Draco Pov
Uma das coisas mais difíceis que já fiz foi deixar minha batatinha ali naquele aeroporto sangrando depois de um tiro meu... mas era necessário.
Harry vai ficar, ele tem que ficar... E qualquer coisa eu o vejo no hospital, não vou sair de lá nem por um minuto depois que o James não estiver mais por perto.
Quero que eu seja a primeira pessoa que ele verá ao acordar.
Quando eu vi que a bala atingiu Hazz foi quase que uma epifania para mim. Tenho noção que tudo isso que está rolando entre a gente vai pra além de sermos amigos... Estamos muito envolvidos na vida um do outro mesmo que isso tenha sido gradual e quase que natural, isso me assusta.
Mas só no momento em que vi as esmeraldas verdes me olhando e o sangue escorrendo por seu ombro, que eu finalmente saquei o quanto me deixei levar. E em meus 2500 anos devida, um sentimento nunca me assustou tanto quanto esse.
E sei que não estou pronto. Não o entendo o suficiente para sentir o que sinto mesmo não sabendo o que eu sinto. Não entendo esse sentimento o suficiente para deixar fluir... É cômodo estar com ele, ser autêntico, deixar acontecer naturalmente e essas coisas. Mas isso me deixa fraco, me torna vulnerável e instável.
E não posso cometer esse equívoco já que o apocalipse está tão perto.
Eu tenho medo... irônico né. As pessoas tendem a pensar que eu ser quem eu sou (o fodastico ser sobrenatural e chefe da p***a toda), isso me torna imune ao medo e outros "problemas humanos". Não é porque eu transpareço ser invencível que eu me sinto assim... Eu não faço terapia por diversão, isso eu posso garantir.
E talvez eu esteva pensando de mais, mas não me sinto pronto. Como se fosse um bloqueio de ir além do que isso que já estamos vivendo por mais que eu queira, e simples assim.
E Ginny me ensinou a entender e respeitar os meus limites e o meu tempo, pois cada um tem o seu...
Por isso estou aqui, tentando reprimir o máximo a sensação de desespero que estou sentindo estando aqui em Hogwarts enquanto Harry está lá, em cirurgia há quase três horas... Mas Theo está de olho nas câmeras do hospital, e vai me atualizar se algo acontecer, e quando James sair daquele quarto para que eu possa estar lá...
Como eu quero estar lá...
- O Harry vai ficar bem. Ele já passou por coisas piores - Luna veio e se sentou no sofá ao meu lado de pernas cruzadas.
- Não estava pensando nisso.
- Para de fingir indiferença Dray. Moramos juntos, eu te conheço, e sei o que sente por ele - Luna continuava comendo sua pipoca.
- É que... não quero falar disso.
- Draco está evitando falar dos sentimentos dele de novo, mesmo que todos nós já saibamos que ele está afim do Pottinho? - Pansy perguntou brotando do nada e se sentando no tapete felpudo para desmontar e limpar suas armas.
- Não sei do que vocês estão falando - Por que elas não cuidam da vida delas? Têm mil cômodos nessa casa, por que elas querem ficar junto na sala?
Sobrenaturais bonitos não tem um dia de paz mesmo.
- Não somos cegas baby. É batatinha pra cá, batatinha pra lá e eu nunca vi a batatinha ser queimada que nem você usa o seu poder para nos queimar quando te irritamos. A batatinha nunca é frita, olha que ela provoca... - Tonks se juntou a conversa também - Aliás, batatinha é um apelido adorável.
Olhei com ódio para Dora. Apenas eu posso chamar o Pottah de batatinha... e tenho minhas razões.
- Você gosta do cabeludinho Draco. E tá tudo bem - Pansy disse como se não fosse nada.
- Parem de ficar falando da minha vida. E quanto a vocês em? Não pensa que eu esqueci aquela safadeza toda com a minha irmã Luna. E Pansy, você não pode continuar ficando com as strippers da Hades. Elas estão lá para trabalhar, e não flertando com você.
Luna em resposta corou e jogou uma pipoca em mim. Já Pansy apenas deu de ombros, em um gesto que dizia claramente que ela nem me ouviu.
- Mas ué, Pans, você não estava namorando aquele carinha fofo que está fazendo a transição? - Luna perguntou animada, pois ela realmente tinha feito amizade com o rapaz por ser a pessoa mais inclusiva e amorosa que eu conheço.
