06. Diferença

2536 Palavras
Lando - Ei - Eu digo assim que América abre a porta. Eu ainda não sei o que estou fazendo aqui, mas já que vim parar na casa dela, não tenho mais como voltar atrás. - Lando - América esboça um sorriso enorme no rosto e vem com sua mão querendo me tocar. Eu me aproximo dela que segura em meu braço antes de me abraçar. O conforto involuntario e estranho em sentir seu peito com o meu, o seu perfume em meu nariz, suas mãozinhas acariciando minhas costas. E isso tudo me faz perceber que eu precisava mesmo disso. - Malu, olha quem veio - América diz após sair do abraço e me puxa para dentro da sua casa. Na sala vejo aquela mesma garota que tirou América do meu lado no dia da boate, e um menino de cadeira de rodas, ambos estão assistindo a televisão, mas se viram para me olhar. - Vocês são amigos agora? - A menina pergunta ríspida, julgadora. Ela não gosta de mim, isso é óbvio, mas não entendo o porquê. Tudo bem que na primeira vez que a vi eu não estava sendo a melhor pessoa do mundo, mas não é pra tanto, é? - Somos, não é demais? - O sorriso no rosto de América não abandona nunca. - É...demais - Sua amiga fala com a feição azeda para mim, mas para ser honesto, eu não me importo tanto. - Lando, esse é o Henry - América me apresenta para o menino de cadeira de rodas que vêm até nós. Seu cabelo é longo, vai até os ombros e tem alguns cachos. Seus olhos verdes entram em um belo contraste com seu moletom amarelo, que tem escrito "não sou inválido" na frente. - Oi Henry - falo forçando um sorriso para ele, eu não aprendi a ser simpático. - Então você é o cara que foi traído? - Henry diz, fazendo a amiga de América se engasgar com uma risada. Ela contou para ele? Será que contou para todos que ela conhece? - Desculpa Lando, ele é um dos meus melhores amigos, sabe como é...- América fica vermelha tentando se explicar, mas por incrível que pareça eu não estou bravo com ela, mesmo que seja algo r**m, eu não me importo com isso mais, não hoje pelo menos. - Visitante? - Um garoto moreno sai da onde deduzo ser a cozinha com um balde de pipoca nas mãos. Ele usa uma barmuda o que possibilita ver que ele não tem uma perna, no lugar dela é uma prótese. Me questiono se América busca um padrão para suas amizades, escolhendo quem têm alguma deficiência, ou se é involuntário. - Puf - A garota que me detesta revira os olhos sentada no sofá. Ela é a única que ainda tenta assistir o filme. - Zack, esse é o Lando, aquele garoto que eu te contei - América explica e Zack balança a cabeça para mim em um cumprimento silencioso. - Eai - Zack diz antes de caminhar para o sofá. Ele se senta ao lado da menina m*l humorada, que rouba pipoca dele. - Vem - América me puxa pela mão para o centro da sala e eu me sento no sofá menor que tem ali com ela ao meu lado. É estranho estar em um lugar tão diferente do que eu estava há trinta minutos atrás, principalmente por ser fora do que eu costumo frequentar. Entretanto, me parece o melhor lugar para se estar hoje, pelo menos consigo pensar em silêncio, e não sentir remorso por nada. - Que bom que veio - América murmura se inclinando para meu lado. - Não foi nada - Murmuro de volta e vejo a testa de América se encher de vincos desconfiados. - Você bebeu tequila - Ela comenta provavelmente depois de sentir meu hálito. A última coisa que eu queria falar hoje era sobre Bradley e Noah, mas não vou conseguir fugir. Eu poderia mentir, poderia evitar falar, mas sinceramente estou exausto demais para inventar qualquer coisa, ou ser forte com América que vai insistir em saber mesmo eu dizendo que não. - Estava na festa do meu amigo, lembra que eu te contei? - Oh sim! Então você foi lá? - Ela está ansiosa. - Fui, mas fiquei pouco. A Bradley estava lá. - Não. - América parece incrédula. - Sim. Ela foi com o Noah, sabe, o que era meu amigo e me roubou ela. - Digo. Não sei se é certo falar sobre isso com América, mas ela é a única que me restou para desabafar. - Vocês conversaram? - Mais ou menos - Coço a nuca repentinamente envergonhado do que fiz, porquê ao lado de América eu me sentia assim? - Pelo visto não foi uma boa conversa - Henry diz lançando um olhar assustado para minhas mãos. Fico surpreso ao ver que os três estão prestando atenção para minha conversa com América, e até me sinto incomodado. Olho para as articulações dos meus dedos, vendo elas sujas de sangue já seco. O sangue de Noah. - O que foi? - América questiona confusa. - Ele tá cheio de sangue nos dedos. - Henry esclarece simples