno só isso basta. Draco tentou se aproximar de novo quando tive uma crise de riso, que era mais de desespero e incredulidade. Mas a bolha de poder semi-invisível que eu projetava a minha volta o impediu de avançar, o que só o fez me olhar ainda mais desesperado. Os pequenos raios azuis e roxos que ele me ensinou a usar para não terem apenas um impacto mental, mas também físico, agora estavam me protegendo... dele. - E como você tinha o meu sangue? E por que o levou pro Inferno se não tinha intenção de fazer isso desde o início?- Perguntei. Eu sei que ele não faria por m*l, não me condenaria se tivesse outra maneira de fazer os príncipes aceitarem a parceria... mas nesse momento eu duvidei de tudo. De cada palavra que ele me disse, de cada nuance dele que eu disse pra Lilith que me fizeram confiar em seu filho. As vezes é difícil continuar confiando. Discernir o que é verdade ou o que é mentira, porque no final das contas: todo mundo pode trair todo mundo. E eu me esqueci disso. Me deixei levar, abaixei a guarda... dei o meu salto de fé. Não sei mais se valeu a pena. E Draco percebeu isso, era nítido em seu rosto o desespero, o medo... DE relance vi que suas mãos tremiam ligeiramente ao lado do corpo, mas não me atrevi desviar o olhar do dele, mesmo que isso partisse o meu coração. - Peguei um dos vidros que coletaram de você no hospital quando você ficou em coma. E não, eu não levei o seu sangue pro Inferno. Por favor Hazz, acredita em mim... eu não queria isso. Quando meu pai propôs o acordo eu tentei tirar essa parte, falei que faria qualquer coisa, literalmente qualquer coisa em troca de você não se envolver nisso... E esse foi um dos motivos pelo qual demorei tanto lá em baixo. Tentei barganhar... mas não sou meu pai, e ele vence, pois ele que inventou esse jogo. Quando finalmente cedi, Luana usou os poderes dela pra transportar o seu sangue do meu cofre aqui de casa para o inferno, e ai eu assinei por você. Assinei mesmo sabendo que nunca me perdoaria por isso. As palavras de Draco eram como balas sendo atiradas contra mim, me dilacerando e me destruindo, e acredito que fazendo o mesmo com o loiro. Eu não sabia o que pensar, na verdade, nem sabia se ainda tinha essa capacidade. - E por que não me contou antes? - Não queria que você carregasse esse fardo. Sei que durante o dia você finge bem, aguenta toda essa novidade de sobrenatural e tenta se adaptar... mas você esquece que eu estou lá quando você tem os seus pesadelos. Quando todo esse nosso mundo fica de mais para você. Não sei se meu pai vai pedir pra você fazer algo, mas essa espera... sei que faria, e fará você enlouquecer. Só queria te proteger. - Eu pensei que protegíamos um ao outro - Essa foi minha única resposta antes de eu me por a pensar. E mil coisas horrendas passaram pela minha mente. Mas ai olhei para o sobrenatural a minha frente. Um dos seres mais poderosos do mundo e que pode fazer coisas que todos acham impossíveis, mas que estava tremendo por puro pavor da minha reação ao que ele tinha feito. A escolha que ele tinha feito. E eu poderia culpa-lo e chama-lo de monstro por ter tirado essa minha liberdade... Poderia ter permitido que cada um dos pensamentos e paranoias que rondavam a minha cabeça agora criarem raízes e abrirem um penhasco entre nós. Eu poderia muito bem repensar tudo, me martirizar por ter confiado nele desde o início, e cismar que ele fez isso de propósito, pra me magoar, me ferir, pra me reprimir... Mas não seria verdade. Nenhum desses pensamentos. No tempo em que ele esteve fora eu também aprendi algumas coisas. Ao tomar a decisão de permanecer um espião as custas da demônio Mag... eu finalmente entendi o quanto as escolhas são difíceis, e suas consequências podem nos abalar para sempre. Pessoas como eu e o Draco temos o potencial pra fazer as coisas que fazemos para o mau, mas na verdade fazemos porque não temos outra alternativa. Fazemos pois é a opção "menos pior", e sofremos com as consequências. Um "monstro" não estaria tão abalado quanto o Dray a minha frente. Um "monstro" e alguém que não se pode confiar, não estaria sofrendo com a eminencia de outro ataque de bulimia. Não somos os monstros, apenas pessoas/seres que não são perfeitos, e que erram, mas tentando acertar. - Apague o fogo do meu