O silêncio naquela noite não era como os anteriores. Não havia tensão cortante, nem palavras engolidas pela raiva. Era um silêncio diferente, feito de hesitação, de olhares que se desviavam e voltavam a se encontrar, como se duas forças opostas tentassem se acostumar a um novo espaço. Helena estava sentada no sofá da sala, com uma manta sobre as pernas, o corpo curvado para frente. Havia pegado um livro, mas não conseguia ler. O olhar se perdia nas páginas, e a mente voltava sempre para os mesmos lugares: os últimos dias, os gestos de Estevão que, por mais discretos que fossem, tinham mexido com ela. Ele também estava ali, na poltrona do outro lado. Tinha trazido alguns relatórios, mas não conseguira se concentrar. A presença dela, tão próxima e ao mesmo tempo carregada de silêncio, exig