como se estivesse pedindo um copo de água. América fica tensa ao meu lado, como quem tem medo. - O que você fez? - Ela me pergunta, a voz afetada pelo receio. Droga. - Pode me levar ao banheiro? Eu te conto tudo lá. - Murmuro para ela, a vergonha aumentando a cada segundo. Em outra situação, eu sairia nesse exato momento de sua casa e iria para a minha, onde eu apagaria o seu número e nunca mais teria contato com ela. Mas não consigo, seu abraço ainda está me aquecendo mesmo que tenha acontecido há alguns minutos. Em silêncio América se levanta do sofá e caminha para outro cômodo da casa. Eu a sigo até pararmos na porta do banheiro. Ela tateia a madeira para achar a maçaneta e abre a porta para mim. O banheiro é revestido por azulejos com flores azuis e brancas, me fazendo lembrar do banheiro da casa dos meus pais. Por que essa gente ama esses enfeites bregas? - Foi o Noah - começo a dizer enquanto tiro o sangue na pia. América está encostada na porta me ouvindo. - Ele beijou ela na minha frente e eu não me controlei. Acho que quebrei o nariz dele. - Seco minha mão na toalha de rosto pendurada ali, não dando importância para a sujeira do resto de sangue que fica nela. América ri, me surpreendendo. - Bradley vai ficar sem beijar ele por um tempo - Ela zomba e mesmo depois de tentar resistir, eu caio na risada também. - Não está brava com o que eu fiz? - Pergunto, mesmo não me importando com a opinião dela eu quero saber. - Fiquei assustada a princípio, mas ele merece. - Fala. Finalmente alguém que me entende. - Meus amigos acham que o errado sou eu, sendo que o Noah traiu a minha confiança, acredita nisso? - Me encosto na porta também, ficando ao lado de América. - Foram tantos momentos que eu passei ao lado dela...uma vez ela me disse que eu fui a melhor coisa que havia acontecido com ela - sorrio ao me lembrar. - Ela queria se casar na praia e eu já estava fazendo planos para isso. América me escuta atentamente e em silêncio, o que me faz querer a contar ainda mais sobre minha relação com Bradley. Viajo em minhas memórias boas, conto o máximo que consigo para ela, falo até mesmo das melhores noites de sexo que tive com Bradley, ocultando os detalhes obviamente. Nunca me abri assim para ninguém antes, talvez seja porque ninguém nunca se interessou em saber, enquanto América parece gostar de me ouvir. Quando dou conta, nós dois estamos sentados no piso do banheiro com as costas contra a porta. Passamos longos minutos ali. Eu apenas falando e América ouvindo e vez ou outra sorrindo. - Uma vez pensamos que a Bradley estava grávida, fomos até em uma loja de bebês ver algumas coisas. Saímos de lá com uma chupeta - rio - até hoje a tenho guardada. Bradley não estava grávida, mas prometemos que aquela seria a primeira chupeta do nosso futuro filho. - Isso é adorável - América comenta com um sorriso doce, o que me cala. Eu congelo ali, observando seu rosto calmo. Que loucura estarmos assim em pouco tempo, não sei o que sentir ou pensar sobre isso, mas eu gosto, quase quanto gosto de ficar ao lado de Lewis. - Ai estão vocês! - Zack aparece quebrando minha hipnose - Perderam um ótimo filme. - E você perdeu uma ótima história - América rebate, tirando uma risada minha. Eu a ajudo a se levantar após me colocar de pé. Seus dedos pequenos e macios acariciam as costas da minha mão enquanto saímos do banheiro, e mesmo achando estranho demais seu gesto, eu também gosto. Voltamos para sala com o Zack, e encontramos os outros dormindo. A menina que me odeia está com a cabeça contra o sofá e o Henry contra a cadeira. Acho que ninguém por aqui está muito acostumado a dormir tarde, provavelmente nem se passa das onze horas ainda. - Henry e Malu dormiram - Zack avisa para América que solta uma risadinha. - Vocês podem levar o Henry para o quarto porfavor? - ela pede para Zack e eu. Ambos concordamos antes de acordarmos o Henry, Zack fica responsável em levar a cadeira que é mais leve para ele, e eu pego Henry no colo. Ele é mais magro do que eu imaginei, mas me deixa levemente cansado quando termino de subir as escadas para ir ao quarto que Zack entrou. Colchões estão espalhados pelo chão, provavelmente eles os colocaram ali para todos dormirem juntos, então deixo Henry com o máximo de cuidado que consigo no colchão, e Zack joga o cobertor sobre o seu corpo. - Obrigada meninos - América responde entrando no quarto com Malu ao seu lado sonolenta, e mesmo ela caindo de sono, ainda me manda uma carranca antes de deitar no colchão ao lado