quarto antes que ele queime minhas coisas. E eu vou dormir no seu pois essa fumaça daqui vai me fazer passar m*l - Disse simplesmente antes de ir ao closet e pegar uma muda de roupa e uma toalha limpa. O fogo que Draco tinha disparado contra a cortina agora se alastrava pelos móveis de madeira antiga, que aposto que amanhã mesmo vão ser substituídos por novos. No entanto, o loiro me seguiu com o olhar em vez de apagar as chamas. Me olhando como se não entendesse o que eu estava fazendo. Como se eu soubesse o que estou fazendo. - Vou tomar um banho na sua banheira, pois se é pra chorar eu prefiro que seja lá - Disse cansado e tentando fazer com que o meu nariz parasse de escorrer. - Não está bravo comigo? Não vai embora? - Draco parecia incrédulo, mesmo que um brilho de esperança tenha nascido em seu rosto. - Não, com certeza eu estou furioso com com você, mas não estou afim de ir embora. Preguiça. Ele percebeu o que eu queria dizer com isso, e por enquanto era tudo o que eu poderia oferecer. Draco não é um monstro, mas me magoou. E essas coisas deixam raiva e ressentimento que só o tempo pode dissolver. - Apaga o fogo. E nossas irmãs e a Luna falaram que vão ficar em Hogwarts junto com os gêmeos essa noite. Só pra você saber - Minha voz ainda guardava dor e era baixa como um sussurro. Sai e fui para o quarto do Draco, logo em seguida para o seu banheiro. Peguei os sais que pensei serem mais caros, esperei a água esquentar e mergulhei naquilo que parecia mais uma piscina de tão grande. E como tinha dito, comecei a chorar. Tudo estava tão em silêncio que era fácil ouvir os meus pensamentos, meus soluços, minha dor... Eu posso não culpar o Draco inteiramente pelo o que ele fez, mas não quer dizer que não estou com raiva dele, de Lúcifer, do destino... Fugir e correr para longe não irá mudar o fato que agora eu me aliei a um lado. Que terei que fazer coisas que talvez não concorde se for pedido para que seja feito. Sacrifícios... se para vencermos o apocalipse eu tiver que virá o lacaio de Lúcifer até Draco assumir, eu farei. Farei pois Draco também fará o sacrifício de assumir um reino ao qual ele não se identifica. Sei que ele ama o seu reino... mas nunca desejou governa-lo. Vejo o modo como ele fala de Nova York e da Slytherin, e sei como isso é diferente de quando ele fala do Inferno. Ele pode amar lá, mas aqui é o seu lar. E agora nós dois estamos presos ao inferno. Senti o estômago embrulhar só de pensar em como Lúcifer me vê. Um brinquedinho novo e poderoso, uma vantagem, algo propício de se controlar... Quase podia senti os pesos dos grilhões nos meus pulsos. Então eu chorei até a água da banheira ficar fria e as espumas sumirem. Chorei até que todo o medo e a dor escoassem pelo ralo junto com as sujeiras do meu corpo. Chorei até me lembrar de quem eu sou, e de tudo que já passei. Lembrar que não irei deixar eles ganharem, não importa se o "eles" são grifinórios, o inferno, o apocalipse ou o c*****o a quatro. Eles não vão me dobrar pois eu não vou desistir. Não quando eu mereço mais. Quando quero ser mais... Por favor, me deixem ser mais. Sai do banheiro já com um moletom fresco propício para a primavera. Pensei em descer e ir comer algo, mas toda a raiva, todo o medo... eu estava exausto. Totalmente exaurido mental, física e emocionalmente. Além de um sentimento amargo ainda estar em meu peito. Uma sensação de sufoco... Taquei o f**a-se e deitei em meio aos cobertores do Draco, me deixando levar por aquela fluidez do pré-sono que nos deixa atônicos. Eu posso estar chateado com o dono, mas não posso negar que o cheiro que está impregnado naquela cama é um sonífero poderoso. Todavia, não importava o quanto com sono eu estivesse. Não conseguia dormir. Tinha que ser a ansiedade, ou... como uma epifania, me dei conta do que me incomodava. Então fiz algo que minha parte bolada repudiou deveras. Com os pés descalço e com apenas metade do olho aberto, caminhei até a sala de cinema, onde deduzi que ele estaria. Dito e feito. Ele continua um gato, mesmo com a camisa amarrotada, cabelo despenteado e olhos vermelhos de choro. Lilith estava com ele, o abraçando enquanto viam "Marley e eu". A mãe dos demônios me olhou meio brava antes de dar um beijo na testa do filho e se retirar da sala. Só ai Draco