Esther
Quando vi pela porta, meus irmãos entrando, de um modo estranho a frustração não me atingiu, eles sorriam, disfarçadamente, mas sorriam, e eu sabia que tinham um plano, suas mentes mirabolantes, tinham uma imaginação fértil,
—Escrava, sua v***a, imunda, fez a cabeça desses pentelhos para fugirem novamente. — O som da sua voz, raivosa, era conhecida por mim, e eu já não tinha medo, os anos nesta casa velha de madeira, mostraram-me cenas terríveis, o pior lado do ser humano, traumas, que nunca irei superar. Pesadelos marcados na minha alma.
—Ela não fez nada, seu verme. — Lucas, meu irmão temperamental, não aguenta a sua língua dentro da boca, esquecendo o que acontece quando desafiamos, esse monstro.
— Vão já pra fora, irão dormir lá fora, pela desobediência, tenho coisas mais importantes para me preocupar, mas vocês terão o castigo que merecem, seus ingratos, miseráveis, SUMAM DAQUI.
Lucas, como sempre, tentou-lhe atacar, mas Kauã, sensato, o impediu, puxando o irmão para fora, ante de saírem, Kauã, me lançou o seu olhar doce, que me dava esperanças, sabia que a noite seria perturbadora, para mim.
— Agora para você, escrava, além da minha gosma, vai tomar um c****e por ser atrevida, e depois vai ir para um lugar, improvisado.
— Lugar improvisado, como assim? Os meus irmãos o que vai fazer com eles— o desespero tomou conta de mim, este homem, não tem escrúpulos, ou arrependimentos, e o meu corpo treme, mas não de medo dele, e sim pelo que a sua mente doentia pode estar planejando.
Droga, eles precisavam ter fugido!
— Sem perguntas, não mandei você abrir a boca, agora espero que esteja limpa. — Ele veio até mim, Geraldo, era um homem forte, e rústico, com seu porte grande, medindo, creio, que um metro e oitenta, sua pele branca o envelheceu por conta do sol, e os seus dentes não ajudam, já que o seu vício por cigarros, sempre venceu.
O meu pequeno corpo, frágil, não tinha espaço para lutar, já se havia quebrado tantas vezes, em tantas partes.
— Você é uma p**a, ingrata, igual sua mãe, aquela c****a. — A violência em que separou a nossa distância, não foi tão diferente da que usou, quando pegou os meus cabelos, as correntes no meu tornozelo intensificava a dor, o meu corpo era levado, feito pena.
Usando nenhum pouco de delicadeza, meu padrasto, jogou-me encima da cama velha, ao qual eu dormia, era de solteiro, os anos não ajudaram muito, tornando a sua camada, cada vez mais fina, entretanto, me confortava saber, que ao menos, meus dois irmãos, dormiam ainda nas suas camas, como um ato de covardia, e punição, Geraldo havia queimado a minha cama, restando apenas a de mamãe, e o beliche, dos gémeos.
Um ato nojento, por sorte, nunca durava muito, o monstro na minha frente, era um broxante, que chegava no seu limite em poucos minutos, mas que para mim, eram eternidades, minutos em que, todo o meu consciente se desconecta do mundo, do meu corpo.
Enquanto, mais uma vez, sou violada, permito-me viajar, anos atrás, são poucos os momentos, mas lembro-me, de alguns, quando papai, senhor Márcio, homem honesto e trabalhador, sempre disposto a ajudar mamãe, e que diferente do meu padrasto, que sempre batia nela, não passou de duas semanas, depois que se mudou, ele mostrou o quanto era psicopata, e sem coração, os seus crimes eram inacreditáveis, ele não poupava ninguém , seja por idade, ou sexo, era nojento, e doentio.
— v***a. — O tapa que levei, seria mais um, dos inúmeros que já senti, o roxo já era um tonalizado do meu rosto— Tá seca, não tá gostando, sua escrava imunda, você tem que agradecer, que não deixo os seus irmãos e você morrendo de fome.
Eu não respondo nada, as minhas pernas estão abertas na sua direção, enquanto, Geraldo, está em cima do meu corpo, a sua calça baixada até os joelhos, a sua camisa dando o vislumbre da sua barriga que contém, por conta da cerveja, porque para isto, o imundo tem dinheiro, algo que eu não lembro ter visto, mas segundo os meus irmãos é para comprar produtos.
Após passar um tanto de cuspi em suas mãos, fez o ato que me acompanha desde os 12 anos, que me enoja. Faz-me odiar o meu próprio corpo. Lavo-me diversas vezes, tentando tirar as suas marcas de mim, limpar a podridão que o meu padrasto faz com que eu sinta.