- Ainda estou, mas deixei claro para ele que sou poligâmica, então decidimos por um relacionamento aberto. Ele entendeu que cada um tem sua forma de ser e de amar, a qual deve ser respeitada - Minha amiga de chanel explicou um pouco receosa por não saber qual seria a reação da Lu.
As vezes esqueço que Luna entrou ao mesmo tempo que Harry na máfia, e que não conhece o pessoal tão bem assim como eu. Pansy não tem vergonha de ter uma concepção de amor e atração fluida e diversa, mas algumas coisas ainda são tabus mesmo dentro da comunidade LGBTQIA+, e minha amiga odeia ser julgada pelo que é.
- Eu acho fofo pessoas poligâmicas. Tipo, as pessoas são diferentes então nada mais justo que as formas de amar também sejam, e uma não sobrepõem a outra. Toda forma de amor e de atração é justa - Luninha respondeu animada fazendo Pansy sorrir aliviada de volta - Mas e você Dora?
- Graças a Deus estou um pouco mais livre desses conflitos amorosos que eu deixo para vocês vadias. Sou aroace "cinza" pois sou gray-a quando falamos de assexualidade, mas sou completamente arromantica- Tonks declarou se jogando entre mim e Lu, colocando a cabeça no colo da loira e as pernas sobre a minha. Por que meus amigos são tão folgados? - Sei que é confuso mas gosto de pensar que eu sou apenas eu, e que não há nada de errado nisso.
- Realmente não tem - Lu disse jogando uma pipoca na boca da Dora.
- Sorte a sua, sentimentos amorosos e atração s****l só nos deixam confusos - Resmunguei no automático.
- Ah rá. Aí, acabou de admitir que ama o Potter e que se sente atraído por ele - Pansy disse beliscando a minha canela.
- Não falei nada disso sua piranhazinha. Além de p**a ta virando surda? - Minha amiga me deu dedo do meio e revirou os olhos.
- Você pode negar para você mesmo Dray, mas você faz tudo o que o Hazz quer. Toda noite de pizza é ele que escolhe o sabor, ele é o único que pode te acordar sem ser morto, pode comandar missões mesmo tendo o mesmo tempo de máfia que eu, pode mexer nos seus livros sem ter a mão arrancada... Amanhã é dia primeiro de um novo ano, quem sabe um novo relacionamento? - Luna propos.
- Vocês estão erradas. O máximo que eu sinto por ele é um carinho de amigo, e uma tensão normal por passarmos tanto tempo juntos... - Obvio que sei que estou mentindo.
- Você e Blaise passaram centenas de anos juntos e nunca vi essa tensão entre vocês... - Pansy resmungou.
Fiz a peça de metal que minha melhor amiga estava nas mãos se aquecer e queima-la só para Pansy ficar p**a e parar de falar merda.
- Pelo menos um beijo vocês já podiam ter dado. Seria muito fofo - Luna interveio.
- "O beijo, amigo, é a véspera do escarro", já dizia Augusto dos Anjos. Se for pra rolar - Ia falando, mas Dora me interrompeu:
- Quando rolar.
- Quando rolar, vai ser importante. Não algo aleatório - Finalizei voltando a cruzar os braços e fazer cara de quem chupou limão.
- Woh que fofo! A p**a é romântica gente - Pansy me zoou.
- Quer saber, cansei de vocês. Vou ir ver como vai as coisas com o Theo.
Me levantei tirando grosseiramente as pernas de Dora de cima de mim, e levei um chute por isso.
- Me espera. Também tenho que ir pra uma missão. Um informante meu disse que quer falar comigo urgente - Tonks disse se levantando e me acompanhando pela casa antes de seguir para a garagem e eu para a sala de vigilância.
Eu posso brigar com elas, chama-las de putas, queima-las de vez em quando... mas eu amo de mais minhas amigas, e tenho muito orgulho delas por serem fortes e não esconderem quem são. Na verdade, eu tenho orgulho de toda a Slytherin por ser inclusiva e o abrigo para todas as pessoas perfeitas que são maltratadas na sociedade por serem quem são.
Harry não foi o primeiro que acolhemos em uma situação difícil por causa da sua sexualidade ou orientação s****l. Só não vou falar mais pois é a vida deles, e eles vão escolher quando querem falar disso para vocês.
Todos temos uma história, e cada um tem seu tempo para contá-la ou escreve-la.
- Como vão as coisas? - Perguntei para Theo assim que cheguei na sala de vigilância de Hogwarts, onde tem vários computadores e tecnologias que eu não entendo bulufas. Normalmente aqui é onde Regulus, Theo e Cho se dividem para ficar de olho em tudo.
Demorei um ano pra entender como se joga CandyCrush, e mais um ano pra entender como funciona o tt, ttk, insta e wattad... Não me julguem, lá em baixo não tem nada disso. E as únicas vezes que subi a Terra sem ser agora o povo ainda andava a cavalo e fumavam cachimbos fedorentos.
- Ele acabou de sair da cirurgia, já estava indo te chamar. O médico disse que ele pode demorar algumas horas pra acordar por causa da anestesia, mas que tudo está correndo bem e que eles conseguiram retirar a bala sem preocupações. Agora só vendo como ele vai acordar.
Pelo computador dele eu consegui ver várias câmeras do hospital, sendo duas do quarto do Harry e uma do corredor. E ele parecia bem, extremamente pequeno naquela cama de hospital, mas bem. Quase que um anjinho dormindo.
Soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo. Eu não o matei... Isso foi um alívio tão grande que senti meus olhos lacrimejarem.
- Pode ir descansar um pouco Theo, obrigado.
Ele apenas confirmou com a cabeça e se levantou se retirando. Em contrapartida, eu me sentei e comecei a observar o Harry ignorando a figura horrenda que estava ao lado dele.
Por que James não sai dali para que eu possa finalmente ir lá em vez de ficar aqui só pelas câmeras?
Mas pelo menos Regulus conseguiu ter acesso de algum jeito ao áudio do quarto, então se aquele saco de bosta falar algo comprometedor eu vou ouvir.
Mas nada. Silêncio absoluto até o final da tarde.
Uma hora James se retirou, e pelas câmeras vi que ele foi até a cantina do hospital. Mas não consegui ver muito além disso pois logo em seguida o cara que entrou no quarto do Harry me chamou a atenção.
Era o Mattheo, ficante ou algo assim, com um boque de flores.
Petúnias... Harry odeia petúnias. Eu com certeza teria levado Lírios ou Narcisos.
Oi Harry. Fiquei sabendo o que aconteceu e fiquei preocupado, por isso vim.
A voz de Mattheo era estranha e confusa por causa da interferência da escuta. Mesmo assim eu estava vidrado no que ele estava falando.
Sei que não estamos juntos mais desde a algumas semanas quando você terminou tudo... e eu respeito sua decisão, mas pelo que tivemos e pela consideração que tenho a você, eu quis vir. Só queria ver se você estava bem, e pelo que perguntei para as enfermeiras, você está. E mesmo você não ouvindo merda nenhuma do que eu estou falando... eu precisava falar. Além disso, está tudo aqui nesse cartão nas flores para você ler depois.
Isso me assustou. Quer dizer, desde que eu e Harry conversamos sobre eu vigiar a vida dele e limites, que eu não tenho mais seguido ele, em respeito ao que combinamos. Harry tem o botão de emergência da slytherin, tem o mínimo de treinamento etc. Então tudo que não envolve missões ou sobrenatural ele não precisa que eu fique de olho, ele vive a vida dele do jeito que ele quiser, e com privacidade...
E por isso estou assustado agora ao saber que ele terminou com o Mattheo. Ele não comentou nada comigo, por que será que ele quis terminar...?
Não seja emocionado Draco, isso pode não ter nada haver com você. Não seja um bobo criando expectativas.
Mas enfim, espero que possamos continuar amigos quando você melhorar, e eu sei que vai pois você é forte. Você foi um bom submisso e uma boa companhia... espero que fique bem pois você merece o mundo Harry Potter, por mais que o mundo não mereça você.
Mattheo deixou a flor perto da janela do quarto, beijou a mão do Harry e se retirou, deixando o moreno lá ainda dormindo, e eu aqui com mil e um pensamentos na cabeça.
As vezes eu sinto falta de ter minha mãe aqui pra me aconselhar... Será que eu ligo pra Ginny? Melhor só mandar mensagem marcando uma consulta pra amanhã. Preciso tentar entender toda essa confusão que está na minha mente, pois meus poderes também estão ligados as minhas emoções, e não posso ficar volátil.
Mas a questão é que do mesmo que tudo o aconteceu com o Harry foi gradual e... certo, foi rápido de mais. Pra quem viveu 2500 anos, três meses não são nada, então como ele fez esses três meses significarem tudo... ?
