Madeleine
Tinha ido até o quarto de Henry disposta a contar toda a verdade, após o beijo que ele me deu tive certeza que não poderia continuar com aquilo. Imploraria pelo seu perdão e para que não me denunciasse.
Quando entrei e o vi parado diante do espelho usando apenas uma calça de moletom cinza, o meu coração bateu descompassado, tinha algo nele que me prendia de um jeito doloroso e incompreensível. Doloroso, porque eu não queria sentir que o meu corpo respondia a ele de um jeito tão vulgar. Não era sobre sentimento e sim atração. Incompreensível, porque em toda a minha vida eu nunca me preparei para resistir a um homem, apenas para rejeitá-los e havia uma distância enorme entre uma coisa e outra.
Espalhei a pomada na suas costas, acompanhando a expressão séria dele pelo reflexo do espelho. Era inacreditável que ele conseguisse tolerar a dor tão bem, como se fosse acostumado. Ninguém deveria se acostumar com algo assim.
Passei a ponta da língua pelo lábio mordido, minha boca formigava. Foi o meu primeiro beijo, um beijo roubado, inesperado e intenso, pra piorar, veio de um homem que muito em breve me odiaria.
Pensei que o melhor seria adiar a confissão, pelo menos até que Henry se recuperasse completamente, ele já estava sofrendo, contar a ele que uma desconhecida fez uma inseminação artificial com uma amostra roubada, pareceu demais para o momento. Sabia que parte da minha decisão era motivada pela minha própria covardia.
Antes mesmo de rosquear a tampa do frasco da pomada, Henry virou-se de uma vez, me agarrou e me colocou sobre a sua cama. O seu corpo rígido sobre o meu me fez ofegar, a proximidade enviava uma onda elétrica que percorria cada centímetro do meu corpo.
— Henry — seu nome saiu sussurrado, minha mente parecia em branco. Não conseguia raciocinar, apenas sentir. A pressão do seu corpo sobre o meu, a mão grande que segurava a minha cintura de forma possessiva e íntima, tudo nele era um combo de masculinidade impossível de ignorar.
— Madeleine, me ajude a lembrar de você...
Henry tinha a voz naturalmente rouca, e o som chiado intensificava o incêndio que se alastrava dentro de mim. Sem pensar direito, minhas mãos subiram para o seu pescoço com cuidado para não encostar nas feridas em suas costas, entrelacei os meus dedos ali, e puxei lentamente o seu rosto em direção ao meu.
O beijo deveria ser muito mais do que o contato brusco a qual Henry me submeteu, e eu me vi desejando testar os lábios dele de outra forma.
— Prometa que vai ficar completamente imóvel... — murmurei.
Ele deu risada e assentiu com a cabeça.
Toquei os seus lábios com os meus, experimentando apenas o contato, ele fez o que eu pedi e ficou quieto. Mas quando comecei a me movimentar sugando os seus lábios para desfrutar do seu sabor, ele se agitou, a mão em minha cintura apertou de um jeito doloroso que certamente deixaria a marca e a sua língua pressionava a minha boca para que eu abrisse. Não queria ir além, aquilo era íntimo demais.
Henry roçou o corpo no meu, o seu peso em cima de mim me deixava sem ar, enquanto ele atacava a minha boca com força, descendo para o meu pescoço e ombro.
Estava morrendo de medo de que ele avançasse ainda mais, principalmente porque eu tinha começado com aquilo. Me lembrei do que ele disse, que podia pedir pra parar e ele não me forçaria, rezei pra que fosse verdade.
— Henry, pare! — minhas mãos foram para o seu peito, empurrando-o, seu rosto se contorceu de dor, ele parou por um momento e se afastou.
— Madeleine...
Henry rosnou o meu nome por entre os dentes cerrados, os músculos do seu corpo estavam tensos e o seu semblante estava mais sombrio do que nunca. Temi que ele me agarrasse e fizesse amor comigo contra a minha vontade, dei alguns passos para trás, acabei tropeçando e quase caí, mas Henry me segurou, impedindo a queda.
— Não encosta em mim! — gritei, sentindo os olhos úmidos.
— Madeleine, por favor não me olhe assim. Não me olhe como se eu fosse um monstro — a dor estava estampada em seus olhos escuros.
— Eu não devia ter encostado nos seus machucados... — joguei meus pensamentos em outra direção, estava apavorada, mas por outro lado não queria que ele se sentisse m*l porque eu fui tola o suficiente pra achar que poderia beijá-lo.
Vi a sacola da farmácia em cima da mesa no canto do quarto, fui até lá e peguei um dos comprimidos para dor, o mais forte que tinha, e entreguei para ele com um copo de água.
— Não estou com dor, Madeleine. Estou frustrado, meu corpo arde em um desejo louco para entrar inteiro em você... não sou bom em lidar com esse tipo de frustração.
— Mesmo assim, tome o remédio, é forte e vai te fazer dormir, pelo menos isso vai te manter longe do meu quarto!
Ele deu sua típica risada rouca, não era um som agradável de satisfação, muito pelo contrário. Era como um alerta de perigo, um chiado ameaçador. Ele pegou o comprimido da minha mão e tomou.
— Nunca vou te forçar, não sou esse tipo de homem. Posso ser um pouco...
— Rude? — completei a frase por ele.
— Eu ia dizer intenso... — ele resmungou — Seja como for, não precisa me dopar para que eu não te ataque, se não me quiser eu não vou te obrigar. Nunca forcei uma mulher antes e não pretendo começar agora!
— Certo — me virei em direção a porta, quando passei pelo espelho grande que tinha na parede lateral do quarto, vi o meu próprio reflexo, e um sentimento estranho me invadiu. Que loucura a minha achar que poderia simplesmente beijar um homem como Henry.
Henry era o tipo de homem que sem dúvida alguma tinha consciência da sua aparência e riqueza, nenhuma mulher foi boa o suficiente para que ele sequer assumisse um romance público. Bilionário solitário, era o que os jornais diziam sobre ele. O sexo devia ser a única coisa que ele buscava em uma mulher, ainda mais uma mulher como ela, lamentou estar usando um pijama tão sem graça, a estampa de coelho na sua blusa era realmente ridícula.
Quando o beijou, pensou estar vivendo um conto de fadas, sentiu-se assim no início. Céus, era uma tola. Nunca desejou um casamento e agora fantasiar com um romance era uma estupidez, ainda mais com Henry Blackburn.
Henry a chamou no momento em que ela alcançou a maçaneta da porta.
— Madeleine! — ele a encarava com um sorriso torto nos lábios — Ainda não me lembrei de você, devemos continuar tentando ou eu vou achar que você não passa de uma grande mentirosa, amor...