Capítulo 18 - Quatro da manhã.

1561 Palavras
Atena Oliveira 06/05 | Barcelona, ES Desci do quarto em silêncio, cada passo medido com cuidado para não acordá-lo. O corredor estava parcialmente iluminado por lâmpadas embutidas na parede, emitindo um brilho âmbar que deixava a casa ainda mais elegante — e perigosa para alguém que estava tentando escapar sem ser notada. A noite havia sido… Deus, havia sido a melhor da minha vida. Explosiva, intoxicante, visceral. Mas dormir ao lado de Vicente? Isso era outra história. Acordar nos braços dele poderia criar laços que eu definitivamente não estava pronta para enfrentar. E eu não estava ali para isso. Não podia estar. Cheguei ao fim da escada e o andar de baixo surgiu diante de mim como algo tirado de uma revista de arquitetura: piso de mármore claro, janelas enormes revelando o jardim iluminado por pontos de luz, esculturas discretas posicionadas com perfeição. A casa parecia grande demais, silenciosa demais… e eu, minúscula dentro dela. Encontrei a porta de entrada após alguns segundos de busca tensa. Respirei fundo e saí, puxando o ar frio da madrugada como se fosse oxigênio puro. Enquanto caminhava pela área externa, pedi um Uber pelo celular. A notificação apareceu rápido, graças a Deus. O jardim era ainda mais bonito sob a luz da madrugada. Havia pequenas fontes, caminhos de pedra rodeados de plantas perfeitamente aparadas, e a brisa carregava um perfume suave de jasmim. Era tão bonito que me distraiu por um segundo. Só um segundo — o suficiente para me lembrar do que tinha acabado de fazer. De quem tinha acabado de deixar dormindo no quarto. Vi alguns seguranças caminhando pelo terreno. Todos vestidos de preto, postura firme, olhar atento. Quando perceberam minha presença, alguns olharam em minha direção e trocaram rápidas mensagens pelo rádio. Logo depois, voltaram a ignorar minha existência — como se mulheres atordoadas saindo da casa do patrão às quatro da manhã fossem rotina. Um deles, porém, desviou sua rota e caminhou até mim. Era alto, forte, e tinha uma expressão de profissional que já viu de tudo. — A senhorita está bem? — perguntou, a voz firme, porém educada. Ele me analisava da cabeça aos pés como se buscasse qualquer sinal de perigo… ou de mentira. Meu coração deu um salto, mas mantive a postura. — Sim. Estou indo embora porque preciso ajudar uma amiga. — menti, com a naturalidade de quem já precisou fazer isso muitas vezes na vida. Ele assentiu lentamente. — Deseja que eu a leve para casa? — ofereceu, caminhando ao meu lado enquanto seguíamos rumo ao portão principal. A gentileza dele me surpreendeu. Mas, ao mesmo tempo, deixava tudo ainda mais real. Vicente tinha seguranças. Vários. Em todos os cantos. Isso não era exatamente novidade — mas eu havia esquecido disso ontem. Ou ignorado propositalmente. — Não será necessário. Já pedi um carro. — respondi. O segurança apenas concordou, mantendo o passo seguro ao meu lado. O silêncio do jardim, misturado às luzes baixas e ao cheiro de terra molhada, tornava a cena quase surreal. Chegamos ao portão. Ele digitou algo em um painel de segurança e a estrutura imponente se abriu com um leve ruído mecânico. Do outro lado, meu Uber aguardava, faróis acesos, como uma tábua de salvação. — Obrigada. — murmurei, antes de entrar no carro. Ele apenas deu um leve aceno com a cabeça. Assim que a porta fechou e o motorista deu partida, senti meu peito finalmente afrouxar. A respiração saiu pesada, quase um desabafo. E então a ficha caiu de vez. Eu havia me esquecido de quem era Vicente Fernández. Esqueci que o homem que me beijou até tirar meu fôlego, que me tocou como se me conhecesse há anos, era literalmente o espanhol mais rico do país — um nome que aparecia em manchetes, eventos, revistas de negócios. Um nome do qual eu deveria manter distância. E eu acabei de sair da cama dele. Meu Deus… o que eu estava fazendo da minha vida? A madrugada de Barcelona seguia lá fora, com suas ruas úmidas e prédios antigos. Mas, dentro daquele carro, a única coisa que eu conseguia sentir era a mistura perigosa de adrenalina, arrependimento… e um desejo absurdo de voltar. Porque o maior problema não era ter ido para a cama com Vicente Fernández. Era querer repetir isso. Desesperadamente. (...) — Você O QUÊ? — Elena praticamente berrou, tão alto que algumas pessoas ao redor no restaurante olharam na nossa direção. Eu revirei os olhos, envergonhada. Tinha contado a ela — com alguns detalhes — o que havia acontecido na noite passada. Quando cheguei em casa de