Minha linha de raciocínio foi cortada quando o progenitor do Harry voltou a entrar no quarto. Ainda bem que Harry só puxou a beleza dele, e nada mais. Porque o que James tem de bonito ele tem de filho da p**a.
Ele parecia completamente indiferente ao filho, mesmo pelas câmeras. Como se estivesse lá apenas para fingir cumprir o seu papel de pai perante a sociedade para as mídias.
Mais algumas horas se passaram com Harry ainda desacordado e James em silêncio, até que o celular desse tocou, e eu comecei a ouvir a conversa unilateralmente pelas falas do mafioso.
Alô. Não, ainda estou aqui, mas não pretendo ficar mais por muito tempo. Acho que já passei um tempo aceitável para a mídia relatar que estou preocupado com o garoto.
Sim eu sei. Não precisa me lembrar dos meus próprios compromissos Peter.
Já descobriram o que aconteceu hoje? Por que nos atacaram sendo que não era nem par eles saberem que eu sou um grifinório?
Que ótimo, não descobrimos nada e eu ainda vou ter que dar explicações para o i****a do meu filho quando ele acordar sobre por que estavam atirando em nós. Eu estou cercado de inúteis mesmo.
Eu sei que uma hora ou outra vou ter que iniciá-lo na máfia... mas anda não confio nele. Vai que ele ainda é uma bichinha p**a que nem antes?!
Ok, Ok. Podem dar continuidade com o plano, depois eu cuido dessa situação com o meu filho.
Sim. Podem dar continuidade a quebra do terceiro selo. Estou indo para aí, me ligue se acabarem antes.
A parte do Harry me deu raiva e me fez questionar porquê eu ainda não matei o James, mas essa última parte da conversa me paralisou completamente. Eles pretendem quebrar o terceiro selo hoje...
No lo puedo creer, hermano. No otra vez...
Depois disso James saiu do quarto do hospital e foi embora. E tudo que eu queria era correr até lá e ficar ao lado do Harry até ele acordar... Mas parece que temos outra surpresa de ano novo.
Já atrapalharam o meu Halloween com aquela invasão e a coisa da vaca rosa, depois o meu Natal com o sequestro, e agora o meu ano novo com outro selo além do batatinha no hospital?! Qual é essa tara das merdas cósmicas acontecerem em feriados em?
Saí da sala de vigilância em disparado. Com certeza estava usando da minha super velocidade, e por isso Blaise viu que era sério quando me encontrou no meio do caminho, e se pôs apenas a me seguir sem fazer perguntas.
Cheguei até a biblioteca de Hogwarts e encontrei Rowena e Regina estudando a profecia do apocalipse junto com a Mionerva.
- Qual é o terceiro selo? - Perguntei direto chamando a atenção delas.
- Só falta traduzir o último verso, pois essa estrofe por mais que pequena esteja, está em outra língua em relação as outras, e por isso demorou mais. Mas pelo que podemos ver até agora é algo ligado a inveja - Rowena, a irmã ruiva disse.
- Além de estar ligado a marca de um sobrenatural, o que não pode significar coisa boa - Regina, a irmã morena completou.
- Por que Draco? O que houve? - Blaise que estava ao meu lado questionou.
- Ouvi James falar ao celular enquanto estava no quarto de hospital do Harry. A Gryffindor pretende quebrar o terceiro selo nesse exato momento.
- c*****o - E preto respondeu - O que vocês podem supor que seja esse selo? Precisamos de algo que direcione as buscas - Perguntou para as mulheres na sala enquanto mexia no celular que nem louco.
- Inveja da marca de outro sobrenatural? Pode significar qualquer coisa com qualquer sobrenatural que tenha uma marca - Minerva, que também é uma bruxa, disse.
- Ela está certa... trabalhem em traduzir esse último verso como se a vida de vocês dependesse disso, e me liguem assim que souberem. E Blaise - Me virei para o meu amigo enquanto caminhava para fora da sala.
- Pode deixar, vou colocar toda a slytherin em alerta pela cidade. Qualquer movimento suspeito eu te mando mensagem. Além disso vou entrar em contato com as nossas fontes para vermos o que sabemos e tentarmos entender como esse selo vai se quebrar... Pode ir lá.
- Obrigado - Me resumi a dizer antes de sair dali e depois de Hogwarts com o primeiro carro que vi na minha frente.
Meus instintos dizem que vem merda por aí, que novamente estamos deixando algo passar, e que novamente vamos perder um dos selos pois sou incapaz de focar o suficiente para perceber que isso iria acontecer.