— Da próxima vez, vou arrombar o seu cu, sem cuspi. — o meu rosto, já estava em chamas de tantos tapas que ele desferia, eu não tinha reação alguma, sequer chorar, porque diante deste homem, não permito mais, ele não terá o desfrute do meu sofrimento, mas sabe que já fez o feito maior, destruiu-me por dentro, e fez com que rachaduras, ficassem infiltradas, por tempos e tempos, até se tornarem, pequenas, incuráveis a meus olhos.
— Vá tomar um banho, logo vou levar você daqui. —Ajeitando a sua roupa, e com os seus olhos de desprezo, como se realmente, eu, fosse a culpada— E para o bem dos seus irmãos, é melhor você não aprontar nada.
Eu não sabia o que aquele monstro queria, mas não ousaria desafiá-lo, as marcas nas minhas costas, com fios de cipó, eram evidentes demais, para que eu me esquecesse.
Com a cabeça baixa segui para o banheiro, fechei a porta que era improvisada e desproporcional, deixando partes dos pés, e da cabeça a mostra, não porque era assim, Geraldo, na sua fúria em uma das minhas rebeldias, quebrou a nossa porta, e como "castigo/punição", ele deixou esta mini porta, hoje eu já não me incomodo mais, entretanto no início, foram tempos difíceis.
No banho permito que algumas poucas lágrimas caiam, eu realmente já não choro, ao menos não com tanta frequência como no início destes dez anos, a um século, o meu padrasto vem nos violentando psicologicamente e fisicamente, dia após dia, e pergunto-me onde está Deus, que não nos vê. Será que somos tão pequeninos assim que não consegue nos enxergar no meio da sua criação?
Bem, eu sei que sim, e por mais que não tenha esperança para mim, sei que ele não abandonará os meus irmãos, não porque eu não seja amada, só não quero, não quero existir, se possível ate o meu fim, desejo-me fechar na minha bolha.
Seco os meus cabelos, estão compridos e batem quase na b***a, seus fios são grossos, e a babosa que os meus irmãos trazem para mim, deixam eles sedosos, os meus dedos são minha única ajuda para desembaraça-los.
Depois de um tempo, jantamos, em silêncio, como todos os dias, a pequena mesa, só tem uma cadeira, somos obrigados a comer no chão, mas não me importo, pois são os únicos momentos que consigo conversar com os meus irmãos.
Contaram-me que virá um homem aqui, o dono dessas terras, e o meu coração disparou, não sei se foi de ansiedade, expectativa, esperança, a lembrança de que eu iria mudar-me venho na minha mente.
— Irei para outro lugar, seja quem for este homem, peçam ajuda, qualquer coisa é melhor que viver com este monstro.
—Não se preocupe, vamos dar um jeito. — Lucas, diz, suas palavras são sempre positivas, e de bom ânimo.
meus irmãozinhos cresceram, e estão se mostrando pequenos cidadãos do bem, uma prova de que o bem sempre vence.
Após, lavar as louças, o meu padrasto desparafusou as minhas correntes, e o meu coração começou a bater, forte. Rapído. Forte. Rapído.
Eu não sei o que aquilo significava para eles, mas para mim, que fiquei por oito anos, acorrentada, dentro desta casa velha, bem, nem mesmo, eu, sei explicar a sensação, de ter novamente o ar nos meus cabelos, com o vento soprando, um ar gélido, que trouxe consigo as minhas lágrimas, enquanto eu, era arrastada praticamente, entre aquele matagal, deixando os meus irmãos na nossa casa, saindo depois de 8 anos.
Enquanto tropeço por entre os galhos, machucando os meus pés, que já estão tão feridos por conta das correntes. Meu padrasto, anda em média de vinte minutos, é longe de onde estamos, mas, avisto uma pequena cabana, com certeza ela foi construída depois da minha prisão, pois antes não existia.
— Você, vai ficar aqui, e como os fofoqueiros dos seus irmãos devem ter falado, amanha o dono dessas terras vem xeretar por aqui, e reze para que este homem vá logo embora, porque se não, o seu fim vai estar próximo.
— Não me importo, contanto que os meus irmãos fiquem longe de você. — Digo, pois quero que ele saiba, que mesmo na minha ausência, os meus irmãos continuaram a lutar pela sua liberdade.
— Eu não contaria com isto. — Dizendo isso, começou a apertar os parafusos, em que vi ser outro suporte para as minhas correntes, que prendem o meu tornozelo. Após fazer o seu trabalho sujo, Geraldo, sai, me deixando dentro daquele pequeno cómodo, onde só se tinha a minha cama no chão, um balde, junto ao papel higiénico, creio ser para as minhas necessidades.
Mas não me importei de ficar a olhar a pequena cabana velha, que tinha apenas uma janela, mas estava fechada.
Com os meus pensamentos em milhões de hipóteses, deixo-me adormecer, me apegando na chance de que este homem liberte os meus irmãos.