levantou o rosto e seus olhos encontraram os meus. Pareciam o espelho da alma mais torturada do inferno, ou como eu imagino que ela seja. - Vem dormir - disse áspero e baixo. - Não preciso dormir. E você está melhor tendo a minha cama toda pra você. - Hoje é a droga do dia de você dormir. E se você não dorme, eu também não durmo. Então vem pra p***a da cama Draco Malfoy - Descobri que descontar a minha raiva nele era até que satisfatório. Draco me olhou por um tempo me avaliando antes de revirar os olhos e me seguir pelo corredor. - Sabia que eu não gosto de receber ordens? - Sussurrou. - E eu não gosto que decidam por mim o meu futuro. Pelo jeito temos que fazer coisas que não gostamos não é - retruquei. Entrei de novo no quarto dele e me joguei na cama. Pelos passos percebi que o loiro havia ido no banheiro, mas depois de alguns momentos voltou, se deitando também, mas não ousando me abraças que nem as outras vezes que dormimos juntos. Passamos longos minutos assim em silencio. Ele virado para um lado e eu pro outro. - Eu sinto muito batatinha - Ele disse em um fiapo de voz. - Eu sei que sente - Respondi sincero antes de uma nova leva de lágrimas se fazerem presente. Draco se virou e me acolheu na dor, me abraçando e me deixando chorar baixinho em seus braços. Só me dei conta que dormi quando os pesadelos começaram. Eu estava ao lado de uma fogueira. A noite estava estrelada, e toda a paisagem tinha potencial pra ser bela, agradável... mas os gritos a deturbavam, maculavam a beleza com nada menos que medo e dor. Olhei para o fogo e aos poucos consegui forcar minha visão. Minha mente estava confusa, na verdade, tudo estava borrado, mas eu conseguia vê-las. As dezenas de pessoas queimando no fogo. Os corpos de algumas já estavam carbonizados, se desfazendo em cinzas e ossos, mas algumas ainda gritavam, ainda possuíam um coração que batia no peito e as forçava a ter que sentir toda aquela tortura em vez de finalmente ir. Pela visão periférica vi pequenos vultos correndo, talvez crianças... no entanto não consegui pensar muito, pois em seguida era eu que queimava no fogo. Vozes que pareciam não vir de um lugar específico sussurravam me culpando pelas pessoas que matei, pelos inocentes que deixei de salvar... pelo mundo que iria queimar. As vozes foram criando fonte, timbre e definição, até que eu vi quem as falava para mim: Draco. O fogo também vinha dele, e queimava cada célula do meu corpo. Tentei gritar por ajuda, pedindo para ele parar, pedindo para que...Não atirasse em mim. Mas o tiro veio. Estávamos no aeroporto do meu pai de novo, sem fogo, sem gritos. Mas também sem plano. Isso não era mais uma armadilha pra me fazer entrar na gryffindor, era uma execução. E Draco atirou no meu peito como se não me reconhecesse, como se não gostasse de mim. E de novo o sonho mudou quando a bala me atingiu. Agora eu estava caindo, caindo e caindo... O vento frio da altitude raspava como lixa pela minha pele, e o grito estava entalado na minha garganta, impedido de sair pela velocidade. Mas o medo que eu sentia... puro pavor. Antes de alcançar o chão, o pesadelo mudou. Agora eu era a minha versão que deveria ter uns sete anos. Magra e pequena de mais para uma criança saudável. Mas nada disso me chamava tanta a atenção quanto os meus olhos que brilhavam. Completamente prateados. Como se fosse prata líquida tomando conta de toda a órbita, e não apenas a ires. Senti a ardência no rosto e sabia que o tapa tinha vindo do James. Sem mesmo vê-lo eu reconheci aquela palma da mão áspera e com calos de mais para alguém que é apenas o vice prefeito. No segundo tapa o meu rosto virou, e eu cai em direção ao chão. Mas o chão não estava mais lá. Não havia mais nada lá, eu estava sozinho. Eu estava sempre sozinho. Acordei em um sobressalto, segurando firme a coberta, como se pra ter certeza que eu estava realmente aqui. A escuridão ainda me rodeava, e pela janela eu conseguia ver as luzes de Nova York que nunca se apagam. Mas tive que fazer um esforço estra pra me lembrar que estava seguro. Que eu não estava queimando, sendo baleado, caindo, espancado ou... sozinho. Olhei para o lado e Draco ressonava baixinho. Não um sono tranquilo, pois seus olhos se moviam sobre as pálpebras fechadas, mas ainda um sono. Ele está aqui. E não importa o que fazemos um pelo outro, ele sempre continua aqui e eu também. Somos a armadura de Netherite um do outro. Podemos sobreviver sozinhos, pois somos fortes... mas somos melhores juntos. Mesmo que algum de nós de uma p**a mancada as vezes. Voltei a dormir, mesmo com o moletom empregando de suor. Dormir sem pesadelos, visões, lembranças ou seja lá o que me atormenta a noite. Já era de manhã quando um barulho me despertou, e Draco, meio que ainda dormindo, havia parado de me abraçar pra sacar a arma que ele deixa de baixo do travesseiro. Esfreguei os olhos tentando despertar melhor e me acostumar com a claridade do dia a fim de ver o que se passava. - Ei, ei, ei! Sou apenas eu sua doninha louca e armada - Reconheci a voz da minha irmã, e vi o vulto do Draco abaixando a arma. Me lembrei que estava sem óculos, e por isso tudo era apenas vultos. Tateei a mesa de cabeceira até encontra-lo e mete-lo no rosto. - Eu disse pra ela não acordar vocês no susto, mas Lu não me deu ouvido - A irmã do Draco apareceu na porta, seguida da Luna. - Desculpa, reflexos - Dray declarou antes de guardar a arma e se sentar melhor na cama - Mas o que vocês querem pirralhas? - Vai se f***r Draco - Luana disse para o irmão. - Bom dia pra você também maninha - Ignorei os irmãos me focando na minha própria que não estava com uma cara nada boa. - Que foi Lu? - Questionei. - James voltou. Quer falar com você. Um leve tremor percorreu o meu corpo. Draco percebeu e procurou minha mão de baixo das cobertas, mas dei um choque de pura eletricidade e medo nele de leve fazendo afasta-la e me olhar confuso. - Ainda estou magoado com você - Expliquei antes de me levantar - E manda mensagem pro nosso pai falando que vou chegar na cobertura pro café da manhã - agora disse para a minha irmã. - Boa sorte - Luna declarou enquanto eu dava um beijo na bochecha de cada uma. - Obrigado. - Se cuida - Dray resmungou preocupado. - Hoje depois da facu, eu quero desafiar alguém para um duelo público - Expus meu desenho. Um duelo é um tipo avançado de treinamento onde qualquer pessoa pode desafiar a outra do mesmo ciclo da máfia (pra ser justo na questão de poderes), sendo que vale tudo. Uso de armas, poderes, luta corporal... Só quem assiste é quem sabe do sobrenatural, e normalmente os gêmeos ganham uma mini fortuna com suas apostas. A semanas que Draco tem tentado me convencer de desafiar alguém pro duelo. Só pra eu ter a experiência de como é, e ele acha que eu já estou pronto depois de tanto treino. - E quem você desafia? - Ele me perguntou, e pela cara ela já previa minhas próximas palavras. - Você. Preciso descontar a raiva e os poderes, e não vou me sentir culpado se bater em você por causa da cura. - Harry, você sabe que eu não participo dos duelos, não desde que o Blaise me desafiou e depois ficou três meses no hospital - Draco já estava de pé, acariciando de leve o meu queixo, mas com uma feição dura. - Isso é medo de perder? Chega de se segurar. Um certo brilho passou momentaneamente nos olhos safiras. A chama do desafio. E ele sabia que isso seria bom para nós dois. Reprimir e guardar nunca é a opção, ainda mais se queremos tentar nos entender pro futuro. - Te vejo lá então - Ele sussurrou. - Uiiiii essa eu quero ver - Era Luana. Luna parecia alheia a conversa, e minha irmã um pouco preocupada. Passei por elas e sai do quarto do Draco indo para o meu próprio, o qual ainda cheirava a fumaça e metade das coisas estava queimadas. Troquei de roupa colocando um terno aleatório que acho que James aprovaria, antes de descer as escadas correndo pra furtar alguma coisa da cozinha pra tapear a fome até eu ir pro meu pai. - Harry, você não está com uma cara muito boa - Era Dora, que estava tomando café da manhã. - E adivinha, não é só a cara - Falei tentando soar como deboche. - Quer conversar? - Sim, por favor, mas tem que ser depois - Dei um beijo nela e saí correndo para a garagem. O transito hoje estava um pouco congestionado por causa de um acidente, mas logo estacionei a Saphyra no prédio onde o ilustre vice prefeito mora. Odeio esse lugar. James estava no escritório, bati na porta e logo ele disse para entrar. - Oi pai, que bom que voltou - Vesti de novo aquela máscara.
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