E o pior é que agora mesmo estou indo em direção a minha distração...
Cheguei no hospital e já fui entrando sem ligar pra algumas enfermeiras que tentavam me barrar. Evitei algumas câmeras de segurança, e logo estava na porta do quarto que Harry. No momento exato que ele estava acordando.
Me adiantei até ficar ao lado do cama e segurar sua mão enquanto lentamente ele voltava a consciência. Piscando um pouco os olhos com os longos cílios pretos, e se espreguiçando que nem uma lagartixa na cama.
- Ei, ei, para de se mover tanto se não vai abrir os seus pontos pequeno - Sussurrei, e em seguida ele abriu completamente os olhos e me encarou.
Como ele tem olhos bonitos...
- Oi Dray - A voz dele era partida e meio grogue por causa dos remédios.
- Oi Hazz - Não pude impedir a minha mão de fazer carinho nos cabelos dele.
- Você está aqui, como prometeu. E eu estou vivo - Ele parecia feliz.
- Acho que essa era a intenção.
Harry ficou em silêncio por algum tempo parecendo me analisar.
- Como você está se sentindo? - Perguntei preocupado.
- Como se tivesse levado um tiro, mas isso não importa. O que rolou? - As vezes esqueço que não tem como esconder nada do Harry a não ser que ele que não queira saber.
- Não sei do que você está falando.
- Draco... eu te conheço. Você está nervoso, o que aconteceu? o plano não deu certo? - Harry parecia estar começando a ficar aflito.
- Ei, se acalme, você acabou de sair de uma cirurgia, precisa descansar e não de estresse.
- Draco Malfoy. Me conta o que aconteceu agora - Amo quando ele acha que manda em mim.
- Não é o que aconteceu, mas o que está pra acontecer. A quebra da segundo selo. Seu pai deu um telefonema sobre isso e nossa escuta capitou. Mas o pessoal está cuidando disso.
- E por que você não está lá? - Harry brincava com a ponta da coberta devido a ansiedade. Mesmo assim não desgrudava os olhos dos meus, se mantendo concentrado o suficiente, mesmo com a morfina ainda no organismo.
- Porque eu queria estar aqui quando você acordasse, como prometi.
Harry ficou um pouco corado, mas logo a dor deve ter voltado, pois ele fez uma careta estranha levando as pontas dos dedos por reflexo até o ombro ferido.
- Doí muito?
- Sou tolerante a dor - Não sei se era a intenção do Harry que isso soasse tão provocante como soou. Mas que bom que logo em seguida alguém bateu na parta, fazendo minha mente parar de vagar em formas de fazer o Harry sentir dor em outro contexto, para focar na realidade.
Fui rápido até o banheiro para me esconder lá. Se for James ou outra pessoa assim, não é viável que me vejam ao lado do Harry.
- Harry... posso entrar? - Reconheci a voz feminina, o que me fez revirar os olhos e voltar a adentrar o quarto, onde Hermione estava agora.
- O que faz aqui? Não acha que é muito tarde não? - Perguntei m*l humorado, afinal já é quase dez horas da noite, e manhã já é dia primeiro de Janeiro.
- Draco, deixa. Quero ouvir o que ela tem a dizer - Harry pediu, e só assim que eu saí de frente da garota deixando-a se aproximar da cama.
- Ei Harry... eu fiquei sabendo do que aconteceu, mesmo que eu imagine que seu pai está mentindo sobre como você levou um tiro... Mas só vim saber se você está bem.
- E você se importa? - Ele retrucou arredio, enquanto eu me sentava em uma poltrona naquele quarto hospitalar de luxo.
- Claro que sim... sei que fui uma filha da p**a esse tempo todo. E depois do que Ron fez no Natal eu percebi que fomos longe de mais. Eu deixei que ele fosse longe de mais nunca falando nada quando ele te ofendia ou - Ela ia falando mais Harry interrompeu.
- Não apenas ele Mione, mas você também me ofendia. Ok você ser mais racional e pé no chão, mas isso não te dava o direito de me fazer pensar que eu era louco, de me desacreditar ou simplesmente não me apoiar... Eu só queria que você ficasse do meu lado, e fosse a amiga que eu precisava - Isso quase partiu o meu coração.
As vezes eu esqueço como foi a infância do Harry... ele é tão diferente de toda essa sujeira e ruindade a qual foi criado no meio. Ele conseguiu ser a luz e autêntico mesmo tendo James como pai, amigos horríveis, uma sociedade que o julga...