madrugada, minha amiga obviamente estava dormindo. Só conseguimos nos ver agora, na hora do almoço, porque eu acordei tarde demais para qualquer coisa antes disso. O cansaço… e outros motivos… explicavam bastante. Contei que havia ido embora da casa de Vicente enquanto ainda estava escuro, porque dormir com ele poderia complicar coisas que eu simplesmente não queria lidar. Então deixei um bilhete ao lado da cama e… fugi. Simples assim. E agora ela parecia à beira de um colapso nervoso. — Qual é o problema nisso? — perguntei, levando o copo de suco à boca, tentando parecer completamente calma. — O problema, minha querida Atena — Elena apoiou os cotovelos na mesa e inclinou o corpo para frente — é que homens como Vicente Fernández não estão acostumados a serem deixados para trás depois de t*****r. Normalmente eles que deixam a mulher. — Ela abriu um sorriso m*****o. — O que você fez foi quase uma obra de arte. Eu gargalhei, sem conseguir me segurar. — Tô falando sério, Atena — ela insistiu, ficando séria de repente. — Pode ter certeza: Vicente não vai te deixar em paz tão cedo. — Apesar de achar hilária essa sua teoria, eu duvido muito. — Continuei comendo. — Ele é um homem podre de rico, cheio de coisas para fazer. A última coisa que deve preocupar esse homem é o fato de eu ter deixado ele dormindo e ido embora de madrugada. Elena só balançou a cabeça, como se estivesse vendo uma tragédia anunciada. — Ele já te mandou mensagem? — perguntou, semicerrando os olhos. — Não — respondi, com convicção. — E não vai mandar. Foi exatamente nesse momento que meu celular apitou. Olhei a tela e senti meu estômago despencar até o subsolo. “Vicente Fernández — Ligando…” O sangue literalmente sumiu do meu corpo. — É ele, né? — Elena perguntou, já segurando o riso como se estivesse prestes a explodir. Mostrei o dedo do meio para ela e atendi a ligação. Elena, obviamente, fez sinal para eu colocar no viva-voz. Revirei os olhos… e coloquei. — Alô? — Atena? — a voz grave dele me atravessou inteira. Engoli em seco. — Eu mesma. Aconteceu alguma coisa? — tentei soar natural, como se meu coração NÃO estivesse batendo no pescoço. Elena me observava como se eu fosse um espetáculo de circo. — Aconteceu, sim. — A voz dele estava firme. — Não esperava que você fosse embora tão cedo. Elena mordeu o punho para não rir. Me levantei da mesa e me afastei um pouco. — Tinha umas coisas pra resolver — menti, como quem fala sobre comprar pão. — Às quatro da manhã? — ele rebateu, incrédulo. Mordi os lábios para não rir. — Sou uma mulher ocupada — respondi, ainda fingindo indiferença. Tenho quase certeza que ouvi um riso baixo vindo dele. — Achei que nossa noite tinha sido… interessante — comentou. Eu quase engasguei. Interessante? A noite tinha sido um absurdo. Química pura. Fogo. Euforia. Perdição. Mas obviamente eu não ia admitir isso. Fiquei em silêncio. — Mas acordo com um bilhete ao lado da cama… — ele continuou, a voz mais baixa. — E meus seguranças informando que você saiu às quatro da manhã. Comecei a entender como mulheres que trabalham com isso se sentem. Eu gargalhei. Gargalhei ALTO. Tive que limpar lágrimas que escorreram. Ouvi ele rir também, divertido. — Me desculpa — falei, ainda rindo — não queria que o senhor engomadinho ficasse se sentindo assim. Na próxima eu deixo uma gorjeta junto com o bilhete. — Então haverá uma próxima vez? — ele perguntou, pura malícia escorrendo pela voz. Merda. Merda. Merda. — Veremos — respondi, a única coisa que consegui dizer sem perder a dignidade. — Vamos nos ver hoje? — ele perguntou, e meu coração simplesmente pirou. Elena abriu um sorriso tão grande que quase engoliu o próprio rosto. Fiz careta para ela e me virei de costas para a mesma. — Hoje? Nossa aula é só amanhã — tentei desviar. — Então podemos ter uma aula extra hoje — disse, nada inocente. — A academia está fechada — retruquei rápido, antes que ele sugerisse algo ainda pior. — E preciso resolver umas coisas pessoais. Amanhã nos vemos na academia. Houve um silêncio… e então: — Tudo bem, piccola. Até amanhã. — Até amanhã, Vicente. Desliguei e soltei um suspiro tão profundo que quase virei do avesso. Me virei e dei de cara com Elena colada atrás de mim. Dei um pulo. Ela riu alto. — Eu disse, não disse? — Não viaja — murmurei, mas nem eu acreditava nas minhas próprias palavras. Porque, no fundo, eu sabia: Acho que acabei de arrumar um problema enorme com pernas longas, sotaque espanhol e um sorriso capaz de destruir meu juízo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR