A clareira estava silenciosa, envolta pelo véu frio da madrugada. O céu, sem nuvens, deixava que a lua cheia derramasse sua luz prateada sobre a pele nua de Filipe, que continuava sentado na beira do riacho, os pés descalços tocando a água gelada, como se aquilo pudesse acalmar a tormenta que rodopiava dentro dele. Mas não podia. Nada podia. O ar estava denso, parado, e ele sentia o peso de sua própria respiração, como se respirar fosse um esforço consciente, doloroso. Levantou a cabeça, encarando o céu, e ali estava ela — a lua. Perfeita, etérea, intocável. Como Lua, pensou. Como aquela feiticeira que o destino havia amarrado à sua alma com correntes invisíveis, inquebrantáveis. O nó na garganta apertou ainda mais, sufocando-o, e antes que percebesse o que fazia, Filipe ergueu o rosto

