Capítulo 8: Pele Queimada

1259 Palavras
Henry A pequena garota loira estava com uma cara de pânico ainda pior do que quando ela achava que eu estava morto e surgi diante dela. Queria não me incomodar, mas foi inevitável, Madeleine me detestava por completo. Ah, meu anjo, não vai se livrar de mim! — Pra você seria muito melhor que eu continuasse morto... Não esperei ela falar nada, aliás não era uma pergunta. Passei no meu quarto para pegar uma camiseta, ficava sem todo o tempo que podia, mas não queria lidar com a comoção das pessoas ao ver o que o meu corpo se tornou. Um amontoado de pele queimada. Quando desci me deparei com Max que estava se servindo de uma dose de uísque e nem era meio dia ainda, e pensar que já o critiquei por isso. — Coloque uma dose pra mim! — pedi. — Quem é você e o que fez com o meu amigo? — ele provocou. — Seu amigo acordou pra vida... — Que piada sem graça, cara — Max sabia que eu passei muito tempo desacordado depois do acidente e entendeu a referência. Brindamos e eu perguntei onde estavam as pessoas do laboratório. — Tomei a liberdade de levá-las para uma sala reservada, não sabia como você pretendia conduzir isso, então não sabem ainda que você está vivo. Falei que precisava de um novo exame para o processo... — Fez certo, mas providencie uma coletiva de imprensa. Precisa ser ainda hoje, tenho que visitar os galpões e quero que os meus clientes saibam que estou de volta, preciso saber como ficaram os meus negócios nesse período que estive ausente. — Com esse seu pequeno problema de memória, creio que deveria ir devagar... ou só não se lembra de Madeleine? — ele riu, e colocou mais uísque em nossos copos. — Engraçado você falar isso, porque é exatamente como me sinto! Max parou de falar e olhou para o topo da escada. — Essa mulher é muito linda! Madeleine usava uma camiseta polo cinza e um short curto jeans, dava pra ver que suas roupas eram gastas, mas Catarina em seu colo vestia um belo vestido azul, e uma faixa na cabeça com um laço grande, que combinava perfeitamente com a cor dos seus olhos. — Saiba que se olhar novamente por mais de três segundos para a minha mulher, eu vou quebrar a sua cara — falei por entre os dentes para que apenas Max me ouvisse. — Para um homem que não se lembra dela, você se apaixonou em tempo recorde! — ele sussurrou de volta, mas virou-se de frente pra mim. Madeleine caminhou com passos firmes na minha direção, mesmo assim me senti inquieto por dentro, não conseguia aceitar que simplesmente não me lembrava dela. Revisitando algumas memórias do passado, não sentia como se houvesse lacunas na minha mente, mesmo quando acordei pela primeira vez e não fazia ideia de onde estava, me lembrei com detalhes do acidente de helicóptero e inclusive o motivo pelo qual estava sobrevoando aquela área. Era irônico que um lugar cercado pela pobreza possuísse algo tão valioso, teria que voltar lá. — Max, mudança de plano — falei assim que Madeleine parou diante de nós — quero que coletem o meu sangue para fazer o exame. Não ligo que as moças do laboratório saibam que eu estou vivo. Em breve, todos vão saber de qualquer forma! Dei um sorriso amarelo, mas Madeleine apenas ergueu o queixo e saiu marchando na frente. Depois do momento dramático, iniciou-se o processo de coleta. Começaram por mim, e eu quase coloquei a mulher que segurava a agulha para fora da minha casa quando foram retirar o sangue de Catarina. Quando ela fez um biquinho com a boca antes de começar a chorar, senti o meu coração apertar no peito, olhava para ela como se fosse minha filha, não tinha como ser diferente. Ela se parecia comigo. O resultado sairia dentro de algumas horas, mesmo assim eu não tiraria os olhos de Madeleine por um segundo sequer. Havia uma mesa de madeira na área externa, Max e eu nos sentamos, enquanto Madeleine balançava Catarina para acalmá-la. Max me fazia perguntas aleatórias, sabia que estava testando a minha memória. Pelas expressões que fazia ou eu estava indo muito bem ou muito m*l. Quando Madeleine se afastou um pouco mais, ele baixou a voz pra falar: — Sua memória está excelente, não acha incrível que você não se lembre apenas dessa mulher? Sinceramente Henry, essa criança não é sua filha! — Me lembro dela — sussurrei pra ele — sonhei com ela enquanto estive em coma. Max me olhou surpreso, mas isso bastou para que relaxasse um pouco. Ele trabalhava comigo há tempo suficiente pra saber o que acontecia com quem me enganava, pelo jeito ele também havia se afeiçoado a Madeleine e temia por ela. Quando o responsável pelo laboratório chegou com o resultado do exame, fomos todos para o meu escritório. Pela primeira vez, desde que o processo começou, Madeleine parecia preocupada. Me sentei na minha cadeira atrás da escrivaninha, Max e o médico ficaram de pé, enquanto Madeleine se sentou na minha frente com Catarina no colo, que brincava distraída com a faixa que deveria estar em sua cabeça, mas agora ela arrancava o laço com as mãos gordinhas. O telefone de Max tocou, e ele fez sinal que precisava atender, saiu da sala, mas voltou rapidamente, porém o seu rosto entregava que tinha algo errado. — Doutor, pode ler o resultado para nós? — pedi, ansioso. — Sim, senhor. — ele abriu o envelope com facilidade, passou os olhos pelo papel antes de continuar — Sr. Blackburn, o senhor é o pai de Catarina. Madeleine engoliu em seco, Max por sua vez estava mais sério que de costume. Esperei o médico sair para ir até a Madeleine e pegar Catarina nos braços. — Minha filha! — meu coração batia descompassado, tomado pela emoção. — Vou levá-la para amamentar, ela deve estar faminta — Madeleine avisou depois de um tempo. Assim que Madeleine saiu com a bebê, me voltei para Max. — Aconteceu alguma coisa? — Não — respondeu, prontamente. — Certo. Max, providencie a documentação necessária, vou me casar com Madeleine! — Tem certeza disso? — ele me olhou como se eu estivesse completamente louco, e não estava tão errado. — Catarina precisa da mãe e do pai juntos. Não vou permitir que a minha filha cresça... como eu. — A situação da Catarina é bem diferente, os seus pais morreram. Henry, você gosta da Madeleine? — ele perguntou, direto. — Não sei, mas eu quero ela! — Isso faz sentido, não está apaixonado, mas quer torná-la sua esposa... — Falando assim, faz parecer que estou louco. — Longe de mim te julgar, acontece que você nunca quis nenhuma outra mulher assim antes... ou elas não te quiseram — ele sorriu, achava incrível a minha capacidade de ser odiado pelas mulheres em tempo recorde. — Passei pelo inferno nesse tempo que estive "morto", mas eu sobrevivi — abri os botões da camisa e retirei com cuidado, o tecido já estava grudando nas minhas costas — Madeleine, é o meu anjo. Girei o corpo diante do olhar atônito de Max. — p***a! — ele xingou baixinho — Ela quer se casar com você? — O que você acha? — perguntei, deixando transparecer a minha frustração. Madeleine não era tão diferente das outras mulheres que eu conheci, ela também não me queria mais. — Farei com que Madeleine aceite esse casamento! — Max falou confiante.
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