Eu tenho orgulho dele.
- É eu sei... estou tentando aprender agora Harry eu te juro... e só queria pedir desculpas e pedir pra me deixar ser sua amiga.
- Não. Eu fico feliz que você está evoluindo Mione, e nunca vou desistir de você, mas não. Não quero você perto de mim por enquanto, pois por mais que você esteja aprendendo, ainda vai errar. Ainda vai cometer deslizes e isso vai me ferir. Não posso retroceder só para esperar o seu avanço... Você vai ser uma pessoa incrível, mas isso é com você.
A castanha parecia triste mas concordava com a cabeça.
- Tudo bem, eu entendo. Só queria te ver e saber se está bem, mas pelo visto já tem alguém cuidando de você - Ela me olhou e eu fiz graça dando um tchauzinho sarcástico com a mão.
- Até a volta as aulas Mione - Harry se despediu.
- Até - A menina foi embora, e eu vi lágrimas nascerem nos olhos do moreno.
Me levantei e me sentei na cama, acolhendo Harry em um abraço desengonçado por causa do ferimento. E ali eu deixei ele chorar.
As pessoas crucificam o choro como se fosse algo r**m que tem que ser reprimido. Mas as vezes tudo bem ficar triste, tudo bem chorar, e tudo bem lamentar pela perda de alguma pessoa que nem te merecia tanto assim, pela perda do seu próprio eu passado ou apenas por estar sobrecarregado por causa da situação.
Pois não tem haver com como as pessoas são, e sim como você é.
De repente a máquina a qual Harry estava ligada fez um barulho estranho. Então eu apurei minha audição para ouvir os batimentos dele, e percebi que estavam diminuindo.
Isso fez o meu próprio coração apertar, e eu ter que controlar os meus poderes para não acontecer algum incidente.
Harry estava tendo um ataque cardíaco.
Alguns enfermeiros e médicos entraram correndo no quarto e começaram a falar de algumas coisas que eu até entenderia se não estivesse tão apavorado. Merda, eu estudei anatomia e era pra mim saber minimamente os termos que eles diziam uns para os outros enquanto tentavam trazer Harry de volta. Mas tudo parecia uma língua que não conheço.
Tudo parecia quase que irreal.
Tentaram pedir para mim sair, mas bem, vocês já devem saber que não conseguiram.
Os minutos pareceram horas e ao mesmo tempo segundos. Tudo tinha saído fora de foco. Eu pensei que ele estava bem, ele parecia bem... mas e se ele morrer? Vai ser por minha culpa, pois eu que atirei nele.
Eu atirei nele...
Comecei a perder a razão. Meu joelho cedeu e eu fui ao chão, sem pudor de deixar as lágrimas que eu estava acumulando desde aquela pista de aeroporto saírem.
Só levantei a cabeça quando ouvi o primeiro batimento dele, depois outro e depois outro. Eram fracos e descompassados, mas eles estavam lá, me fazendo respirar com alívio.
O entubaram e colocaram alguns remédios no soro que disseram que faria ele ficar estável por enquanto, mesmo ele não estando conseguindo respirar sozinho ainda, o que é uma coisa que o médico vai ver daqui a pouco.
Talvez tenha dado alguma complicação no estado geral dele, mas por enquanto ele está estável em um coma induzido.
Me aproximei da cama e olhei aquele ser inclassificado que mudou tudo. E percebi que apesar do medo de ficar com ele, eu tenho mais medo de ficar sem ele...
- Volte pra cá e grite comigo. Volte pra casa e me encha a p***a do saco. Volte pra casa e meta outra flecha em mim se for preciso. Apenas volte para casa... - Sussurrei tirando o cabelo preto de cima da cicatriz em raio que eu acho tão sublime.
Não sei quanto tempo se passou. Mas ouvi meu relógio apitando avisando que já era meia noite, e que estávamos oficialmente em um novo ano.
Olhei de volta para o Hazz e sequei uma lágrima solitária que escorria pelo meio rosto. Me inclinei até os lábios dele que pareciam brancos de mais, e depositei um mísero selinho. Algo simples, mas que pra mim era tudo naquele momento.
Sentir os lábios de Harry Potter contra os meus... não queria que fosse nessas circunstâncias.
- Feliz ano novo Harry - Sussurrei perto da orelha dele antes de me afastar para o outro lado do quarto, onde tinha a janela e eu podia ver as estrelas.