Capítulo IV-O Peso do Segredo

1610 Palavras
Isabel Oliveira Quatro dias. Três noites. E o silêncio de Zaya Oliveira era um grito que não parava de ecoar nas paredes desta casa. Mário voltou da delegacia com as mãos vazias, e cada vez que eu olhava para as quatro crianças esperando por ela, meu peito se partia. Não era só eles; nós estávamos todos abandonados. Marcos tentava ser o forte, Mário derretia-se feito manteiga no calor, perdido entre controladores de pressão arterial e copos de leite para cortar o efeito da agonia. Enquanto isso, em mim, a culpa pesava. E era uma culpa maior, suja. O mesmo homem que agora caçava provas contra o meu cunhado era o homem com quem eu tinha me atracado naquela sala. Como eu pude fazer isso? Me senti a pior das cachorras. Zaya era o solo da minha vida, e naquele momento de dor profunda, eu estava querendo ser dividida no meio por aquele delegado. Ele m*l tinha partido quando o Grego chegou. Veio todo afoito, perguntando por Marcos, exalando aquele cheiro de perigo que eu conhecia bem. Tudo o que eu fiz foi engolir o choro e dar as costas para ele. — Ô n**a, fica assim não. Vamo encontrar ela — Grego disse, tocando o meu ombro e beijando o topo da minha cabeça. Ele tinha seus momentos brutos, e eu já tinha minhas certezas de que não era a única para ele. Mas o que eu poderia cobrar? Chefe de morro, traficante, envolvidão com tudo e, como ele mesmo dizia, um "homem do povo". — Então não promete, Grego! — Eu me virei mais que virar na desgraça. A raiva nem era só com ele, era comigo mesma pelo que fiz. O cara grande... esse era o meu m*l. O Rio tinha dessas coisas: homens grandes, fortes e, pior, tatuados. Eu sabia que tinha vindo parar no lugar errado, e Grego era um dos motivos. No começo, ele queria a minha irmã, mas quando a Zaya o despachou, eu não dei tempo. Foi nos fundos do restaurante mesmo que eu dei para ele. Lembrei das mãos apoiadas na parede de metal, a calcinha que nem sei onde ficaram os pedaços. Ele m*l esperou; meteu a boca em mim com vontade, uma lapa de chupada na minha b****a que me fez perder o rumo. E quando meteu a cabeça, dizendo que era um pouco grande, eu já estava era toda lambuzada por aquele criminoso pauzudo. Ele me fez revirar os olhos quando senti a bichinha molhadinha recebendo ele todo. Mas agora, olhando para o Grego ali na minha frente, todo aquele fogo tinha ido embora. A pior sensação era a de ser quenga, ainda mais com a irmã sumida. — Calma n**a, calma... eu sei que tu tá nervosa — ele disse, recuando diante do meu olhar, até passar pela porta e se mandar de uma vez. A culpa pairava em mim. E não era por ter traído o Grego, aquilo tinha sido apenas uma gaia diante das mil que ele já devia ter colocado em mim. O peso era pela pessoa. Pelo delegado. Pelo desejo que não morria nem diante da morte, eu tomei uma decisão, nunca mais ver ele, mesmo que me trouxesse Zaya de volta, era a minha promessa. No domingo, o céu desabou. A desgraça não bateu na porta, ela chutou tudo. A prisão de Marcos foi decretada e aquele infeliz, aquele delegado de olhar cortante, levou o meu cunhado como se estivesse levando um saco de lixo. As crianças, que já viviam no limite do susto, desabaram. Minhas rezas e promessas, que eu tinha feito com tanta fé, cessaram no mesmo instante. Se Deus não ia ajudar, eu também não ia mais pedir. Mário chorava sem parar, um desespero que me dava náuseas. Eu não tinha outra saída. Com Zury nas ancas, sentindo o peso da menina e a agonia do momento, saltei do carro. Eu ainda estava de camisola bege, os cabelos de qualquer jeito, sentindo a mãozinha da minha sobrinha se enfiando nos meus p****s em busca de um conforto que eu m*l conseguia dar. — Posso saber qual a razão de levar o Marcos? — Desci desaforada, a voz cortando o ar da delegacia. Vi os soldados levando o Marcos algemado, a imagem mais injusta do mundo. Mas fui sumariamente ignorada pelo Vitorio. Ele estava lá, num jeans pouco justo que marcava as pernas fortes e uma blusa social vermelha escura que o deixava com um ar de autoridade perversa. Entrou na delegacia com o nariz empinado, assombiando, girando a chave do carro preto, de pura pirraça, como se eu fosse apenas um mosquito zumbindo atrás dele. Eu o segui. Zury gritava do carro, agora amparada por Ulisses, marido de Mário, meu cunhado, a menina chamava pelo pai, um som que rasgava a alma. Dadai não tinha condição nem de cuidar de si mesmo, imagina da pequena. Tinha n**a, nossa irmã mais nova, mas eu não confiava nela nem para atravessar a rua. Vitorio entrou na sala dele, impune. A porta m*l se fechou e eu entrei junto, atropelando o policial que tentou me barrar. Passei por aquela porta pronta para levar tudo pelos ares. — Posso saber por que está prendendo o Marcos? — Perguntei, surtada, sentindo o sangue latejar nas têmporas. Ele, com uma cautela que me irritava, sentou-se atrás da mesa. Aquele homem não tinha pressa, não tinha nervos. — Muito preocupada com o seu cunhado, não? Quem está desaparecida não é sua irmã? — Ele disse calmamente, o fi da peste. Eu rosnei um xingamento entre os dentes, sentindo o ódio e aquela atração maldita brigarem dentro de mim. Vitorio me olhava com aquele olhar de gato do mato, me varrendo de cima a baixo com um riso curto de desdém que me fez arder. Só então eu me olhei. Eu estava ali, na frente dele, de camisola bege, sem sutiã, com a marca dos dedos da Zury no meu peito e a pele exposta. O desdém dele era o combustível para o meu fogo. Ele sabia o efeito que tinha sobre mim, e eu odiava o fato de que, mesmo no meio da ruína da minha família, o meu corpo ainda reagia ao modo como ele preenchia aquela camisa vermelha. O clima na sala pesou, o ar ficando tão escasso que parecia que as paredes estavam se fechando em cima de nós, a minha atenção estava toda naquele homem cínico sentado à minha frente. — Só quero saber porque você o prendeu? — Minha voz saiu num tom perigoso. — Claro que estou preocupada com a minha irmã, quero saber o andamento das coisas ai... O senhor prende um homem de bem enquanto o sequestrador da minha irmã deve estar rindo da sua incompetência em algum lugar desse Rio de Janeiro! Vitório não se abalou. Ele se levantou devagar, com a elegância de quem sabe exatamente o poder que tem. A blusa vermelha social esticava no peito largo conforme ele rodeava a mesa, vindo na minha direção com aquele passo de quem não tem pressa de dar o bote. — Homem de bem, Isabel? — Ele repetiu, parando a centímetros de mim. — O seu "homem de bem" tem conexões que você nem imagina, já esteve a frente de morro, já foi preso, julgado, acusado de morte dos pais. E se você tem tanta certeza assim, por que não gasta essa energia me trazendo provas do contrário em vez de vir aqui de camisola gritar no meu ouvido? Ele se inclinou, e o cheiro dele, aquele perfume amadeirado misturado com o cheiro de homem limpo, me atingiu em cheio. Meus olhos caíram para a boca dele, o riso de desdém ainda ali, enquanto o olhar de gato do mato continuava a me despir por baixo daquela camisola bege fina. Os cabelos da minha periquita crescendo feito mato, nesse dessassego eu nem tinha cabeça para pensar nisso, mas nesta hora pesou, era preto, grossos e certamente marcava naquele tecido. — Você está cego, Vitório — eu disse, a voz falhando enquanto eu tentava recuar, mas as costas bateram na porta fechada, eu conhecia a história de Marcos, aliás, quem não conhecia lá em casa? — Cego pela sua vontade de ser o herói que prende um ex-condenado. — E você, Isabel? — Ele sussurrou, a mão grande subindo e parando na porta, logo acima da minha cabeça, me cercando. — Está cega pelo quê? Pela lealdade a um cunhado ou pela vontade de estar aqui, desafiando a lei só para ter a minha atenção? O desafio dele me queimou. Zury gritava lá fora, ele olhou para além de mim, pelo choro que incomodava depois voltou para mim, a expressão mudando de deboche para algo muito mais sombrio e denso. A proximidade era um pecado. Eu sentia o calor do corpo dele através da seda fina da minha roupa. Minha respiração ficou curta, os m*****s endurecendo sob o tecido bege, e eu soube que ele viu. Ele deu aquele sorriso curto de novo, mas dessa vez não tinha desdém. Tinha fome, passou a mão pelo rosto, a mão grande, enorme, veiosa, marcada. — Prova, Isabel — ele murmurou, o rosto agora tão perto que eu sentia o hálito dele na minha pele. — Me prova que eu estou errado. Porque, até agora, a única coisa que você está me provando é que não consegue ficar longe de mim, nem no meio da desgraça da sua família. Eu queria esbofetear a cara dele, mas minhas mãos tremiam. Eu queria gritar que o odiava, mas meu corpo inteiro pedia para que ele calasse a minha boca de uma vez por todas.
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