de Henry. Volto para a sala com América e Zack. Ele põe um outro filme, dessa vez um de comédia. - Quer que eu narre algumas partes para você? - Zack pergunta atenciosamente para América sentada ao seu lado. Eu estou em um sofá sozinho enquanto os dois estão juntos. Me parece quase como se eu estivesse sobrando ali, o que me deixa ligeiramente desconfortável. - Sim, obrigada - América agradece com um sorriso. Zack beija a testa dela antes de voltar com sua atenção para o filme. Ele é bem delicado e atencioso com América, como qualquer garota gostaria de ser tratada, e isso me faz viajar em uma onda de questionamentos. Será que se eu tivesse sido mais delicado com a Bradley ela ainda estaria comigo? Se eu tivesse a levado mais vezes ao cinema ou ao seu restaurante favorito, será que ela não teria me traído? Noah fez isso muito mais do quê eu, por isso ela me trocou por ele? Pensar nessas coisas me deixa com uma enxaqueca terrível. O assunto Bradley é delicado demais para mim, mesmo eu tentando deixar tudo isso de lado, eu sempre volto para os pés dela. É um inferno, mas um inferno bom, afinal eu a amo e sei que de alguma maneira ela ainda sente o mesmo por mim. - Um homem está abaixando as calças e mostrando a b***a para sua ex esposa - Zack narra a cena para América que se desfaz em risadas. (...) - Ela estava bem cansada - Zack diz voltando para a sala depois de deixar América no quarto. Ela dormiu no ombro dele trinta minutos depois que o filme começou - A marcha hoje foi cansativa para ela. - Ele se senta no sofá. - Você estava também? - Sim. América praticamente me obrigou a ir, mas foi ótimo ela ter feito isso. Me senti rodeado de pessoas amorosas depois de tudo que passei. - Sinto sinceridade na voz de Zack. - Isso é bom, acho que América tem o dom - Falo tentando achar uma maneira de encerrar essa conversa para poder ir embora, mas Zack continua: - Sua história é apenas sobre esse seu amigo e sua ex? A palavra "ex" relacionada a Bradley me soa estranha, muito estranha. - De relevante? Sim. - Respondo honestamente. - E você? Zack ri sem humor balançando a cabeça. - Bom, eu perdi minha perna há um ano em um acidente de carro, entrei em depressão e a minha salvação foi a América. - Ele passa os dedos pelo cabelo n***o - A conheci em um programa social sobre inclusão e pela primeira vez em meses eu me senti um ser humano outra vez. Engulo em seco. Parece tão pequeno agora o que estou passando comparado com Zack, talvez ele pense que eu seja um grande t**o, e eu não negaria. - Não consigo me imaginar passando por tudo isso - digo tirando uma risadinha de Zack. - Eu também não me imaginava passando por isso, mas passei - ele se inclina e pega uma garrafa de refrigerante da mesa de centro e a bebe, logo depois seus olhos escuros estão em mim - O que você quer com América? - Sua voz está pesada, ameaçadora. - Como assim? - Confusão preenche o meu rosto. - Não se faça de desentendido Lando - ele pronuncia meu nome enfatizando cada sílaba e é quando eu entendo. Nenhum homem ficaria tão preocupado assim atoa por causa de uma garota. Zack quer saber se sou uma ameaça para ele, claramente é apaixonado por América e agora pensa que sou um concorrente. Tento não achar graça nisso para conseguir o responder, mas juro que é difícil. - Não se preocupe Zack - Falo seu nome com a mesma ênfase que ele deu ao meu - Nada me interessa na América. - Torço para ter sido convincente o máximo possível, não desviando do olhar intimidador de Zack em momento algum. Ele balança a cabeça relaxando um pouco, mas não completamente. Parece duvidar do quê falo, mantendo ainda a sua desconfiança, o que acho imensamente bobo da sua parte. Meu coração é de Bradley, e de ninguém mais. Se ele soubesse que até a amizade de América eu sou relutante, talvez acreditasse. - Você pode pensar que isso não vai acontecer Lando - Zack bebe mais do refrigerante, agora virando seu rosto para a televisão - Mas vai. América não é qualquer pessoa. Isso era óbvio, a maneira de ser de América era a maior característica dela, mas nem por isso eu me apaixonaria por ela. - Acho que vou indo - Me levanto já exausto dessa conversa. Não iria me importar ainda mais em convencer Zack do que eu estava falando, honestamente poucas pessoas eu me importo em explicar algo, e ele claramente não é uma dessas. Assim que chego na porta para ir embora, a voz de Zack soa em minhas costas. - Ela não é para você. Reviro os olhos e saio.
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